Enquanto os Estados Unidos possuem uma capacidade de armazenamento equivalente a 150% de sua produção de grãos, com mais de 65% dos silos localizados dentro das propriedades rurais, o Brasil consegue estocar apenas cerca de metade da safra.
Os números fazem parte do relatório “Retrato da Logística de Grãos do Brasil” elaborado pela empresa de tecnologia logística nstech, maior empresa de software para supply chain da América Latina elaborado com base em dados da Esalq-Log, da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e do Ministério dos Transportes.
Nas fazendas brasileiras, a capacidade representa somente 17% do total disponível, cenário que amplia os custos logísticos e dificulta o escoamento da produção.
Mato Grosso do Sul
Em Mato Grosso do Sul o déficit de armazenagem gerou um custo de oportunidade estimado em R$ 6,1 bilhões na safra 2024/2025, valor que corresponde a receitas que deixaram de ser capturadas pelos produtores em razão da limitação estrutural de silos no estado.
Do montante, R$ 4,7 bilhões representam a soja e R$ 1,4 bilhão o milho, o que evidencia a maior sensibilidade da oleaginosa às condições de mercado e à insuficiência de capacidade de estocagem.
Na safra analisada, a produção conjunta de soja e milho no estado foi estimada em 24,26 milhões de toneladas, enquanto a capacidade estática de armazenagem totaliza 16,39 milhões de toneladas.
Ao considerar o parâmetro técnico recomendado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), que indica a necessidade de capacidade de armazenagem equivalente a 120% da produção anual, Mato Grosso do Sul apresenta um déficit 12,72 milhões de toneladas, equivalente a 43,7% da capacidade ideal necessária para atender adequadamente à demanda da safra.
Retrato da Logística
Segundo estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção de grãos no país deve atingir 356,3 milhões de toneladas no ciclo 2025/26, volume recorde impulsionado pelo aumento da produtividade e da área cultivada.
O déficit de armazenagem faz com que grande parte da produção precise ser transportada logo após a colheita, sobrecarregando rodovias, elevando os custos com frete e reduzindo a capacidade do produtor de escolher o melhor momento para comercializar os grãos.
O levantamento mostra que o modal rodoviário continua predominante no transporte de grãos no país. Em 2023, as estradas responderam por 69% do escoamento da soja brasileira, enquanto as ferrovias representaram 22% e as hidrovias, 9%.
A expectativa é de uma pequena mudança nessa distribuição. Segundo o estudo, em 2025 a participação das ferrovias foi de 25%, enquanto as hidrovias permaneceram com 9%.
Ainda assim, o transporte rodoviário continuará responsável por cerca de dois terços da movimentação da safra.
Segundo o relatório, essa concentração mantém elevados os custos logísticos e aumenta a pressão sobre a frota de caminhões durante o período de colheita.
De acordo, Thiago Cardoso, diretor de Agronegócio da nstech, a predominância rodoviária ainda expõe ineficiências, com o país operando com um excedente estimado de 70 mil caminhões em rotas de longa distância.
Para superar esses desafios, Cardoso aponta que a agenda ESG e a digitalização deixaram de ser diferenciais e passaram a ser pré-requisitos comerciais.
Especialistas apontam que ampliar a rede de armazenagem é uma das principais medidas para aumentar a eficiência da logística agrícola brasileira.
Com maior capacidade de estocagem nas propriedades, os produtores podem distribuir o transporte ao longo do ano, reduzir filas em armazéns e portos e comercializar a produção em momentos mais favoráveis de preços.


