A árvore de ucuúba, antes “simplesmente usada para fazer cabo de vassoura, sem nenhum valor agregado”, se transformou em uma linha de hidratantes da Natura, de alto valor, após anos de pesquisa. Para Ana Costa, vice-presidente de Sustentabilidade, Jurídico e Comunicação Corporativa da empresa, isso é “inovação na veia”.
A história não é isolada. Em outra ponta da bioeconomia, a pilocarpina (molécula extraída do jaborandi e usada globalmente no tratamento de glaucoma) mostra como a biodiversidade brasileira pode dar origem a cadeias produtivas completas. Hoje, esse mercado sustenta cerca de 30 mil famílias no Brasil e posiciona o país como fornecedor global do insumo.
Entre a floresta e o laboratório, esses exemplos ajudam a traduzir uma ideia que se firmou como consenso no 11º Congresso de Inovação da Indústria, realizado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), nesta semana. A biodiversidade brasileira é mais do que um patrimônio natural. É um ativo capaz de impulsionar inovação de alto valor agregado.
Da cosmética à saúde, passando pela agroindústria e pelas deep techs, o país reúne condições únicas para liderar uma nova economia de baixo carbono.
Para Ana Toni, CEO da COP30, um dos principais avanços foi consolidar a mudança do clima como uma agenda definitiva. O mundo, segundo ela, já entendeu que “o tema de mudança do clima é um tema permanente na nossa realidade”.
Nesse novo cenário, crescimento econômico e sustentabilidade deixam de caminhar em trilhas paralelas. “não são mais agendas separadas”, afirmou.
A mudança também aparece no tom do debate global. Como resumiu Patrícia Ellen, sócia-presidente da Systemiq, “hoje ninguém discute mais ‘se’. É o ‘como’, e a ordem de grandeza mudou completamente”. Para ela, a COP também marcou ao conectar clima, economia e geopolítica em uma mesma agenda.
O desafio, agora, é traduzir essa convergência em estratégia. Como destacou Davi Bomtempo, superintendente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI, o objetivo é “trazer junto com a agenda de sustentabilidade a agenda também de competitividade”.
Nesse esforço, iniciativas como a Sustainable Business COP30 (SB COP), que reúne o setor produtivo para levar propostas e posicionamentos às negociações climáticas, foram citadas pelos painelistas como exemplo de como articular a agenda na prática. Nesse contexto, a biodiversidade brasileira surge como um diferencial.

No painel sobre deep techs no Congresso de Inovação, painelistas frisaram que o avanço dessa pauta depende da integração entre empresas, governo e comunidades.
Foto: Bruno Santos/CN
Inovação que nasce da natureza
Se os exemplos da ucuúba e da pilocarpina ajudam a iluminar o caminho, especialistas apontam que o avanço dessa agenda depende de escala e articulação.
No universo das deep techs, a biodiversidade brasileira é tratada como um verdadeiro “laboratório farmacêutico global”, com potencial para soluções em diferentes setores. Mario Frota Junior, CEO da deep tech Regenera Moléculas, trouxe o olhar para o “universo azul”. Com um banco de 3 mil cepas de microrganismos marinhos, a empresa busca soluções que vão de moléculas para doenças incuráveis a biofertilizantes para o agro.
Para Frota, a exploração científica do mar é uma forma de proteção porque cria um motivo concreto e econômico para a preservação ambiental. Ele explica que a falta de uma estrutura organizada de pesquisa coloca o ecossistema em risco: “Se a gente não proteger o mar, as espécies vão ser extintas e a gente nem descobre o que é que tá lá”.
Nesse modelo, inovação e conservação deixam de ser agendas opostas. Ao revelar o valor econômico e científico das espécies, se cria também um incentivo direto para preservá-las. Mas há uma condição. Como alertou Ana Costa, da Natura, “a inovação individual cada vez mais está perdendo força”. O avanço depende da integração entre empresas, governo e comunidades, em uma lógica sistêmica.
Comércio, carbono e protagonismo
Outro ponto de inflexão está na relação entre clima e comércio. O tema entrou formalmente nas negociações internacionais, abrindo espaço para que países passem a influenciar as regras do jogo. E, para Ana Toni, o Brasil precisa assumir esse protagonismo.
“Como é que essa contabilidade de carbono pode ser feita com métricas que refletem a produção nacional e não só a produção internacional com métricas impostas a todos os países?”
A avaliação é que o país tem vantagens relevantes. “O Brasil é um dos países mais competitivos quando o tema é a pegada de carbono”, afirmou, defendendo o uso do comércio internacional como ferramenta para valorizar produtos de baixa emissão e impulsionar a bioeconomia.
Se a inovação tecnológica avança, a dimensão social ainda corre atrás. Um dos alertas dos painelistas sobre a COP30 foi a ausência de estratégias voltadas às pessoas. “A gente tem planos de transição para indústria, para transporte, para agricultura, mas não tem para gente”, apontou a CEO da COP30.
A leitura é que a transformação só será completa se vier acompanhada de formação técnica e inclusão produtiva. Os números ajudam a dimensionar o desafio.
Segundo Patrícia Ellen, enquanto a inteligência artificial pode impactar meio bilhão de empregos até 2030, a economia verde abre uma janela relevante de oportunidades. “Só a adaptação e a resiliência geram 280 milhões de oportunidade e emprego e renda.”
Entre potencial e realidade
Apesar do cenário promissor, o caminho ainda passa por gargalos conhecidos: falta de escala, infraestrutura limitada e uma cultura de investimento pouco orientada ao longo prazo. No caso das deep techs, pesam ainda a ausência de centros pré-clínicos e entraves burocráticos, como a demora na importação de insumos.
Superar esses desafios exige mais do que bons exemplos isolados. Como apontaram os participantes do Congresso de Inovação da Indústria, a liderança brasileira dependerá da capacidade de estruturar um novo modelo de desenvolvimento que vá além da extração e transforme biodiversidade em ativos tecnológicos.
No fim, o legado da COP30 parece menos sobre novos compromissos e mais sobre direção. Como resume Patrícia Ellen, sócia-presidente da Systemiq, se trata de construir, na prática, uma “realidade de resiliência econômica e humana”.
Empresários defendem bioeconomia
Segundo o levantamento da CNI, divulgado no final o ano passado, mais de 80% dos executivos defendem o uso sustentável da biodiversidade como ativo estratégico das empresas. Os dados mostram que 89% dos empresários apoiam a utilização econômica e responsável dos recursos naturais, distribuídos da seguinte forma:
- 32% afirmam que a biodiversidade deve ser conservada, garantindo seu uso sustentável;
- 29% defendem que ela deve fazer parte dos negócios de forma sustentável;
- 28% acreditam que o tema deve ser integrado às políticas de responsabilidade socioambiental.
Apenas 5% defendem a preservação total, sem uso econômico. A diferença é significativa: enquanto preservar significa manter a natureza intocada, conservar (visão majoritária entre os empresários) envolve o uso racional e sustentável dos recursos naturais.
Estrutura dedicada à sustentabilidade avança
A sustentabilidade está cada vez mais incorporada à estrutura formal das indústrias brasileiras. O levantamento da CNI aponta que quase metade das empresas (48%) conta com uma área ou departamento específico para tratar do tema, um avanço de 7 pontos percentuais em relação a 2024, quando o índice era de 41%.
“O crescimento de 7 pontos percentuais em apenas um ano é um indicador impactante. Ele demonstra que o tema está sendo incorporado à gestão e ao planejamento estratégico das companhias”, avalia o diretor de Relações Institucionais da CNI, Roberto Muniz.


