A alta dos preços de alimentação e transportes, registrada pelo IPCA de março, acende um alerta importante: o orçamento das famílias, principalmente as de menor renda, tende a ficar ainda mais pressionado.
Para Rogério Sobreira, economista-chefe do Banco do Nordeste, o encarecimento de itens básicos ajuda a explicar a deterioração das condições de crédito observada desde o início de 2025. Mesmo com o avanço da renda média, as famílias mais pobres vêm destinando uma parcela crescente do orçamento a despesas essenciais, o que reduz sua capacidade de honrar dívidas.
Dados de 2025 da Fundação Getulio Vargas mostram que famílias com renda de até 1,5 salário mínimo comprometem entre 22% e 22,6% do orçamentocom alimentação — um peso três vezes maior do que o observado entre as famílias de renda mais alta.
O gasto com transportes também é relevante: consome de 10% a 20% da renda, dependendo da região metropolitana e da frequência de uso do transporte público. Trata-se, em geral, da segunda ou terceira maior despesa dessas famílias — e, portanto, qualquer aumento de preços tem impacto direto sobre o orçamento.
Esse aperto não é recente. Desde 2023, a inflação de alimentos supera com folga o índice geral de preços. No período, o IPCA acumulou alta de 41,8%, enquanto a alimentação no domicílio subiu 61,7%. Já o transporte público avançou 37,4%. Ou seja, os itens mais relevantes para a população de menor renda ficaram mais caros do que a média.
Mas a inflação, sozinha, não explica o problema. O endividamento das famílias já vinha em trajetória de alta, impulsionado pelo período de juros baixos e pela ampla oferta de crédito. Com a reversão desse cenário — juros mais altos e renda pressionada —, a capacidade de pagamento foi comprometida.
O programa Desenrola ajudou a reduzir a inadimplência ao permitir a renegociação de dívidas. Mas o alívio foi parcial e temporário. Com a nova alta dos juros antes de uma reestruturação financeira mais consistente, muitas famílias voltaram a se endividar — agora em condições mais caras. Em muitos casos, dívidas antigas foram substituídas por novas, com custos maiores e mais difíceis de sustentar.
Ao mesmo tempo, a oferta de crédito se tornou mais restrita, empurrando consumidores para linhas mais onerosas, como o cheque especial e o rotativo do cartão.
Hoje, segundo Sobreira, 29,33% da renda familiar está comprometida com o pagamento de dívidas. Desse total, cerca de 11 pontos percentuais correspondem apenas ao serviço da dívida — ou seja, aos juros. “Isso reflete o fato de que muitas famílias estão apenas rolando suas dívidas”, afirma.
Quando se exclui o financiamento habitacional dessa conta, o comprometimento ainda é elevado: cerca de 27% da renda mensal é destinado ao pagamento de parcelas e faturas. Isso indica que o endividamento está concentrado em linhas de curto prazo, mais caras e mais sensíveis ao ciclo de juros.
Esse grupo de famílias enfrenta ainda um desafio adicional: a deterioração da sua classificação de crédito. Em um ambiente de juros altos e inadimplência crescente, os bancos tendem a ser mais seletivos. E quanto maior o nível de endividamento, menor a chance de acesso a novas lines de crédito — o que dificulta a reorganização financeira. “É um processo que retroalimenta a inadimplência e evidencia a fragilidade da dinâmica de crédito”, diz o economista.
Outro sinal de alerta vem da inadimplência nas linhas de crédito direcionado, tradicionalmente consideradas mais seguras — como financiamento habitacional, microcrédito e crédito rural.
Dados do Banco Central mostram que a taxa mais que dobrou nos últimos anos, passando de 1,45% em janeiro de 2023 para 3,18% em fevereiro deste ano.
No crédito livre, a inadimplência também subiu, de 5,54% para 6,90% no mesmo período. “O aumento da inadimplência no crédito direcionado indica uma deterioração mais disseminada da capacidade de pagamento das famílias”, conclui Sobreira.


