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Embargo da França a frutas da América do Sul emperra mercado de US$ 15,7 milhões
A França vai suspender a importação de frutas da América do Sul que apresentem resíduos de agrotóxicos proibidos na União Europeia, medida que amplia as tensões comerciais entre o bloco europeu e os países do Mercosul. O anúncio foi feito pela ministra da Agricultura francesa, Annie Genevard, e pelo primeiro-ministro Sébastien Lecornu, por meio de publicações nas redes sociais.
O embargo vai prejudicar exportação nacional. O Brasil vendeu 7.515,08 toneladas de frutas para o país europeu entre janeiro e novembro de 2025, segundo dados do Ministério da Agricultura. O volume equivale a 0,65% da exportação total dos produtos no período. E também pode limitar a continuidade da expansão de 46,2% das vendas dos produtos do Brasil para o país no acumulado deste ano. Tal movimento resultou em um ganho 66,5% maior para os exportadores brasileiros.
Em valores, vendas à França somam US$ 15,7 milhões. O total representa 1,2% da comercialização total de US$ 1,3 bilhão com os parceiros comerciais no ano. As vendas de mamões (US$ 4,6 milhões), mangas (US$ 3,9 milhões) e abacates (US$ 2,5 milhões) lideram o ranking de negócios com os franceses no período.
Frutas com agrotóxicos
De acordo com o governo francês, a proibição envolve frutas que contenham resíduos de mancozeb, glufosinato, tiofanato-metílico e carbendazim, substâncias já banidas no território europeu. Segundo Genevard, a decisão segue o princípio da reciprocidade sanitária. “Não podemos aceitar que substâncias proibidas aqui reapareçam indiretamente por meio das importações. É uma questão de bom senso”, afirmou.
Posteriormente, Lecornu informou que uma ordem ministerial será publicada nos próximos dias, formalizando a suspensão. Ele também detalhou que a medida pode atingir abacates, mangas, goiabas, frutas cítricas, uvas e maçãs provenientes da América do Sul e de outras regiões que utilizem os defensivos vetados.
Medida ocorre em meio a impasse do acordo Mercosul–UE
O anúncio francês ocorre em um momento de forte pressão interna de agricultores e de impasse político em torno do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. A assinatura do tratado, prevista inicialmente para dezembro, foi adiada para janeiro, após resistência liderada pela França e recentemente reforçada pelo apoio da Itália.
O acordo, fechado em dezembro de 2024 entre a Comissão Europeia e Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, tem como objetivo reduzir ou eliminar tarifas de importação e exportação entre os dois blocos. No entanto, produtores franceses alegam que o pacto, nas condições atuais, ameaça a competitividade da agricultura europeia.
Concorrência Sul-Americana
Segundo entidades do setor agrícola francês, o acordo com o Mercosul pode afetar especialmente os segmentos de carne bovina, aves, açúcar e soja, ao ampliar a entrada de produtos sul-americanos no mercado europeu. Na avaliação dos manifestantes, os agricultores da UE estariam sujeitos a exigências ambientais e sanitárias mais rigorosas, enquanto concorrentes externos operariam com custos menores.
Mesmo após o adiamento do acordo, os protestos continuaram. No dia 19 de dezembro, agricultores despejaram esterco e resíduos em frente à casa de praia do presidente Emmanuel Macron, na cidade de Le Touquet, no norte da França. Durante a manifestação, um caixão com a frase “Não ao Mercosul” foi colocado diante da residência presidencial como símbolo da rejeição ao tratado.
Um dia antes, agricultores franceses e de outros países europeus protestaram em frente ao Parlamento Europeu, em Bruxelas, enquanto ocorria a última cúpula da União Europeia em 2025. O ato terminou em confronto com a polícia, com queima de pneus e repressão às manifestações.
Incerteza no Comércio Agrícola
Em conclusão, a decisão francesa de endurecer regras para importações agrícolas, somada à pressão política interna e ao impasse do acordo Mercosul–União Europeia, amplia as incertezas para o comércio internacional de alimentos. Para os países sul-americanos, o episódio reforça a necessidade de atenção redobrada às exigências sanitárias, ambientais e regulatórias, além de uma estratégia de comunicação técnica e diplomática mais consistente com os mercados europeus.
O cenário indica que, cada vez mais, decisões comerciais no agro estarão condicionadas não apenas a fatores econômicos, mas também a pressões políticas, sociais e ambientais dentro dos países importadores.

