Os Estados Unidos decidiram classificar nesta quinta-feira (28) o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV(Comando Vermelho) como organizações terroristas após encontros recentes do presidente americano, Donald Trump, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Nos bastidores, aliados da oposição avaliam a medida como uma vitória política de Flávio Bolsonaro, sob o argumento de que o senador conseguiu obter um resultado concreto do encontro com Trump, enquanto o governo federal atuava para tentar barrar a classificação.
Até o momento, o Palácio do Planalto e o Itamaraty não se manifestaram oficialmente sobre a decisão. Interlocutores do governo reconhecem a dificuldade de reagir publicamente sem parecer uma defesa das facções criminosas.
Especialistas classificam a decisão dos Estados Unidos como preocupante e avaliam que o tema pode abrir margem para disputas políticas em torno da soberania nacional.
“Eu acho que, no fim, quem defende essa posição usa basicamente um viés eleitoreiro. A maior parte provavelmente não entende os impactos negativos que isso pode gerar”, afirma Leonardo Paz Neves, pesquisador do Núcleo de Inteligência Internacional da FGV.
O tema da segurança pública ganhou centralidade na corrida presidencial. Pesquisa Nexus/BTG divulgada no mês passado apontou que essa área é a principal preocupação de 27% dos brasileiros. Com isso, os principais pré-candidatos à Presidência passaram a internacionalizar o debate sobre crime organizado.
No início do mês, Lula se reuniu com Trump e apresentou argumentos contrários à classificação das facções como organizações terroristas. O governo brasileiro sustenta que a legislação nacional não enquadra os grupos nesse tipo de definição, uma vez que suas atividades estão ligadas ao tráfico de drogas e armas, e não a crimes motivados por razões religiosas ou ideológicas.
Semanas depois, Flávio Bolsonaro defendeu posição oposta durante encontro com o presidente norte-americano. O senador argumentou que as facções brasileiras atuam de forma transnacional e que a nova classificação fortaleceria o combate ao crime organizado.
Para Leandro Consentino, cientista político e professor do Insper, a medida do governo Trump “não atende aos anseios da população brasileira”. “Os EUA poderiam usar esse status para ingerir em assuntos internos do Brasil. Acho bastante preocupante que esse tema seja manipulado dessa forma”, aponta.
Na mesma linha, Paz Neves explica que o cenário exige cautela, embora considere improvável uma intervenção direta dos EUA no Brasil.
“O problema é que, se os EUA resolvessem ampliar esse entendimento para atores políticos ou econômicos brasileiros, isso abriria uma capacidade muito maior de pressão política sobre o Brasil”, afirmou o pesquisador.
Os Estados Unidos informaram que pretendem oficializar a designação do PCC e do CV como Organizações Terroristas Estrangeiras a partir de 5 de junho.
Impacto Político
Para especialistas, o tema deve ser explorado politicamente durante a campanha presidencial deste ano.
A avaliação é de que Flávio Bolsonaro tende a utilizar o episódio para reforçar o discurso de combate ao crime organizado e reduzir o desgaste provocado pela crise envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Já o governo Lula deve concentrar sua reação no discurso de soberania nacional.
“Flávio consegue ganhar tempo diante do desgaste provocado pelo caso Vorcaro e tenta transferir para o governo Lula a narrativa de que o Executivo falhou no combate à segurança pública”, afirma Eduardo Grin, cientista político e professor da FGV EAESP.
O especialista também avalia que a medida pode gerar ruídos entre setores do mercado financeiro ligados ao eleitorado de Flávio Bolsonaro.
“A classificação pode aumentar o grau de atenção sobre movimentações financeiras no Brasil e no exterior. Isso pode gerar algum desconforto em setores do mercado que já acompanhavam com cautela o caso Master”, conclui.


