O ex-governador Reinaldo Azambuja (PL), concedeu entrevista exclusiva ao ConecteMS, na tarde desta terça-feira (16), e abordou temas que vão desde sua visão do papel do Senado, uma análise do Governo Federal (que ele considera um desgoverno), uma síntese da experiência acumulada durante dois mandatos como Prefeito de Maracaju, deputado estadual por três mandatos consecutivos e deputado federal por um mandato, elegendo-se governador de Mato Grosso do Sul para dois mandatos consecutivos entre 2015 e 2022.
Além disso, Reinaldo foi o único Chefe do Executivo Estadual que conseguiu fazer o seu sucessor no Estado, o atual governador Eduardo Riedel (PP).
A entrevista foi concedida na sede do PL, em Campo Grande, ao jornalista Ulysses Cosenza, CEO da UCRcomunicação empresa que edita o ConecteMS com sede em Brasília e filial em Campo Grande, e está dividida por tópicos com narrativa na primeira pessoa. Reinaldo é pré-candidato do PL a uma das vagas ao Senado.
Sobre o Senado da República
O Senado é uma Casa importante para o equilíbrio federativo. Nessa polarização toda, acabaram deixando de atender os anseios do país, principalmente no que diz respeito às reformas estruturantes.

O Brasil precisa de reformas. É claro que elas precisam partir do Executivo, mas hoje estamos caminhando para um déficit fiscal gigantesco. Isso aumenta os juros, diminui o crescimento e cria uma instabilidade muito grande. Estamos chegando a um momento em que a dívida pública se aproxima do tamanho do PIB brasileiro.
Eu acredito que o Senado poderia ter um protagonismo maior nas reformas, apoiando aquilo que é importante para a população brasileira. Mas acho que esse papel acabou ficando em segundo plano.
Com a renovação de dois terços da Casa, nestas eleições de 2026, acredito que possamos viver um novo momento, olhando um pouco menos para a polarização e um pouco mais para as causas que realmente importam ao Brasil: as pessoas, o desenvolvimento e as oportunidades.
Em 2023, Mato Grosso do Sul cresceu 13%, enquanto o Brasil cresce hoje entre 2% e 2,5%. O Brasil pode mais. E o Senado também pode entregar mais para a população.
Acho que a atual Legislatura fez o que foi possível fazer, mas existem temas importantes que a nova legislatura terá de encampar em favor do país e das reformas de que o Brasil precisa.
Experiência
Eu acho que a experiência faz muita diferença. Quando você é prefeito de uma cidade média, como Maracaju (dois mandatos), tem uma proximidade muito grande com as pessoas. Quando vai para uma Assembleia Legislativa, quando fui deputado estadual (três mandatos), passa a pensar na amplitude do Estado.
Como deputado federal (um mandato), em Brasília, conheci mais de perto o orçamento da União e as políticas macroeconômicas. E, quando chega ao Governo do Estado, exercendo dois mandatos, encontra uma realidade muito diferente.
Ali você precisa efetivamente fazer entregas e tomar decisões.
O que eu acho que podemos fazer hoje, como pré-candidato, e se for eleito, é buscar reformas estruturantes para o Estado brasileiro, aquilo que realmente importa para o cidadão.

O Brasil pode mais do que está oferecendo hoje. Eu acredito no Brasil. Somos um país de grande potencial, com economia verde, capacidade de desenvolvimento e condições de aproveitar melhor as nossas riquezas.
Também precisamos diminuir tensões. Muitas vezes existem conflitos estimulados por segmentos que não querem o desenvolvimento do Brasil.
Mato Grosso do Sul será o primeiro estado a universalizar o esgotamento sanitário. Isso significa saúde para a população. Estamos fazendo isso por meio de uma PPP (Parceria Público-Privada). Com recursos próprios, o Estado levaria cerca de 50 anos para concluir esse processo. Com a participação da iniciativa privada, vamos fazer em seis anos.
Esse é um exemplo importante para o Brasil e como as parcerias podem acelerar entregas para a sociedade.
Desafios
Hoje, uma das questões centrais é colocar cada Poder no seu devido lugar. Não dá mais para conviver com interferências que ameaçam as prerrogativas constitucionais dos senadores, deputados e demais parlamentares. Essa é uma cobrança da sociedade e o Senado precisa dar respostas.
Outro desafio é abrir caminho para a segurança jurídica dos investimentos. O Brasil precisa de políticas claras de desenvolvimento para que empresários e investidores tenham confiança para aplicar seus recursos, gerar empregos e criar oportunidades.
O Senado também pode contribuir muito para ampliar mercados para o Brasil, reduzir entraves e melhorar nossas relações internacionais. Um exemplo concreto é a Rota Bioceânica. Precisamos construir o caminho legal e diplomático para que as mercadorias fluam sem entraves aduaneiros, já que vão atravessar Brasil, Paraguai, Argentina e Chile.
Trabalho não falta. O que o país precisa é de coragem, equilíbrio e decisão.
Desgoverno
O Brasil tem soluções para melhorar seu desempenho logístico e para enfrentar essa falsa oposição entre produção e preservação ambiental. Nós temos áreas disponíveis para produzir.
Precisamos olhar para o país como um todo. Temos crescimento baixo, juros elevados e uma situação fiscal preocupante, muito aquém do potencial do país.
Já tivemos Selic próxima de 4% ao ano, em plena pandemia. É possível avançar, mas para isso é preciso responsabilidade fiscal. Gastar sem controle leva ao cenário que estamos vivendo hoje.
No fim, alguém sempre vai pagar essa conta.

Eu entendo que o Governo Federal tem responsabilidade sobre o atual cenário econômico. Aliás, é o desgoverno atual que leva os juros à estratosfera.
Hoje vemos muitas empresas fechando as portas. Temos cidadãos de baixa, média e alta renda enfrentando dificuldades, além de um endividamento altíssimo da população brasileira. E o agro, que responde por cerca de 33% da economia e é uma locomotiva para o país, também enfrenta extremos desafios.
Eu acredito que o Senado tem um papel estruturante para o Brasil, mas o Executivo é o grande indutor das mudanças.
Vamos ter de voltar a discutir as reformas e o tamanho da máquina pública. Ter 38 Ministérios é algo difícil de justificar. Eu entendo que as reformas administrativa, previdenciária e fiscal são fundamentais para qualquer governo.
Além disso, existem estatais que dão prejuízo. Se uma empresa estatal não gera resultado para o país, precisamos discutir se faz sentido mantê-la da forma como está. Se está dando prejuízo ao povo brasileiro, é preciso buscar soluções. É o caso dos Correios, por exemplo.
Sinto falta de um debate mais profundo sobre o desenvolvimento do país. Enquanto discutimos questões pontuais, os grandes desafios estruturais seguem sem solução.
Propostas Eleitoreiras
Eu acho que o Governo Federal tem adotado alguns paliativos eleitoreiros. O Desenrola é um exemplo. Foi criado anteriormente, não resolveu o problema e voltou agora como uma solução de caráter eleitoral. Na minha opinião, não vai resolver a questão estrutural.

Quando um governo, como o atual, gasta mais do que arrecada, aumenta a percepção de risco, encarece os juros, gera inflação, cria instabilidade econômica e provoca desconfiança no mercado. Depois, precisa aumentar os juros para controlar a própria inflação.
O que precisamos é criar mecanismos para o desenvolvimento. A equação correta é fazer as reformas de que o país precisa e construir apoio político para elas.
Mas a polarização acabou impedindo esse debate. Um lado discute uma coisa, o outro lado discute outra, e os temas estruturantes ficam em segundo plano.
Eu sou liberal na economia. No caso do fim da jornada de trabalho 6X1 (que está em tramitação no Congresso Nacional), entendo que quem deve tratar da relação de trabalho é o empregador e o empregado.
No caso do agro, mais especificamente, existem particularidades. A atividade rural tem especificidades, como a entressafra, que muitas vezes não se encaixam em regras gerais.
O importante é dar liberdade para negociação. Não se trata de explorar o trabalhador. Pelo contrário: trata-se de permitir que empregado e empregador encontrem soluções que sejam boas para ambos.
Isso pode significar melhor remuneração, opções de carga horária e oportunidades para aumentar a renda.
Outra preocupação é com o impacto dessas mudanças sobre as pequenas e microempresas. O que elas vão fazer diante de determinadas exigências? Existe o risco de aumento do desemprego.
O que acontece é que muitas discussões estão sendo feitas com foco eleitoral: isenção do Imposto de Renda, escala de trabalho, desenrola, entre outras.
Mas eu sinto falta de um debate mais profundo sobre o desenvolvimento do país. Estamos discutindo questões pontuais enquanto os grandes desafios estruturais ficam em segundo plano.
Reformas
Quando fui governador, enviei todas as reformas de que Mato Grosso do Sul precisava: reforma fiscal, administrativa, previdenciária e teto de gastos. Fizemos uma após a outra porque era necessário reduzir o tamanho da máquina pública, diminuir os gastos internos do governo e direcionar recursos para investimentos que fomentassem o desenvolvimento.
Essa equação funcionou bem.
Reduzimos de 17 para 11 Secretarias, implantamos teto de gastos para os Poderes e realizamos a reforma da Previdência para equilibrar as contas estaduais. Isso permitiu melhorar a situação fiscal e criar programas de investimento, fortalecer o municipalismo, ampliar a presença do governo e manter programas sociais.
Ou seja, olhamos para o desenvolvimento sem esquecer do social.
Hoje eu vejo o governo federal com um viés muito voltado para o social, mas com pouca capacidade de promover desenvolvimento. E quem gera riqueza é justamente o desenvolvimento econômico.
Política de Incentivos
Nós promovemos uma mudança completa na política de incentivos do Estado. Isso ajudou a atrair empresas e investimentos.
O programa MS Carbono Neutro abriu oportunidades importantes. Hoje há interesse de grandes empresas e até de Data Centers, que buscam segurança energética e enxergam na biomassa uma alternativa sustentável.
Já ultrapassamos 100 mil hectares vinculados a projetos relacionados à economia de baixo carbono e à industrialização.
Isso trouxe credibilidade para o programa de incentivos e para os compromissos assumidos pelo Estado junto às grandes empresas. Nos últimos anos, acumulamos aproximadamente R$ 80 bilhões em investimentos privados, gerando energia, empregos, florestas plantadas e biocombustíveis.
Mato Grosso do Sul deixou de ser apenas exportador de matéria-prima. Hoje agregamos valor por meio da industrialização.
É o caso do milho. Antes éramos importadores. Hoje produzimos etanol de milho, energia e DDG, que é utilizado na alimentação animal.
Isso muda completamente o perfil econômico do Estado. Você sai da exportação de matéria-prima e passa a agregar valor, gerar energia limpa, fortalecer cadeias produtivas e ampliar as exportações.
Tudo isso foi possível graças a um novo modelo de incentivos e à credibilidade conquistada pela área ambiental, com processos de licenciamento mais ágeis e seguros para quem investe.
Além disso, tivemos avanços em logística, infraestrutura e conectividade digital. Hoje contamos com uma das maiores redes de fibra óptica do país, conectando os 79 municípios do Estado.
Isso permitiu inovações importantes em áreas como telemedicina, educação, por exemplo. Todas as praças públicas dos municípios contam com internet gratuita. Isso muda a vida das pessoas e amplia as oportunidades.
A telemedicina já é realidade. Em muitos municípios, unidades de saúde estão conectadas a centrais especializadas que permitem diagnósticos em tempo real.
Mas, acima de tudo, existe um fator decisivo: confiança. Quem investe quer confiar primeiro. E a confiança construída por Mato Grosso do Sul ajudou a transformar o Estado em um dos que mais crescem no Brasil.
Virada de Chave
Mato Grosso do Sul construiu um ambiente de segurança jurídica muito forte, capaz de atrair grandes investimentos.
Ninguém investe se não acreditar que haverá retorno. A virada de chave foi justamente a confiança do mercado nas políticas públicas implantadas.
Os ganhos dessa reestruturação para o Estado e as pessoas foram muito importantes.
O primeiro deles foi a ampliação das oportunidades. Hoje Mato Grosso do Sul vive uma situação próxima do pleno emprego.
Também investimos fortemente em qualificação profissional. As 364 escolas estaduais de ensino médio oferecem, além do ensino regular, formação técnica e profissionalizante.
Quando aumentamos as oportunidades de emprego e renda, diminuímos o desemprego e reduzimos a pobreza.
Éramos o 14º estado em extrema pobreza. Hoje estamos entre os estados com os menores índices de extrema pobreza do país.
Na segurança pública também avançamos muito.
Em 2015, Mato Grosso do Sul era o 13º estado mais seguro do Brasil. Hoje figura entre os três mais seguros.
Isso foi resultado de investimentos em policiamento ostensivo, proteção, investigação e capacidade de elucidação de crimes.
Na educação, não tínhamos nenhuma escola em tempo integral. Hoje, cerca de 64% da rede estadual funciona nesse modelo.
Isso muda o ambiente escolar, melhora o aprendizado e fortalece a formação dos estudantes.
Também apoiamos os municípios para fortalecer principalmente o ensino de Língua Portuguesa e Matemática.
Ao mesmo tempo, não esquecemos dos programas sociais.
Durante a pandemia, criamos o programa Mais Social. Muitas famílias perderam renda, e o Estado criou um cartão para a compra de alimentos.
Chegamos a atender aproximadamente 100 mil pessoas, com investimentos anuais na casa dos R$ 600 milhões.
Hoje temos cerca de 40 mil beneficiários. Isso significa que milhares de pessoas deixaram de depender do benefício, passaram por processos de qualificação e ingressaram no mercado formal de trabalho.
Em outras palavras, trocaram o benefício por um emprego com carteira assinada.
Além do crescimento econômico, tivemos geração de empregos, redução da pobreza, avanços na educação, fortalecimento da segurança pública e regionalização da saúde.
A regionalização da saúde, está sendo consolidada com o Hospital Regional de Campo Grande e os investimentos em Corumbá e Ladário, fortalecendo o atendimento de média e alta complexidade em todas as regiões.
Os resultados falam por si. São os indicadores que mostram essa transformação.
Confiança
Reformar é sempre mais difícil do que construir. Nós tivemos de reformar o Estado de Mato Grosso do Sul, e valeu a pena.
O apoio do Poder Legislativo foi fundamental para essa virada de chave que colocou o Estado entre os que mais se desenvolvem no Brasil.
Fui o governador mais municipalista da história de Mato Grosso do Sul porque levamos o governo para dentro dos 79 municípios.
Sempre confiei na população, e ela sempre confiou em mim. As propostas que pretendo defender no Senado, caso seja eleito, seguem a mesma linha que adotei ao longo de toda a minha trajetória pública: atuar nas mudanças que realmente importam, promover qualificação, gerar oportunidades e fortalecer o Estado brasileiro.
Tenho as mesmas convicções desde que entrei na política, em 1996, portanto não haverá surpresas na minha atuação.
Quero continuar defendendo Mato Grosso do Sul, defendendo nossa gente e trabalhando para que possamos construir dias melhores.
Esse é o papel de um senador: olhar para o Brasil, apoiar as reformas de que o país precisa, mas sem deixar de defender os interesses do seu Estado.


O Senado também pode contribuir muito para ampliar mercados para o Brasil, reduzir entraves e melhorar nossas relações internacionais. Um exemplo concreto é a Rota Bioceânica. Precisamos construir o caminho legal e diplomático para que as mercadorias fluam sem entraves aduaneiros, já que vão atravessar Brasil, Paraguai, Argentina e Chile.
Reduzimos de 17 para 11 Secretarias, implantamos teto de gastos para os Poderes e realizamos a reforma da Previdência para equilibrar as contas estaduais. Isso permitiu melhorar a situação fiscal e criar programas de investimento, fortalecer o municipalismo, ampliar a presença do governo e manter programas sociais.
Isso trouxe credibilidade para o programa de incentivos e para os compromissos assumidos pelo Estado junto às grandes empresas. Nos últimos anos, acumulamos aproximadamente R$ 80 bilhões em investimentos privados, gerando energia, empregos, florestas plantadas e biocombustíveis.
Ninguém investe se não acreditar que haverá retorno. A virada de chave foi justamente a confiança do mercado nas políticas públicas implantadas.
Sempre confiei na população, e ela sempre confiou em mim. As propostas que pretendo defender no Senado, caso seja eleito, seguem a mesma linha que adotei ao longo de toda a minha trajetória pública: atuar nas mudanças que realmente importam, promover qualificação, gerar oportunidades e fortalecer o Estado brasileiro.