Economia
Austrália quer financiar dois projetos de terras raras no Brasil até US$ 100 milhões
O governo da Austrália, por meio do Export Finance Australia, agência de crédito à exportação do governo australiano, enviou, nos últimos dias, cartas de apoio para financiamento a dois projetos de terras raras no Brasil. Somados, os financiamentos podem chegar a até US$ 100 milhões.
O Projeto Caldeira, localizado em Poços de Caldas (MG), é considerado um dos maiores e mais avançados projetos de terras raras em desenvolvimento no mundo, baseado em argilas de adsorção iônica, modelo semelhante ao explorado atualmente pela China.
Esses depósitos, chamados de IACD (Ion Adsorption Clay Deposits), são raros e de grande valor estratégico. Diferentemente dos grandes maciços rochosos, eles permitem a extração de minerais de forma menos agressiva e com menor impacto ambiental.
Segundo a empresa, o financiamento proposto tem como objetivo apoiar o desenvolvimento do Projeto Caldeira por meio da contratação de empresas australianas de engenharia, suprimentos, construção e gestão.
O empreendimento já conta com apoio financeiro do Export-Import Bank of the United States, a agência oficial de crédito à exportação do governo dos Estados Unidos.
“Vemos a Carta de Apoio da Export Finance Australia como um forte voto de confiança na estratégia e na capacidade da Meteoric de se tornar o próximo grande fornecedor de materiais críticos de terras raras”, disse o diretor-presidente da empresa, Stuart Gale.
Em dezembro, o projeto recebeu a licença ambiental prévia, iniciou as operações da planta-piloto e realizou a primeira produção de carbonato misto de terras raras.
Segundo fontes próximas à mineradora ouvidas pela reportagem, o governo federal tem dado apoio nessas interlocuções e se mostrado como um “ambiente aberto” para investimentos.
Em dezembro, a secretária nacional de Geologia, Mineração e Transformação Mineral, Ana Paula Bittencourt, se reuniu com a embaixadora da Austrália no Brasil, Sophie Davies, para tratar da política de minerais críticos no Brasil.
Projeto Colossus
Já na última terça-feira (6), mineradora australiana Viridis Mining & Minerals anunciou que o Projeto Colossus, localizado em Minas Gerais e rico em terras raras, recebeu uma carta de apoio para financiamento da Export Finance Australia
Segundo fato relevante publicado pela empresa, o financiamento pode chegar a até US$ 50 milhões e será utilizado para o desenvolvimento do projeto.
Com a emissão da carta, o empreendimento entra agora em uma etapa de due diligence, que envolve análises técnicas, financeiras, ambientais e de crédito conduzidas pela agência australiana antes de uma eventual aprovação formal do financiamento. As ações da empresa subiram mais de 12% na bolsa da Austrália após o anúncio.
O Projeto Colossus abriga reservas de argilas iônicas ricas em neodímio, praseodímio, térbio e disprósio, elementos essenciais para a fabricação de ímãs permanentes usados em veículos elétricos, turbinas eólicas, sistemas de defesa e equipamentos de alta tecnologia.
O Colossus já havia sido considerado elegível para financiamento por outras duas agências internacionais de crédito à exportação: a Bpifrance Assurance Export, ligada ao governo da França, e a Export Development Canada, do governo canadense.
Na prática, essa elegibilidade indica que o projeto atende aos critérios técnicos, ambientais, econômicos e estratégicos exigidos por esses países para receber garantias ou crédito público, o que aumenta a confiança de bancos e investidores privados na viabilidade do empreendimento.
Austrália, Canadá e França classificam o projeto em Minas Gerais como estratégico, em meio ao esforço dos países ocidentais para diversificar fornecedores de terras raras e reduzir a dependência de insumos da China, que hoje domina grande parte da cadeia global desses minerais.
No caso do governo francês, por exemplo, o Colossus foi incluído no programa “Garantie de Prêt Stratégique” (Garantia de Empréstimo Estratégico), que oferece garantia soberana parcial para financiamentos bancários de iniciativas consideradas de interesse nacional e geopolítico para a França e seus parceiros.
Em dezembro, o projeto recebeu a licença ambiental prévia, etapa considerada decisiva no licenciamento. A expectativa da Viridis é alcançar a decisão final de investimento no segundo semestre de 2026.
A estratégia da empresa é se consolidar como fornecedora desses insumos para países ocidentais, especialmente os Estados Unidos, em um contexto de reorganização das cadeias globais de suprimento e de fortalecimento da segurança mineral.

