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Capacitação ajuda indígenas de Nioaque a transformar produção em renda

Experiência de Nalva Atikum, em Nioaque, mostra como o Empretec Indígena tem ajudado moradores de comunidades a aperfeiçoar produtos, calcular preços, conquistar mercados e ampliar a autonomia econômica em Mato Grosso do Sul

Quando consegue uma folga do trabalho em uma secretaria na cidade, Nalva Atikum volta para a Aldeia Cabeceira, em Nioaque. É lá que, ao lado das irmãs, retoma uma atividade que a família mantém há quase seis anos e foi aprimorada pela capacitação: a produção artesanal de pães, bolos e massas.

Não há máquinas. As massas continuam sendo preparadas à mão. O que mudou foi a maneira de enxergar aquilo que já faziam.

Depois de participar, em 2025, do Empretec Indígena, Nalva e outras produtoras da região passaram a prestar mais atenção à formação dos preços, às embalagens, ao aproveitamento dos ingredientes encontrados na própria comunidade e, principalmente, às possibilidades de transformar o conhecimento que já possuíam em fonte de renda.

“Foi realmente um divisor de águas. Aprendemos que não devemos ter medo e que podemos trabalhar com aquilo que já temos. Foram dias de muitos desafios, mas de um aprendizado muito grande”, conta.

Um dos resultados apareceu ainda durante a capacitação. O grupo criou um pão de abóbora que teve boa aceitação e abriu caminho para experimentar outros produtos feitos com ingredientes locais, como o bolo de mandioca.

“Começamos a olhar de outra forma para os produtos da nossa terra”, afirma Nalva.

O aprendizado também chegou a uma parte menos visível de qualquer pequeno negócio: saber quanto custa aquilo que se produz e quanto deve ser cobrado por ele.

“Aprendemos a colocar preço, melhorar as embalagens e, principalmente, valorizar mais aquilo que fazemos. O Empretec mostrou que somos capazes de ter o nosso próprio negócio e o nosso dinheiro”, diz.

Da aldeia para as feiras

A produção, antes concentrada na cozinha da família, começou a encontrar novos espaços.

Hoje, Nalva e outras mulheres participam de feiras comunitárias realizadas nas aldeias e também de eventos na área urbana de Nioaque. Segundo ela, há uma feira por mês em cada aldeia, movimento impulsionado principalmente pelas mulheres que participaram da formação.

“Às vezes, a gente só precisa de uma oportunidade. Hoje as mulheres estão produzindo, levando seus produtos para as feiras e conseguindo mostrar o trabalho que existe dentro das comunidades”, relata.

Mesmo trabalhando atualmente na cidade, Nalva procura manter o vínculo com a atividade. Nos dias de folga, retorna à Cabeceira, ajuda a preparar as massas e participa das vendas.

“A gente trabalha na mão mesmo. Quando tenho folga, vou para a aldeia preparar as massas e participar das feiras. Tem sido um sucesso e é muito gratificante ver esse crescimento”, afirma.

Para ela, o resultado não se resume ao dinheiro obtido com as vendas. A capacitação também ajudou as participantes a reconhecer como atividade econômica habilidades que já faziam parte da vida das comunidades.

“Hoje temos muita gente produzindo dentro das comunidades indígenas. É uma riqueza muito grande conquistar o nosso próprio dinheiro com o nosso esforço e perceber o potencial que temos.”

Programa começou em Mato Grosso do Sul

A experiência vivida em Nioaque integra uma política iniciada pelo Governo de Mato Grosso do Sul em parceria com o Sebrae/MS.

Em 2024, o Estado recebeu a primeira edição brasileira do Empretec voltada especificamente à população indígena. A metodologia, originalmente desenvolvida pela Organização das Nações Unidas (ONU) e aplicada no Brasil pelo Sebrae, foi adaptada às realidades culturais e sociais das comunidades.

O programa é contratado pela Secretaria de Estado da Cidadania (SEC/MS) e trabalha aspectos como comportamento empreendedor, planejamento, liderança, gestão dos negócios e autonomia econômica.

Em 2025, foram realizadas cinco edições, em Miranda, Nioaque, Paranhos, Antônio João e Dourados. Neste ano, Amambai, Aquidauana e Tacuru também receberam o programa.

Para o governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, a proposta é fazer com que conhecimentos e atividades já existentes dentro das comunidades possam também abrir caminhos para geração de renda.

“Quando a gente leva o Empretec até uma aldeia, a gente não está levando apenas um curso. Estamos levando a possibilidade de uma pessoa reconhecer que aquilo que ela já sabe fazer, que aprendeu com a família, com a sua comunidade, pode se transformar em renda, em dignidade e em futuro”, afirma.

Segundo Riedel, a iniciativa busca oferecer ferramentas para que os participantes desenvolvam os próprios negócios a partir das possibilidades existentes em cada comunidade.

Uma mudança puxada pelas mulheres

Os efeitos relatados em Nioaque também aparecem em outras comunidades que participaram do programa.

Na aldeia indígena Ofayé, em Brasilândia, Ramona Coimbra Pereira acompanhou de perto essa transformação. Trinta mulheres participaram da primeira turma e, segundo ela, parte delas decidiu continuar trabalhando coletivamente depois da capacitação.

Hoje, 12 integram um grupo de artesanato.

“O Empretec Indígena foi uma virada de chave para a nossa comunidade, principalmente para as mulheres. O curso trouxe confiança e mostrou que elas são capazes de empreender, gerar renda e vencer o medo”, afirma Ramona.

A mudança que ela percebe não está apenas nos produtos vendidos, mas também na relação entre as próprias participantes.

“Antes, eu precisava incentivar e dizer que elas conseguiriam; hoje, são elas que me apoiam e dizem: ‘Vamos fazer, vamos vender, vai dar certo’.”

O empreendedorismo também abriu alternativas individuais. Ramona relata o caso de uma das participantes que, depois da capacitação, começou a produzir e vender pães para obter renda própria.

Para a liderança indígena, ampliar esse tipo de formação para outras comunidades pode criar novas possibilidades sem romper com aquilo que já existe nas aldeias.

“Foi um dos cursos mais importantes e significativos que tivemos na nossa comunidade, resultado de uma parceria que nos trouxe oportunidade, conhecimento e, acima de tudo, confiança para seguir em frente”, afirma.

Em Nioaque, essa transformação ainda pode ser vista de maneira bastante simples: na farinha, na mandioca, na abóbora e nas mãos que continuam preparando as massas.

O trabalho que Nalva e as irmãs já realizavam não começou com uma política pública. O que a capacitação fez, segundo ela, foi ajudá-las a enxergar melhor o valor econômico daquilo que já sabiam produzir — e encontrar caminhos para levar esse trabalho para além da aldeia.

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