Divulgado na quarta-feira (15), o texto manteve para o próximo ano a meta de superávit primário de 0,5% do PIB (Produto Interno Bruto), o equivalente a R$ 73,2 bilhões. Na sequência, a projeção escala os resultados das contas públicas até 1,5% do PIB de 2030 em diante.
“O cumprimento da meta só é viabilizado com a exclusão de 0,45% do PIB em despesas primárias”, questionam os economistas da Warren. Ademais, o resultado esperado se sustenta na expectativa de que o PIB encerre o próximo ano em alta de 2,56%, acelerando em comparação aos 2,33% esperados para 2026; e na esperança de que a inflação feche ligeiramente acima dos 3%.
“É bom ter mantido a meta em 0,5% do PIB (havia alguns analistas falando na possibilidade de o governo mudar a meta de primário). Mas as premissas estão muito fora da realidade. Então, perde-se a chance de ganhar credibilidade”, pondera Tatiana Pinheiro, consultora econômica e pesquisadora da FGV EESP (Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas).
“As projeções estão muito fora do que estamos vivendo com o conflito no Oriente Médio e nos desdobramentos que podem restar para 2027”, pontua.
O mercado vê o PIB subindo 1,8% em 2027, projeção mantida há 15 semanas segundo o boletim Focus, apurado pelo BC (Banco Central). A mediana dos agentes econômicos ainda indica que o IPCA deve fechar o próximo ano em 3,91%. Por fim, é esperado um déficit de 0,4% do PIB.
Além dos dados macroeconômicos, o governo aposta em um aumento das receitas e queda das despesas obrigatórias como proporção do PIB.
“Devem estar contando com novas fontes de arrecadação, porque geralmente a elasticidade entre PIB e arrecadação é mais ou menos em torno de um. Então, se está crescendo a arrecadação como proporção do PIB, está se esperando algum aumento da base tributária, o que é realmente difícil porque a dificuldade política está cada vez mais clara em relação a aumentar carga tributária”, observa Zeina Latif, sócia-diretora da Gibraltar Consulting.
“Em relação às despesas, […] necessariamente, vai ter que ter reformas aqui. O resultado de um aumento do superávit primário, algo na casa de 1,5% do PIB, assumindo que a gente vai sair de praticamente zero este ano, é um ajuste forte”, ressalta.
Latif avalia que a hipótese de redução de despesas obrigatórias como proporção do PIB se sustenta se vier acompanhada de medidas de contenção, reformas, principalmente do lado de políticas assistenciais e previdência.
“Necessariamente, vai ter que fazer reforma. […] A questão é que são realmente números que só seriam viáveis com reformas constitucionais”, pontua a economista.
“E hoje é pouco crível, hoje é realmente pouco crível esse compromisso. Não quer dizer que não vai ter nada, eu acho que fazer mais do mesmo não vai ser possível, mas a valor de face realmente é pouco crível essas projeções”, conclui.
Com suas estimativas, a Fazenda crê que a dívida bruta do Brasil vai entrar em trajetória descendente a partir de 2030. Porém, por uma questão de metodologia, o FMI (Fundo Monetário Internacional) aponta que a dívida do Brasil pode chegar a 100% do PIB no primeiro ano do novo governo.
O Projeto
Pelas estimativas oficiais, a inflação pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) cairá para 3,04% em 2027, 3% em 2028 e 3% 2028, 2029 e 2030, contra 3,74% previstos para este ano.
As projeções para o IPCA 2026, no entanto, estão desatualizadas. Com o início da guerra no Oriente Médio, o boletim Focus, pesquisa do Banco Central (BC) com instituições financeiras, prevê IPCA de 4,71% este ano, acima do teto da meta de 4,5%.
As estimativas para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), usado na correção do salário mínimo, serão 3,04% em 2027 e 3% em 2028, 2029 e 2030, menor que os 3,76% projetados para este ano.
Em relação ao IPCA, índice oficial de inflação, a projeção para o próximo ano está dentro da meta contínua de 3% definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), com margem de 1,5 ponto percentual. Com o intervalo de tolerância, a inflação poderá ficar entre 1,5% e 4,5% no próximo ano sem resultar em descumprimento da meta.
O projeto também prevê taxa Selic (juros básicos da economia) acumulada em 10,55% ao ano para 2027, 9,27% para 2028, 8,27% para 2029 e 7,27% para 2030. Atualmente, a Selic está em 14,75% ao ano.
O texto enviado ao Congresso prevê taxa de câmbio média a R$ 5,47 para 2027, R$ 5,45 em 2028, R$ 5,50 em 2029 e R$ 5,53 para 2030. Apesar de o petróleo estar atualmente em torno de US$ 100 o barril, o projeto estima o preço médio do produto (usado para estimar receitas da União com royalties) em US$ 67,69 no próximo ano, US$ 66,60 em 2028, US$ 66,92 em 2029 e US$ 67,44 em 2030.


