segunda-feira, 30 março 2026
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Chico Chico encerra FestJuv com poesia, entrega e um convite ao encontro

Como quem chega sem pressa, mas ocupa tudo, Chico Chico subiu ao Palco Livre, no estacionamento do Teatro Glauce Rocha, na noite de sábado (28), em Campo Grande, e transformou o encerramento do Festival da Juventude (FestJuv) em um rito coletivo de presença. De chinelo, bermuda e camiseta do seu time do coração — o Vasco da Gama —, o artista parecia mais um jovem entre tantos até começar a cantar.

“É um prazerzaço estar aqui com vocês, com meus amigos”, disse, antes de conduzir o público por um show intenso, sensível e cheio de nuances. A cada música, o pedido do artista direcionado ao público era simples: “canta, canta!”. E o público respondeu à altura — cantou, dançou, registrou e, sobretudo, viveu o momento.

Pela primeira vez em Mato Grosso do Sul, Chico Chico apresentou o repertório de seu álbum mais visceral, “Let It Burn / Deixa Arder”, atravessando o folk, o blues, o rock e a música brasileira com naturalidade. No palco, mais do que performance, havia entrega. Mais do que técnica, havia verdade.

Se a abertura do festival trouxe a força e a experiência de Ney Matogrosso, o encerramento encontrou no frescor de Chico Chico um complemento à altura. Como se o tempo deixasse de ser linha e virasse estado: juventude e maturidade coexistindo como algo que não se mede em anos, mas em intensidade, em presença, em alma.

O artista conduziu o público por uma experiência que transitou entre o íntimo e o coletivo. Homenageou nomes como Rita Lee, Jards Macalé e Alceu Valença, além de surpreender com a intensidade de “Two Modus Blues”, que mudou a atmosfera do show.

Do palco ao público – Para quem assistia, o impacto era imediato. “É um menino talentoso. Conheci ele através da minha neta e me trouxe boas memórias, inclusive pelo timbre da voz, que lembra muito a mãe, Cássia Eller”, contou Anilda Almeida, que acompanhava Beatriz, de 15 anos. Já a jovem fã foi mais direta: “Volto pra casa feliz”.

Nem mesmo o cansaço — ou a gestação — foi obstáculo. Maria do Socorro Gomes, grávida de sete meses, não resistiu ao som, levantou da cadeira e dançou. “É gostoso de ouvir. Lindo demais”.

Em determinado momento, Chico Chico, super à vontade e descalço, anunciou o que ninguém queria ouvir. “A gente está caminhando para o fim do show”. Sentado no canto do palco, ele cantou “Menino Bonito” e, no término da canção, soltou: “Salve Rita Lee”. Parecia ali o ápice. Mas ainda havia mais.

Na sequência, veio um dos momentos mais marcantes da noite. Como um regente, Chico Chico transformou o público em coral. Dividiu a plateia em lados e conduziu “Norte”, de Carlos Posada, em um jogo de vozes: de um lado, “as coisas acontecem de uma hora para outra, mesmo que demore a vida inteira para acontecer”; Do outro, em resposta, “o amor nunca falhou”. Ali, mais do que música, havia encontro.

Depois de outras canções, já com o show se encaminhando para o fim, o artista cantou “Ninguém”, cuja letra ecoa o verso “é que às vezes o tempo para” — quase em contradição com aquele instante que a contragostos dos presentes caminhava para o seu desfecho.

Chico saiu sob aplausos, mas o público não deixou a noite terminar. O clássico pedido de bis tomou conta do espaço — e foi atendido com energia lá no alto em “Blues da Piedade”, de Cazuza, levando a plateia ao êxtase.

“Ultimamente só trabalho, mas resolvi sair de casa. Moro aqui perto e vim conferir o show. Confesso que não conhecia o Chico, mas saio daqui encantado. Campo Grande precisa de mais momentos assim, com cultura acessível e de qualidade”, afirmou o consultor de vendas Anderson Santos.

No palco, Chico Chico esteve acompanhado por uma banda que sustentou a potência do show: Thiaguinho Silva (bateria), Fernando Nunes (baixo), Walter Villaça (guitarra e violão), Cadu Mota (guitarra), Luiz Ungarelli (percussão) e Pedro Fonseca (teclados, direção musical e produção).

Abertura – Mas antes dele, quem ocupou o palco foi Karla Coronel, conectando passado e presente em uma apresentação potente e sensível. Nascida no Paraguai e criada em Mato Grosso do Sul, a artista levou ao público um repertório que transita entre o rock nacional, a música latina e composições autorais.

Clássicos como “Tempo Perdido”, da Legião Urbana, e “Ideologia”, de Cazuza dialogaram com a força de Elza Soares, evocada como na voz de Karla como um grito contra o feminicídio por meio da canção “O que se cala” — especialmente direcionado à juventude. Em meio a esse repertório, ela também apresentou faixas autorais como “Avião”, reafirmando sua identidade artística e talento.

“É uma honra fazer parte do FestJuv e estar aqui para abertura do show do Chico Chico. Poder apresentar um pouco das minhas músicas também. Eu amo esse contato com o público”, destacou a cantora.

“Foi legal ver dois jovens artistas tão talentosos, ela da nossa terra e ele que está no epicentro musical. Eles representam bem o cenário atual”, avaliou a estudante Laila Perez, de 17 anos, que também projetou o próprio futuro. “Quero estar aqui na UFMS ano que vem fazendo Odonto, se Deus quiser”.

Festjuv – O show de Chico Chico encerrou o Festival da Juventude em grande estilo, reafirmando a proposta do evento: criar pontes entre gerações, territórios e linguagens. Ao longo dos seus três dias, de 26 a 28 de março, a programação reuniu nomes consagrados como Ney Matogrosso, Joel Pizzini, Shirley Cruz, Maria Homem, grupo de teatro Sobrevento (SP) e tantos outras personalidades da cena regional e nacional em um espaço vivo de encontro, criação e protagonismo jovem.

O Festival da Juventude é uma realização do Instituto Curumins, em parceria com a UFMS e o Ministério da Cultura, por meio de emenda parlamentar do deputado federal Vander Loubet, além do apoio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), do Fundo Nacional de Cultura e do Governo Federal. Conta ainda com o apoio da Secretaria de Estado da Cidadania, Subsecretaria da Juventude, Secretaria de Estado de Turismo, Esporte e Cultura, Secretaria de Estado da Educação, Fundação de Cultura de MS, Educativa MS, Governo do Estado, da senadora Soraya Thronicke, da deputada federal Camila Jara e da Águas Guariroba.

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