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sexta-feira, 29 maio 2026
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Corredores marítimos verdes para exportação de celulose para Europa buscam descarbonizar rotas

Rotas avaliadas incluem transporte de celulose em operações entre portos brasileiros, Noruega e Holanda, com foco na redução das emissões no setor marítimo

Brasil, Noruega e Holanda apresentaram, na segunda-feira, 25, em Brasília, o primeiro estudo de viabilidade técnica e econômica voltado à criação de corredores marítimos verdes no Atlântico Sul.

A proposta busca desenvolver rotas de transporte marítimo com menor emissão de carbono entre a Europa e o Brasil, incluindo operações ligadas à exportação de celulose.

O levantamento foi elaborado pela consultoria norueguesa DNV, por encomenda do Conselho de Pesquisa da Noruega, e resulta de mais de um ano de cooperação entre os governos envolvidos.

O estudo integra um Memorando de Entendimento (MoU) assinado em fevereiro de 2025 entre os ministérios de Clima e Meio Ambiente da Noruega e de Portos e Aeroportos do Brasil. A Holanda aderiu à iniciativa em janeiro de 2026.

Segundo os dados apresentados, o transporte marítimo entre Brasil e Europa foi responsável pela emissão de aproximadamente 4,7 milhões de toneladas de CO2 equivalente em 2023. Apenas nas rotas entre Brasil e Noruega, 88 viagens de grandes cargueiros emitiram cerca de 116 mil toneladas de CO2e, sendo 77% relacionadas ao transporte de commodities como soja, minério e celulose.

ROTAS ESTRATÉGICAS PARA EXPORTAÇÃO

O estudo identificou três rotas prioritárias para implantação dos corredores verdes. Uma das principais conecta o porto de Vila do Conde (PA) ao porto de Karmøy, na Noruega, responsável por cerca de 66% das emissões bilaterais entre os dois países.

Outras rotas analisadas ligam o Porto de Santos a Rotterdam, na Holanda, e o Porto do Pecém (CE) ao terminal holandês, em iniciativas relacionadas ao transporte de combustíveis e produtos de baixa emissão.

Para viabilizar as operações, foram avaliados combustíveis alternativos com potencial de emissões líquidas próximas de zero, entre eles biodiesel, amônia verde e metanol verde.

O biodiesel aparece como uma das alternativas mais imediatas, por permitir utilização nos motores atuais sem necessidade de adaptações estruturais. Já a amônia verde e o metanol verde demandariam novos investimentos em embarcações e infraestrutura.

“O estudo nos dá algo mais valioso do que um simples sim ou não. Ele oferece ao Brasil, à Noruega e aos Países Baixos uma base de evidências compartilhadas — não apenas sobre onde as rotas se tornam plausíveis, mas onde os custos permanecem desafiadores, onde a infraestrutura precisa de preparação e onde a incerteza ainda requer atenção. Isso não reduz a ambição. Pelo contrário, a fortalece”, disse William Nygaard, coordenador do projeto de cooperação.

DESCARBONIZAÇÃO DO TRANSPORTE MARÍTIMO

O avanço da proposta ocorre em meio às novas metas da Organização Marítima Internacional (IMO), que prevê penalidades financeiras para embarcações que não cumprirem metas de redução de emissões.

A expectativa é que o novo marco regulatório acelere a adoção de combustíveis renováveis no transporte marítimo internacional, incluindo operações ligadas ao setor de celulose.

Segundo o estudo, o sobrecusto operacional do biodiesel verde tende a diminuir gradualmente até 2040, acompanhando o avanço da regulamentação e da infraestrutura logística.

O Brasil foi apontado como um dos países com maior potencial para desenvolvimento dos corredores verdes devido à matriz energética renovável e à proximidade entre polos industriais e portos estratégicos. Entre os terminais destacados estão Santos, Pecém, Itaqui, Açu, Rio Grande e Navegantes.

“O que você encontra no Brasil, especialmente no mercado de energia, combinado com a indústria marítima norueguesa, cria uma cooperação poderosa para a transição em direção à descarbonização”, afirmou Astrid Hoem, secretária de Estado do Ministério do Clima e Meio Ambiente da Noruega.

“Quando você é pioneiro na fabricação dessas embarcações de zero emissão, é possível vender essa tecnologia para o mundo.”

Segundo a representante norueguesa, o principal desafio da transição está na construção de modelos economicamente viáveis para o setor. “Ter um modelo de negócios sólido é a parte mais desafiadora.”

SETOR MARÍTIMO BUSCA NOVO MODELO OPERACIONAL

O estudo aponta que um dos principais obstáculos para a implementação dos corredores verdes está na dinâmica do mercado marítimo, especialmente entre graneleiros que operam sem contratos fixos de longo prazo.

A recomendação é ampliar parcerias entre armadores, portos, produtores, governos e empresas exportadoras, incluindo acordos de compra de longo prazo para garantir previsibilidade aos investimentos.

“Agora precisamos que todos os donos de carga estejam preparados para assumir sua parte nessa transição”, disse Hoem. “Se querem produtos descarbonizados, também precisam ter transporte descarbonizado.”

Do lado brasileiro, Tetsu Koike, diretor do Ministério de Portos e Aeroportos, afirmou que o desafio atual está mais relacionado à coordenação entre os agentes do setor do que à disponibilidade de recursos ou regulamentação.

“A questão não é investimento, e a questão não é regulamentação — porque nós a temos”, afirmou.

“Podemos ser o grupo que vai implantar o primeiro corredor verde entre a Europa e o Brasil”, disse ao encerrar. “Isso não é pouca coisa. Está nas nossas mãos.”

Os três países também estudam lançar, ainda em 2026, um edital conjunto de pesquisa e desenvolvimento voltado a combustíveis e tecnologias para as rotas marítimas de baixa emissão, com investimentos estimados em R$ 450 milhões.

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