domingo, 29 março 2026
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Obra de Manoel de Barros dialoga com a conservação das espécies, revela Bosco Martins na COP15

Em uma palestra realizada na nova Livraria da UFMS, dentro da programação da COP15, o escritor e jornalista Bosco Martins compartilhou com alunos e professores aspectos profundos da obra de Manoel de Barros. Autor de Diálogos do Ócio — um inventário de amizade entre o poeta Manoel de Barros e o autor (Editora UFMS, 2025), Martins revelou que o poeta não apreciava o rótulo de “poeta da natureza”.

Para Manoel, a relação com o mundo natural era singular: assim como propunha “voltar ao contrário” para conhecer, ele observava e interagia com os seres e as coisas a partir de uma ótica própria, marcada por uma obsessão particular.

Sobre a aproximação entre a poesia do amigo de três décadas e os princípios da Conferência das Partes, Bosco Martins destacou que a obra de Manoel de Barros “dialoga de forma surpreendente — e até delicada” com as diretrizes da COP15. “Enquanto a conferência reúne governos e especialistas para discutir estratégias de proteção à vida selvagem e conter a perda de biodiversidade, a obra do poeta parece atuar em outra camada: menos normativa, mais sensível — mas igualmente necessária”, afirmou.

O ‘transver’ como caminho para a conservação

No centro dessa aproximação está a ideia de rever o modo de olhar o mundo. Segundo Martins, Manoel de Barros propõe o “transver”: enxergar para além da utilidade, rompendo com a lógica que mede tudo pelo valor econômico.

É um convite a perceber a grandeza no que é pequeno — o inseto, a rã, a água parada, aquilo que o mundo moderno tende a descartar como irrelevante. Enquanto a COP15 busca transformar em políticas públicas a proteção de ecossistemas e a preservação de espécies, o poeta atua na raiz do problema: o imaginário humano. “Manoel desloca o olhar, desmonta hierarquias e sugere uma ética do encantamento. Em vez de dominar a natureza, é preciso reaprender a pertencer a ela”, explicou o palestrante.

Essa conexão torna-se ainda mais evidente quando se pensa no Pantanal. Embora frequentemente associado ao bioma, o poeta nunca aceitou esse rótulo. Em Diálogos do Ócio, Bosco Martins mostra que Manoel rejeitava classificações: não se considerava poeta da natureza nem pantaneiro. Sua poesia, afirmava, é do mundo. “Ao falar do aparentemente insignificante, ele toca o universal”, observa o autor.

“No fundo, Manoel de Barros não escreve sobre a natureza — ele escreve a partir de uma condição de pertencimento a ela. Humaniza o mundo natural e, ao mesmo tempo, dissolve o homem nessa mesma matéria. Há uma espécie de comunhão silenciosa, quase ancestral, que contrasta com a lógica contemporânea de controle e exploração”, completou Martins.

Para o escritor, a poesia pode ser lida como uma forma de educação ambiental: “não aquela dos manuais, mas a que transforma a sensibilidade. Antes de proteger, é preciso aprender a amar. Antes de preservar, é preciso enxergar”. Se a COP15 busca formalizar compromissos entre nações, Manoel de Barros lembra que nenhum acordo será suficiente sem uma mudança mais profunda: a do olhar.

“No fim das contas, talvez ele próprio responda melhor a qualquer tentativa de definição. Quando perguntado sobre o que é o poeta, não recorre a conceitos — prefere o delírio”, finalizou o jornalista, que após a palestra autografou exemplares de Diálogos do Ócio e anunciou uma nova edição do livro para este ano, ampliada com novos textos, imagens e um poema inédito dedicado ao poeta Douglas Diégues.

“O poeta é um ente que lambe as palavras e se alucina”

Em seguida, o escritor e documentarista Arlindo Fernandez, diretor do documentário O poeta é um ente que lambe as palavras e se alucina — produzido com a TV Cultura e também amigo de Manoel de Barros — exibiu trechos da obra, considerada uma das mais “cults” sobre o poeta. Na ocasião, Fernandez lançou seu quarto livro, Upload, que resgata uma experiência marcante: a tentativa de escrever um romance com a orientação poética de Manoel.

“Tudo começou numa conversa com Manoel de Barros. Perguntei se ele entendia de física quântica. Manoel sorriu e respondeu: ‘Eu não!’. Retribuí dizendo: ‘Um dia vou escrever um romance. Não sei quando. Terá as tintas da mecânica quântica e da sua poesia’”, relembrou o autor. Publicado pela Arte Impressa Editora, o romance aborda o amor — uma palavra que, para Manoel, era vazia no universo convencional. A obra de Arlindo Fernandez constrói narrativas que oscilam entre o cotidiano e o extraordinário, onde o sagrado e o profano, o humano e o cósmico convivem na mesma respiração.

Programação na UFMS segue até domingo*

Desde segunda-feira (23), a UFMS, em Campo Grande, desenvolve uma programação especial alusiva à 15ª Conferência das Partes sobre Espécies Migratórias, promovida pela Organização das Nações Unidas. As atividades ocorrem no Expo Bosque, no Shopping Bosque dos Ipês e em outros espaços do Parque das Nações Indígenas, como o Bioparque Pantanal. Paralelamente, a UFMS e parceiros realizam a COP15 POP, evento com diversas atividades gratuitas que unem ciência, cultura e biodiversidade.

“Nossa COP15 POP é fruto do esforço de todas as instituições, do entendimento de que é importante conseguirmos levar os temas científicos e obras literárias para todas as pessoas”, afirmou a reitora Camila Ítavo. Ao final das palestras, a pró-reitora de Cultura e Esportes da UFMS, Lia Raquel Toledo Brambilla Gasques, convidou o público para a abertura oficial da nova Livraria da UFMS, que acontece às 14h30 desta sexta-feira (26).

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