Como quem chega sem pressa, mas ocupa tudo, Chico Chico subiu ao Palco Livre, no estacionamento do Teatro Glauce Rocha, na noite de sábado (28), em Campo Grande, e transformou o encerramento do Festival da Juventude (FestJuv) em um rito coletivo de presença. De chinelo, bermuda e camiseta do seu time do coração — o Vasco da Gama —, o artista parecia mais um jovem entre tantos até começar a cantar.
“É um prazerzaço estar aqui com vocês, com meus amigos”, disse, antes de conduzir o público por um show intenso, sensível e cheio de nuances. A cada música, o pedido do artista direcionado ao público era simples: “canta, canta!”. E o público respondeu à altura — cantou, dançou, registrou e, sobretudo, viveu o momento.
Pela primeira vez em Mato Grosso do Sul, Chico Chico apresentou o repertório de seu álbum mais visceral, “Let It Burn / Deixa Arder”, atravessando o folk, o blues, o rock e a música brasileira com naturalidade. No palco, mais do que performance, havia entrega. Mais do que técnica, havia verdade.
Se a abertura do festival trouxe a força e a experiência de Ney Matogrosso, o encerramento encontrou no frescor de Chico Chico um complemento à altura. Como se o tempo deixasse de ser linha e virasse estado: juventude e maturidade coexistindo como algo que não se mede em anos, mas em intensidade, em presença, em alma.
O artista conduziu o público por uma experiência que transitou entre o íntimo e o coletivo. Homenageou nomes como Rita Lee, Jards Macalé e Alceu Valença, além de surpreender com a intensidade de “Two Modus Blues”, que mudou a atmosfera do show.
Do palco ao público – Para quem assistia, o impacto era imediato. “É um menino talentoso. Conheci ele através da minha neta e me trouxe boas memórias, inclusive pelo timbre da voz, que lembra muito a mãe, Cássia Eller”, contou Anilda Almeida, que acompanhava Beatriz, de 15 anos. Já a jovem fã foi mais direta: “Volto pra casa feliz”.
Nem mesmo o cansaço — ou a gestação — foi obstáculo. Maria do Socorro Gomes, grávida de sete meses, não resistiu ao som, levantou da cadeira e dançou. “É gostoso de ouvir. Lindo demais”.
Em determinado momento, Chico Chico, super à vontade e descalço, anunciou o que ninguém queria ouvir. “A gente está caminhando para o fim do show”. Sentado no canto do palco, ele cantou “Menino Bonito” e, no término da canção, soltou: “Salve Rita Lee”. Parecia ali o ápice. Mas ainda havia mais.
Na sequência, veio um dos momentos mais marcantes da noite. Como um regente, Chico Chico transformou o público em coral. Dividiu a plateia em lados e conduziu “Norte”, de Carlos Posada, em um jogo de vozes: de um lado, “as coisas acontecem de uma hora para outra, mesmo que demore a vida inteira para acontecer”; Do outro, em resposta, “o amor nunca falhou”. Ali, mais do que música, havia encontro.
Depois de outras canções, já com o show se encaminhando para o fim, o artista cantou “Ninguém”, cuja letra ecoa o verso “é que às vezes o tempo para” — quase em contradição com aquele instante que a contragostos dos presentes caminhava para o seu desfecho.
Chico saiu sob aplausos, mas o público não deixou a noite terminar. O clássico pedido de bis tomou conta do espaço — e foi atendido com energia lá no alto em “Blues da Piedade”, de Cazuza, levando a plateia ao êxtase.
“Ultimamente só trabalho, mas resolvi sair de casa. Moro aqui perto e vim conferir o show. Confesso que não conhecia o Chico, mas saio daqui encantado. Campo Grande precisa de mais momentos assim, com cultura acessível e de qualidade”, afirmou o consultor de vendas Anderson Santos.
No palco, Chico Chico esteve acompanhado por uma banda que sustentou a potência do show: Thiaguinho Silva (bateria), Fernando Nunes (baixo), Walter Villaça (guitarra e violão), Cadu Mota (guitarra), Luiz Ungarelli (percussão) e Pedro Fonseca (teclados, direção musical e produção).
Abertura – Mas antes dele, quem ocupou o palco foi Karla Coronel, conectando passado e presente em uma apresentação potente e sensível. Nascida no Paraguai e criada em Mato Grosso do Sul, a artista levou ao público um repertório que transita entre o rock nacional, a música latina e composições autorais.
Clássicos como “Tempo Perdido”, da Legião Urbana, e “Ideologia”, de Cazuza dialogaram com a força de Elza Soares, evocada como na voz de Karla como um grito contra o feminicídio por meio da canção “O que se cala” — especialmente direcionado à juventude. Em meio a esse repertório, ela também apresentou faixas autorais como “Avião”, reafirmando sua identidade artística e talento.
“É uma honra fazer parte do FestJuv e estar aqui para abertura do show do Chico Chico. Poder apresentar um pouco das minhas músicas também. Eu amo esse contato com o público”, destacou a cantora.
“Foi legal ver dois jovens artistas tão talentosos, ela da nossa terra e ele que está no epicentro musical. Eles representam bem o cenário atual”, avaliou a estudante Laila Perez, de 17 anos, que também projetou o próprio futuro. “Quero estar aqui na UFMS ano que vem fazendo Odonto, se Deus quiser”.
Festjuv – O show de Chico Chico encerrou o Festival da Juventude em grande estilo, reafirmando a proposta do evento: criar pontes entre gerações, territórios e linguagens. Ao longo dos seus três dias, de 26 a 28 de março, a programação reuniu nomes consagrados como Ney Matogrosso, Joel Pizzini, Shirley Cruz, Maria Homem, grupo de teatro Sobrevento (SP) e tantos outras personalidades da cena regional e nacional em um espaço vivo de encontro, criação e protagonismo jovem.
O Festival da Juventude é uma realização do Instituto Curumins, em parceria com a UFMS e o Ministério da Cultura, por meio de emenda parlamentar do deputado federal Vander Loubet, além do apoio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), do Fundo Nacional de Cultura e do Governo Federal. Conta ainda com o apoio da Secretaria de Estado da Cidadania, Subsecretaria da Juventude, Secretaria de Estado de Turismo, Esporte e Cultura, Secretaria de Estado da Educação, Fundação de Cultura de MS, Educativa MS, Governo do Estado, da senadora Soraya Thronicke, da deputada federal Camila Jara e da Águas Guariroba.


