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Copasul de Naviraí vai processar cerca de 1 milhão de toneladas de soja por ano

Em Naviraí, a nova Unidade Industrial de Processamento de Soja da Copasul deverá transformar dentro do Estado parte do grão que hoje deixa as lavouras para ser processado fora.

Quando deixou Rosario, na Argentina, e se mudou para Naviraí, em 2022, Agustín Cesar Chavez já carregava uma trajetória profissional construída entre manutenção de embarcações e transporte de cargas.

Foi na indústria, porém, que o eletricista encontrou a possibilidade de construir uma carreira de longo prazo — e hoje se prepara para uma nova etapa profissional ligada à processadora de soja que está sendo erguida no município.

“Vejo que a indústria oferece muitas oportunidades para quem quer crescer. É um ambiente em que, com dedicação e esforço, é possível aprender coisas novas, conquistar novas funções e construir uma carreira”, afirma. Agustín estuda para ampliar os conhecimentos como eletricista e já participou, na Argentina, de treinamento específico para a operação da nova unidade, preparação para uma futura função na área de eletromecânica.

É justamente esse tipo de emprego industrial que está no centro da estratégia defendida pelo governador Eduardo Riedel (Progressistas) – candidato à reeleição – de fazer Mato Grosso do Sul avançar além da produção de matérias-primas.

Em Naviraí, a nova Unidade Industrial de Processamento de Soja da Copasul deverá transformar dentro do Estado parte do grão que hoje deixa as lavouras para ser processado fora.

A planta receberá investimento superior a R$ 1 bilhão e terá capacidade para processar 3 mil toneladas de soja por dia, aproximadamente 1 milhão de toneladas por ano. O início das operações está previsto para o primeiro trimestre de 2027.

“Quando a soja é processada no Estado, surgem empregos industriais, laboratórios, oficinas, transportadoras, serviços de manutenção e fornecedores. Em vez de vender apenas o grão, Mato Grosso do Sul passa a comercializar produtos de maior valor”, afirma Riedel, pré-candidato à reeleição.

Da lavoura para a indústria

Instalada em uma área de 115 hectares às margens da BR-163, ao lado da fecularia da Copasul, a nova unidade deverá produzir anualmente 742,5 mil toneladas de farelo de soja, 188 mil toneladas de óleo degomado bruto e 25 mil toneladas de casca peletizada.

O óleo poderá abastecer refinarias de alimentos e fábricas de biodiesel. O farelo terá como destino a fabricação de rações para aves, suínos e bovinos, enquanto a casca peletizada também poderá ser usada na alimentação animal.

A proposta é alongar, dentro do próprio Estado, uma cadeia que começa na lavoura e pode alcançar diferentes setores: soja, indústria, óleo, farelo, ração, criação animal, frigoríficos e mercado consumidor.

Esse movimento ganha escala diante do tamanho da produção agrícola sul-mato-grossense. Na safra 2024/2025, Mato Grosso do Sul produziu aproximadamente 14,06 milhões de toneladas de soja, cultivadas em 4,525 milhões de hectares.

Com a entrada da nova indústria, a capacidade estadual de processamento deverá crescer cerca de 20%, passando de 14,5 mil para 17,5 mil toneladas por dia.

Para o produtor, um novo destino para a safra

Em Juti, onde cultiva soja e milho há cerca de 12 anos, o produtor Henrique Hoerlle acompanha a construção da esmagadora sob outra perspectiva: a de quem precisa decidir, safra após safra, onde e em que condições comercializar a produção.

Cooperado da Copasul, ele afirma que a organização oferece vantagens como melhores condições para a compra de insumos, prazos mais adequados, segurança nas negociações, proximidade no atendimento e maior flexibilidade em renegociações.

Para Henrique, a nova indústria acrescentará uma alternativa de comercialização dentro de Mato Grosso do Sul.

“Com a Copasul iniciando a operação da esmagadora de soja, teremos uma nova alternativa para destinar nossa produção, agregando valor dentro do próprio Estado e fortalecendo toda a cadeia produtiva”, afirma.

Segundo ele, o processamento mais próximo do produtor tende a reduzir custos logísticos e facilitar o escoamento em determinadas situações de mercado. A expectativa também é ampliar as possibilidades de venda, inclusive de grãos que estejam fora do padrão de exportação.

Henrique acredita ainda que o empreendimento poderá fortalecer financeiramente a cooperativa, ampliar sua capacidade de investimento e repercutir nos municípios onde ela atua, com novas oportunidades de negócios e geração de empregos.

Uma indústria abastecida por várias regiões

A esmagadora não dependerá apenas da soja produzida em Naviraí. Para assegurar matéria-prima ao longo do ano, a Copasul concluiu um ciclo de aproximadamente R$ 400 milhões em ampliação de armazéns e unidades de recebimento.

A capacidade de armazenagem da cooperativa chegou a 15,6 milhões de sacas em 11 municípios, incluindo o complexo Silos Serra, em Maracaju, com capacidade para 900 mil sacas.

Com isso, a soja de diferentes regiões poderá ser recebida, armazenada e encaminhada à indústria, conectando produtores do Cone Sul, da Grande Dourados e de outros municípios agrícolas.

A Copasul reúne mais de 2,4 mil cooperados. Fundada em Naviraí em 1978, já atua na industrialização da mandioca e do algodão por meio de fecularia e unidades de fiação. A planta de soja amplia essa estrutura para integrar produção agrícola, armazenagem, processamento e comercialização.

Empregos além da porteira

A transformação da soja não termina nos produtos que saem da fábrica. A atividade industrial demanda transporte, energia, manutenção, análises laboratoriais, serviços ambientais, equipamentos e trabalhadores com diferentes formações.

Durante a construção, o empreendimento reunia mais de 300 trabalhadores em agosto de 2025. A projeção é alcançar até 1,5 mil empregos diretos e indiretos durante a implantação. Depois da inauguração, a unidade deverá manter aproximadamente 150 postos diretos, além das oportunidades ligadas à logística e aos serviços.

Entre as funções necessárias estarão operadores, mecânicos, eletricistas, técnicos em automação e profissionais das áreas de laboratório, logística, segurança do trabalho e controle ambiental.

São ocupações diferentes das predominantes no plantio e na colheita, o que torna a qualificação profissional parte do desafio. Naviraí conta com IFMS, universidades e instituições do Sistema S, e a formação dos trabalhadores será importante para permitir que moradores da região disputem as vagas e construam carreiras industriais no interior.

A trajetória que acompanha a nova fábrica

É nesse cenário que a história de Agustín ganha outra dimensão.

Desde que ingressou na empresa, em 2022, o eletricista se destacou na área de fiação e passou a ser acompanhado pela liderança como um profissional com potencial para crescer internamente. O treinamento realizado na Argentina para a processadora de soja faz parte dessa preparação.

“Continuo buscando me qualificar. Estou estudando mais sobre minha área como eletricista para ampliar minhas oportunidades profissionais. Acredito que aprender nunca é tempo perdido e que todo conhecimento abre novas portas”, diz.

O objetivo, conta, é conquistar mais estabilidade financeira e qualidade de vida para a família. “Quero crescer profissionalmente, assumir novos desafios e evoluir sempre.”

A experiência do eletricista antecipa uma das questões que acompanharão a implantação da fábrica: se os postos criados pela industrialização também permitirão que trabalhadores formados na própria região avancem profissionalmente.

Cooperativismo e política industrial

A fábrica pertence a uma cooperativa formada por produtores e amplia um modelo no qual a própria organização avança do recebimento e da comercialização para o processamento da produção.

Na gestão Riedel, o Governo de Mato Grosso do Sul utiliza o Procoop — Programa Estadual de Desenvolvimento e Fortalecimento do Cooperativismo para apoiar iniciativas de expansão, armazenagem e industrialização. O Estado também oferece incentivos fiscais, infraestrutura e articulação institucional para empreendimentos que agreguem valor à produção local.

“O Estado não constrói nem administra a fábrica, mas cria condições para que cooperativas e empresas transformem a produção dentro de Mato Grosso do Sul”, afirma o governador.

O financiamento do empreendimento também envolve o Governo Federal. O BNDES aprovou R$ 800 milhões para a indústria, enquanto outras instituições participaram da expansão da armazenagem.

Durante visita ao canteiro, Riedel definiu a unidade como parte de uma estratégia que combina produção agrícola, armazenagem, logística, energia, formação profissional e transformação industrial.

Segundo o governador, a fábrica resulta da atuação conjunta da cooperativa, dos produtores, das instituições financiadoras e das empresas envolvidas na obra. Ao Estado, afirmou, cabe oferecer previsibilidade, incentivos, infraestrutura e articulação para que os efeitos cheguem à economia regional.

Do farelo à proteína animal

Um desses efeitos poderá surgir na integração com outras cadeias já presentes em Mato Grosso do Sul.

O farelo de soja produzido em Naviraí poderá ser utilizado na alimentação de aves, suínos e bovinos. O município e o Cone Sul já possuem frigoríficos, criação animal, fábricas de amido, comércio agrícola e transportadoras.

Com a soja sendo processada na região, a produção poderá reforçar a conexão entre lavoura, ração e proteína animal.

“A integração também pode reduzir distâncias e custos. Em vez de transportar soja para outro estado e depois trazer farelo para alimentar animais em Mato Grosso do Sul, parte desse circuito ocorrerá dentro do próprio território”, afirma Riedel.

Para o produtor Henrique Hoerlle, a mudança significa ganhar uma nova possibilidade de destino para aquilo que sai da lavoura. Para Agustín, pode significar algo ainda mais concreto: uma nova função, mais qualificação e a possibilidade de avançar na carreira sem deixar Naviraí.

Quando a processadora começar a funcionar, a soja continuará sendo cultivada na mesma terra. Uma parte dela, porém, poderá seguir outro caminho antes de cruzar as divisas do Estado: será transformada em óleo, farelo e insumo para outras atividades — enquanto trabalhadores como Agustín se preparam para ocupar os novos espaços que surgem ao redor dessa transformação.

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