agronegócio
Estudo Inédito Aponta Déficit de Carbono de 1,4 Bilhão de Toneladas no Solo Brasileiro
Pesquisa publicada na Nature Communications revela impacto das mudanças no uso da terra e indica caminhos para recarbonização e políticas sustentáveis no país.
A conversão de vegetação nativa em áreas agropecuárias nos seis biomas brasileiros provocou um déficit de 1,4 bilhão de toneladas de carbono na camada de 0 a 30 centímetros do solo — equivalente à emissão de 5,2 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente.
O dado faz parte de um estudo inédito publicado na revista científica Nature Communications, conduzido por pesquisadores da Esalq/USP, Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCarbon/USP), Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e Embrapa.
Essa é a primeira estimativa nacional do estoque de carbono antes e depois das intervenções humanas, permitindo mensurar o impacto da expansão agrícola e pecuária sobre os solos do país.
Os pesquisadores analisaram 4.290 amostras de solo coletadas em diferentes profundidades e regiões, abrangendo áreas de vegetação nativa e agropecuária. Os dados foram compilados a partir de 370 estudos científicos, formando um dos maiores bancos de dados já elaborados sobre o tema.
Essa análise comparativa possibilitou identificar a perda de carbono em seis biomas, cinco tipos de solo e variados níveis de manejo agrícola. “O trabalho não apenas quantifica o problema, mas também mostra oportunidades de recuperação do carbono por meio de boas práticas agrícolas e políticas públicas”, explica Luis Gustavo Barioni, pesquisador da Embrapa.
De acordo com o primeiro autor do artigo, João Marcos Villela (Esalq/USP), a pesquisa estabelece uma linha de base nacional para orientar futuras ações de mitigação. “Apesar da diversidade de metodologias, este é o levantamento mais amplo já feito no Brasil. Ele serve como referência para novos estudos e políticas de recarbonização.”
Clima e bioma influenciam nas perdas de carbono
O estudo apontou que climas frios e úmidos, como os encontrados nos biomas Pampa e Mata Atlântica, tendem a reter mais carbono no solo. Já regiões de clima tropical — Cerrado, Caatinga, Pantanal e Amazônia — apresentam menor acúmulo, sendo mais sensíveis a alterações de uso da terra.
Além disso, quanto maior o estoque inicial de carbono, maior tende a ser a perda após a introdução de atividades agropecuárias. Isso demonstra a importância de estratégias de manejo adequadas em áreas com solos mais ricos em matéria orgânica.
O levantamento também comparou o desempenho de diferentes sistemas produtivos e suas respectivas perdas de carbono. O resultado mostra que a diversificação e integração de sistemas agrícolas reduzem significativamente o impacto no solo.
- Monocultura: perda média de 22% da matéria orgânica;
- Sistemas integrados (lavoura-pecuária): perda reduzida para 8,6%;
- Plantio direto: 11,4% de redução, contra 21,4% no plantio convencional.
Esses números indicam que práticas sustentáveis, como o plantio direto e a integração lavoura-pecuária (ILP), são fundamentais para a retenção de carbono e mitigação das emissões. “Sistemas agrícolas mais integrados e diversificados oferecem maior eficiência no aporte de carbono e ajudam a restaurar o equilíbrio do solo”, ressalta Villela.
Cerrado e Mata Atlântica concentram potencial de recarbonização
A pesquisa estima que cerca de 72% do potencial brasileiro de recarbonização está concentrado nos biomas Cerrado e Mata Atlântica, que poderiam recuperar, respectivamente, 0,53 e 0,48 bilhões de toneladas de carbono.
Ao restaurar um terço desse potencial, o Brasil poderia atingir as metas de redução de emissões definidas em suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) no Acordo de Paris, alcançando entre 59% e 67% de redução até 2035.“Compreender as diferenças regionais ajuda a direcionar soluções específicas e aumentar a eficiência das práticas agrícolas”, explica Villela.
O estudo também abre caminho para novas oportunidades no mercado de carbono. Segundo Daniel Potma, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital, conhecer o tamanho do déficit de carbono é essencial para estimar o valor econômico da descarbonização. “Saber que há um déficit de 1,4 bilhão de toneladas de carbono permite mensurar quanto isso representa em recursos e pode atrair investimentos para a economia verde”, afirma Potma.
A publicação na Nature Communications reforça o reconhecimento global da pesquisa científica brasileira em temas ligados ao clima e à agricultura. Para Luis Gustavo Barioni, da Embrapa, estudos dessa natureza são essenciais para fortalecer a diplomacia ambiental do país.
“Informações científicas sólidas e obtidas em âmbito nacional dão credibilidade às nossas políticas e contribuem para posicionar o Brasil como referência nas discussões climáticas globais”, conclui Barioni.
Entenda as medidas utilizadas
- 1 bilhão de toneladas = 1 petagrama (Pg)
- CO₂ equivalente (CO₂ eq): métrica que converte diferentes gases de efeito estufa em uma base comum.
- 1 tonelada de metano (CH₄) = 28 toneladas de CO₂ eq
- 1 tonelada de óxido nitroso (N₂O) = 273 toneladas de CO₂ eq

