A condução da política econômica do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) será determinante para uma eventual aproximação dos partidos de centro com o governo federal a partir de 2027.
A avaliação é do presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, que condiciona o aprofundamento das relações políticas com o Palácio do Planalto à adoção de medidas que assegurem equilíbrio fiscal, estabilidade econômica e avanços em reformas estruturais.
Em entrevista ao programa Canal Livre, da Band, exibida no domingo (1º), Kassab afirmou que o PSD poderá integrar formalmente a base de sustentação do governo caso Lula apresente uma agenda voltada ao centro político, com diretrizes claras para a economia e disposição para promover reformas.
“Se ele fizer um governo para o centro, deixando claro quais serão as suas linhas mestras na condução da política econômica, apoiando algumas reformas estruturais do País, em especial a reforma eleitoral e algumas reformas do Judiciário, por que não apoiá-lo?”, declarou o dirigente partidário.
A manifestação ocorre em um momento de intensificação das articulações políticas para a formação da base parlamentar do quarto mandato de Lula, que terá pela frente um Congresso Nacional com maior presença de representantes da direita e centro-direita.
PSD já foi procurado pelo governo
Kassab confirmou, em entrevista ao jornal O Globo, publicada no sábado (31), que o governo federal já procurou o PSD para discutir a relação política no próximo mandato.
Segundo o dirigente, existe a possibilidade de aprofundamento dessa relação, desde que o presidente sinalize uma orientação econômica capaz de transmitir confiança aos setores produtivos e aos partidos de centro.
“Se medidas econômicas forem adotadas, estaremos mais próximos”, afirmou Kassab.
O presidente do PSD também defendeu que Lula mantenha seus compromissos sociais, mas escolha para a condução da economia nomes com perfil semelhante ao de Antonio Palocci e Henrique Meirelles, associados à busca por equilíbrio fiscal e previsibilidade econômica em governos anteriores.
Movimentação dos partidos de centro
O PSD saiu na frente nas conversas sobre a composição do próximo governo. Segundo o analista político Pedro Venceslau, a posição de neutralidade adotada pela legenda no segundo turno colocou Kassab em uma condição favorável para negociar espaços na futura administração.
A movimentação também envolve União Brasil e PP, integrantes da Federação União Progressista, que decidiram liberar seus filiados para participar do próximo governo Lula.
O PSD pretende preservar sua presença em ministérios estratégicos, especialmente Minas e Energia e Agricultura. A eventual participação de novos representantes da legenda no Executivo também integra as articulações políticas.
Divergências econômicas preocupam aliados
A discussão sobre o apoio do centro ocorre em meio a divergências dentro do próprio governo sobre a condução da economia.
O debate sobre controle dos gastos públicos, cumprimento das metas fiscais e ampliação dos investimentos já provoca divisões entre integrantes da base governista.
Existem posições distintas entre os defensores de maior rigor fiscal e aqueles que consideram necessária a expansão dos investimentos e das despesas públicas para estimular a atividade econômica.
Outro fator de incerteza é a definição do comando do Ministério da Fazenda no próximo mandato, ainda sem anúncio oficial.
A escolha da equipe econômica será acompanhada pelo mercado financeiro e pelos partidos que poderão integrar a base de sustentação do presidente.
Equilíbrio fiscal será teste para governabilidade
O posicionamento de Kassab evidencia que a composição de uma maioria parlamentar para o quarto mandato de Lula dependerá de fatores que ultrapassam a negociação de ministérios e cargos federais.
O crescimento da dívida pública, as pressões sobre o orçamento e a necessidade de recuperar a confiança dos investidores deverão ocupar espaço central nas discussões entre o Executivo e os partidos de centro.
Embora Kassab avalie que Lula poderá encontrar condições favoráveis para construir maioria na Câmara dos Deputados, o dirigente considera que o Senado deverá representar um desafio maior para o governo.
Nesse ambiente, a capacidade de apresentar uma agenda econômica consistente poderá facilitar a aprovação de projetos estratégicos, enquanto a ausência de compromissos fiscais claros tende a ampliar as resistências no Legislativo.
Para Kassab, portanto, a aproximação com o centro permanece como uma possibilidade, mas não representa um compromisso antecipado.


