A competitividade de uma fábrica não depende apenas de equipamentos, capacidade instalada e tecnologia. A qualificação dos profissionais, a retenção de conhecimento técnico e a capacidade de incorporar novas ferramentas à rotina operacional também influenciam a eficiência industrial.
Essa foi uma das principais discussões do painel “Cultura de Inovação: Como Atrair e Reter Mão de Obra Operacional e Técnica para a Indústria”, realizado durante o TMD26, evento promovido pela Tractian.
Embora os exemplos apresentados tenham origem em diferentes segmentos industriais, as questões debatidas também se aplicam à indústria de celulose, que depende de operações complexas e da integração entre manutenção, processos, automação e gestão de ativos.
Nesse contexto, a escassez de profissionais qualificados e a perda de conhecimento acumulado podem representar desafios para a continuidade operacional e a confiabilidade das fábricas.
A discussão também esteve presente no Pulp Summit Latinoamérica 2026, realizado em 25 de março, em São Paulo, pelo Nexum Group. Durante o encontro, lideranças da Eldorado Brasil Celulose, Klabin e Suzano abordaram a relação entre transformação tecnológica, qualificação profissional e renovação geracional.
Os debates reforçaram que, à medida que a automação e a inteligência artificial avançam, preparar as equipes para acompanhar essas mudanças se torna parte dos desafios de competitividade do setor.
Formação interna
Entre as experiências compartilhadas no painel do TMD26, uma empresa relatou ter transformado um programa convencional de aprendizagem em uma iniciativa de formação técnica diante da dificuldade de contratar profissionais qualificados.
A turma, composta por 20 jovens, passou a desenvolver projetos e trabalhar com equipamentos específicos. Segundo o relato, todos os participantes foram aproveitados profissionalmente, parte na própria empresa e parte em outras organizações.
Outro exemplo envolveu a capacitação interna de 24 soldadores, selecionados entre profissionais que já atuavam como montadores. A iniciativa foi associada a promoções e à estruturação de uma trilha de carreira com etapas e critérios definidos.
Os casos apresentados demonstram possibilidades de desenvolvimento de competências dentro das próprias organizações, embora não representem resultados medidos especificamente na indústria de celulose.
Para o setor, a discussão envolve funções como manutenção mecânica e elétrica, instrumentação, automação, operação de processos e utilidades. Mais do que uma resposta às dificuldades de recrutamento, a formação técnica pode integrar o planejamento industrial, contribuindo para preparar equipes capazes de atuar sobre os ativos e sustentar a eficiência operacional.
No Pulp Summit Latinoamérica 2026, a preparação de equipes para grandes projetos também apareceu como uma frente importante de desenvolvimento de competências.
Um dos exemplos discutidos foi a formação antecipada da equipe de direção industrial do Projeto Cerrado, da Suzano, que começou a acompanhar testes e atividades de comissionamento quase um ano antes do início da operação, em paralelo ao treinamento.
A experiência ilustra como a preparação dos profissionais pode ser incorporada ao cronograma de implantação de uma nova unidade, em vez de ficar restrita à fase imediatamente anterior ao start-up.
A convivência entre diferentes gerações também foi levantada por Ari Medeiros na abertura do Summit e retomada ao longo das discussões.
Em operações industriais que reúnem profissionais com diferentes trajetórias e níveis de familiaridade com ferramentas digitais, a formação precisa considerar tanto o desenvolvimento de novas competências quanto o aproveitamento da experiência acumulada pelas equipes.
Preservação do conhecimento
A retenção de profissionais experientes também esteve entre os temas discutidos no TMD26. Durante o painel, um executivo destacou que a saída desses trabalhadores pode ampliar o tempo de aprendizado, favorecer erros e reduzir a velocidade de execução de projetos.
Os participantes relacionaram a permanência dos profissionais a fatores como oportunidades de crescimento, qualidade da liderança, diálogo e clareza sobre as possibilidades de evolução na carreira. A remuneração, portanto, não foi apontada como o único elemento envolvido na retenção.
Na indústria de celulose, a questão ganha relevância diante da necessidade de preservar conhecimentos sobre equipamentos, processos e particularidades operacionais de cada unidade. Parte dessa experiência é construída ao longo dos anos e está diretamente relacionada à capacidade de identificar anomalias, interpretar comportamentos dos ativos e responder a situações que exigem conhecimento prático.
Nesse cenário, a transferência estruturada de conhecimento entre profissionais experientes e novos integrantes das equipes pode contribuir para reduzir a dependência de conhecimentos individuais.
Documentação de procedimentos, capacitação prática e planejamento sucessório são caminhos que podem ser considerados pelas empresas para manter esse conhecimento na operação.
No Pulp Summit, a renovação geracional foi discutida em conjunto com a sucessão de lideranças e a formação de equipes para acompanhar a expansão industrial. No caso da Klabin, a convivência entre quatro gerações foi relacionada aos desafios de grandes projetos, como Puma 1 e Puma 2.
A discussão também incluiu a presença feminina na força de trabalho do projeto Puma, próxima de 40%, conforme os dados apresentados no material do evento, e o processo de sucessão de liderança em andamento.
Os exemplos ajudam a ampliar o debate sobre retenção: preservar o conhecimento operacional não significa apenas manter profissionais experientes nas empresas, mas também criar condições para que sua experiência seja compartilhada com as novas gerações e incorporada às rotinas, aos processos e à preparação de futuras lideranças.
Inteligência artificial
A adoção de inteligência artificial (IA) e de outras tecnologias digitais também foi abordada no painel do TMD26. Os participantes relataram iniciativas para envolver profissionais do chão de fábrica na identificação de oportunidades de automação e no desenvolvimento de soluções.
Em uma das experiências, a empresa promoveu encontros semanais com equipes operacionais para ouvir sugestões e construir alternativas com a participação de quem executa as atividades.
O debate também incluiu o uso de sensores em ativos industriais e a necessidade de capacitar as equipes de manutenção para interpretar alertas e informações geradas pelas ferramentas digitais.
A discussão reforçou que a implantação de tecnologia, por si só, não garante resultados. Para que os recursos sejam incorporados à rotina industrial, os profissionais precisam compreender as informações disponíveis e utilizá-las como apoio à tomada de decisão.
Essa relação entre tecnologia e qualificação também foi destacada no Pulp Summit. Durante o painel de executivos, Marcelo Martins, da Eldorado Brasil Celulose, ressaltou que a adoção de inteligência artificial exige preparar melhor os profissionais que já atuam nas fábricas, inclusive para lidar com automação e novas ferramentas digitais.
A discussão apontou para um desafio importante: em determinadas situações, a velocidade de implantação das tecnologias pode superar a capacidade de capacitação das equipes, ampliando a necessidade de planejamento e formação contínua.
O tema dialoga com a perspectiva da Indústria 5.0, também abordada no evento, que coloca as pessoas no centro da transformação industrial. Nessa abordagem, a evolução tecnológica não se resume à instalação de sistemas mais avançados: envolve integrar ferramentas digitais à experiência dos profissionais e desenvolver competências para que as equipes possam atuar em operações cada vez mais automatizadas.
Na indústria de celulose, essa abordagem pode ser relacionada a iniciativas de manutenção preditiva, diagnóstico de falhas, monitoramento de equipamentos e otimização de processos. A integração entre dados, experiência operacional e conhecimento técnico pode favorecer decisões mais consistentes sobre a condição dos ativos e as prioridades de manutenção.
Essas aplicações constituem uma análise das possíveis conexões entre os temas discutidos nos eventos e as necessidades do setor de celulose. Os painéis citados não apresentaram indicadores específicos de ganhos decorrentes dessas iniciativas em fábricas do segmento.
Liderança e Diversidade
As experiências compartilhadas no TMD26 também abordaram desafios relacionados à progressão profissional, ao reconhecimento de mulheres em posições de liderança e à conciliação entre maternidade e carreira. Os depoimentos destacaram a importância de ambientes de trabalho capazes de oferecer oportunidades de desenvolvimento e condições para a evolução profissional.
A discussão sobre pessoas no Pulp Summit também incluiu a preparação de lideranças e a construção de ambientes favoráveis ao desenvolvimento profissional.
Na Klabin, além da convivência entre diferentes gerações nos grandes projetos, foi abordada a sucessão de liderança. Já os exemplos relacionados à Suzano e à Eldorado Brasil Celulose evidenciaram diferentes dimensões do desafio: formar equipes antes da entrada em operação de novas unidades e desenvolver competências para acompanhar a evolução tecnológica.
A preparação de lideranças e a construção de equipes diversas também podem contribuir para ampliar a capacidade de inovação das organizações. Em uma indústria intensiva em capital e tecnologia, esses fatores estão relacionados à atração de talentos, à formação de novas lideranças e à continuidade das competências necessárias para operar e modernizar as instalações.
O desafio, nesse sentido, não se limita ao preenchimento de vagas. Envolve desenvolver profissionais e equipes capazes de acompanhar as mudanças tecnológicas e atender às necessidades operacionais ao longo dos próximos ciclos de investimento.
Integração entre tecnologia e conhecimento
As discussões do TMD26 e do Pulp Summit Latinoamérica 2026 apontam para a importância de tratar formação técnica, retenção de profissionais e transformação digital de maneira integrada. Para a indústria de celulose, essa perspectiva amplia o debate sobre produtividade e confiabilidade, ao incluir as competências das equipes entre os fatores necessários para sustentar o desempenho da base industrial instalada.
A capacitação contínua, a transferência de conhecimento e a participação dos profissionais na adoção de novas tecnologias são caminhos que podem ajudar as empresas a reduzir lacunas de qualificação e fortalecer a tomada de decisão operacional.
Nesse contexto, os avanços de eficiência não dependem exclusivamente de novos equipamentos ou sistemas digitais. A capacidade de preparar profissionais para utilizar essas ferramentas, interpretar dados e preservar o conhecimento acumulado nas fábricas também faz parte da estratégia para manter a competitividade industrial.


