A ofensiva brasileira na exportação de insumos biológicos vai além de uma oportunidade comercial – trata-se de uma reformulação fundamental dos mercados globais de proteção e fertilidade de cultivos.
O objetivo é afastar a dependência de insumos sintéticos e posicionar o país como o arquiteto da nova era da agricultura regenerativa, afirma Mauro Heringer, Diretor de Relações Internacionais da ABINBIO e membro do Comitê Nacional de Exportação de Bioinsumos.
– Estados Unidos: “A EPA é pragmática e baseada no risco real. Nosso foco no dossiê é a Eficácia Agronômica. A estratégia utiliza dados de milhões de hectares brasileiros provando que o produto funciona em escala industrial — algo que testes de laboratório americanos não conseguem replicar.”
– “Os maiores gargalos são regulatórios e a infraestrutura da ‘Logística Viva'”, observou Heringer. “Exportar químicos é simples. Exportar seres vivos (bactérias e fungos) exige cadeia de frio e logística de precisão, ainda cara para longas distâncias. Manter o shelf-life (tempo de prateleira) durante o trânsito internacional é o maior desafio técnico-comercial.”
Conciliando Liderança Sustentável e Escrutínio Ambiental
“O Brasil é uma potência agroambiental: preservamos mais de 60% do território com vegetação nativa e possuímos a legislação ambiental mais rigorosa do mundo (Código Florestal), além de uma lei moderna de bioinsumos. Nenhum outro grande produtor entrega esses números”, enfatizou Heringer.
“Nossa liderança em bioinsumos não é uma tentativa de ‘compensar’ um problema, mas a evolução natural dessa mentalidade preservacionista. Graças à nossa biotecnologia tropical (como a Fixação Biológica de Nitrogênio e Fósforo e o plantio direto), alcançamos um aumento de 400% na produção nas últimas décadas expandindo a área em apenas 40%.”
Biologia de Plataforma
O Brasil resolve a tensão entre localização e escalabilidade através da estratégia de “Biologia de Plataforma”.
1. Padronização Industrial (Upstream): “As fábricas brasileiras produzem esporos e metabólitos com altíssima concentração, pureza e vida útil estendida. Isso é o ‘hardware’ biológico, padronizável e escalável mundialmente.”
2. Adaptação de Campo (Downstream): “O ‘software’ (como usar) é adaptável. Nossas empresas não vendem apenas o galão; vendem o protocolo agronômico. Temos tecnologia de formulação que permite que a mesma cepa robusta seja ativada ou aplicada de forma diferente em solos indianos ou americanos.”
Vantagem do Capital Nacional sob Pressão de M&A
Embora mais de 80% das empresas de bioinsumos ainda sejam de capital brasileiro, o cenário está mudando. “O setor corre o risco de se tornar um excelente ‘berçário’ de startups biológicas que, ao atingirem a maturidade e escala de exportação, acabam absorvidas pelo capital estrangeiro (M&A).”
Empresas nacionais mantêm vantagem porque, “nas multinacionais, os biológicos são frequentemente vistos como ‘complementares’ para proteger a fatia de mercado das moléculas químicas. Nas empresas nacionais, o bioinsumo é o core business. Isso significa que 100% do P&D é focado em biologia.”
Um “Fosso” Competitivo Defensável
“Nosso fosso defensivo é, sem dúvida, a Performance Comprovada em Sistemas Tropicais”, afirmou Heringer. “Enquanto multinacionais compram startups para montar portfólios, o Brasil tem uma vantagem que não se compra: décadas de seleção natural em campo.”
As cepas brasileiras são “atletas de elite” da sobrevivência, testadas sob estresse térmico e hídrico extremo em 40 milhões de hectares, e não apenas em estufas controladas.
“A exportação é apenas o veículo; a mudança de paradigma global é o destino. O Brasil quer ser o arquiteto da nova era da agricultura mundial. Estamos nos posicionando como a ‘Arábia Saudita da Química Verde’. Assim como o Oriente Médio foi indispensável na era do petróleo, o Brasil será indispensável na era da bioeconomia.”


