Eduardo Riedel escolheu o tempo como medida para falar de seu governo. Não o tempo abstrato dos calendários, mas aquele que pode ser percebido quando uma família melhora de renda, um jovem encontra emprego, uma escola apresenta resultados melhores ou um serviço público consegue chegar mais perto de quem precisa dele.
Ao completar 1.364 dias à frente de Mato Grosso do Sul, o governador e candidato à reeleição pelo Progressistas usou o número para fazer um balanço da gestão e, sobretudo, estabelecer a ponte entre o que considera conquistas do primeiro mandato e aquilo que pretende fazer nos próximos quatro anos.
“O que cabe em 1.364 dias?”, perguntou. Na resposta, colocou crescimento econômico, emprego, renda, educação e redução da pobreza. Mas também procurou dar ao balanço uma dimensão menos estatística.
“Acima de tudo, cabem histórias que nenhum número pode contar”, afirmou.
Essa talvez seja a síntese política mais importante de sua fala. Riedel procura apresentar o desenvolvimento econômico não como ponto de chegada, mas como instrumento para alcançar a parcela da população que ainda não conseguiu acompanhar o ritmo de transformação do Estado.
Ao citar o EJA Mulher, por exemplo, voltou-se para quem precisou abandonar os estudos e tenta reconstruir sua trajetória na vida adulta. “Essas pessoas, a gente tem que pegar na mão e trazer para esse processo de crescimento”, disse.
É nessa passagem — do crescimento para a inclusão — que o governador sustenta boa parte da narrativa de continuidade de sua gestão.
Crescer, mas fazer o crescimento chegar às pessoas
Mato Grosso do Sul viveu nos últimos anos um ciclo de expansão econômica impulsionado por investimentos privados, agroindústria e novas cadeias produtivas. Riedel incorporou esse cenário ao balanço do mandato ao afirmar que o Estado “mudou de patamar”.
Há números que ajudam a dimensionar essa transformação. Em 2023, último resultado consolidado das Contas Regionais disponível pelo IBGE, a economia sul-mato-grossense cresceu 13,4%, enquanto o PIB brasileiro avançou 3,2%. Naquele ano, portanto, a expansão estadual foi mais de quatro vezes superior à média nacional.
No discurso de Riedel, porém, a principal questão passa a ser o que fazer com esse crescimento.
É por isso que emprego, renda e redução da vulnerabilidade aparecem ao lado dos grandes investimentos. O governador sustenta que milhares de sul-mato-grossenses conseguiram melhorar suas condições de vida durante o período e defende que o próximo passo é alcançar aqueles que ainda permanecem fora dessa dinâmica.
A ideia aparece de maneira recorrente em sua fala: desenvolvimento só se completa quando produz mobilidade social.
“Quando a vida de alguém muda, faz tudo valer a pena”, resumiu.
Essa visão também ajuda a explicar por que políticas educacionais aparecem tão próximas da agenda econômica apresentada pelo governador. Para Riedel, a escola não é apenas uma política social, mas parte da preparação do Estado para um mercado de trabalho que cresce, se industrializa e passa a exigir profissionais mais qualificados.
Da melhor nota da história ao desafio de ampliar o tempo na escola
Na educação, Riedel encontrou um dos indicadores mais objetivos para sustentar o balanço.
Mato Grosso do Sul atingiu em 2025 os melhores resultados de sua série histórica no Ideb nas três etapas avaliadas. O índice chegou a 5,9 nos anos iniciais do ensino fundamental, 5 nos anos finais e 4,4 no ensino médio. A série começou em 2005.
É a partir desse avanço que o governador projeta uma nova etapa.
A proposta apresentada para os próximos quatro anos é fazer o ensino integral avançar pelo ensino fundamental, numa parceria mais estreita entre Estado e municípios. O movimento, segundo Riedel, teria ainda um segundo efeito: criar condições para que as prefeituras concentrem mais esforços na abertura de creches e no fortalecimento da educação infantil.
A ideia estabelece uma espécie de encadeamento entre as responsabilidades públicas. Enquanto o Estado amplia sua participação no ensino fundamental, os municípios ganhariam maior capacidade para responder a uma das demandas mais presentes na rotina das famílias: encontrar uma vaga para as crianças pequenas.
É uma política educacional, mas que toca diretamente a organização da casa. A falta de creche, afinal, frequentemente significa a impossibilidade de uma mãe ou de um pai trabalhar em período integral.
Riedel coloca essa expansão dentro de uma concepção mais ampla de desenvolvimento: melhorar a escola hoje para formar o trabalhador e ampliar as oportunidades de amanhã.
Hospitais mais próximos para reduzir distâncias
Na saúde, o mapa de Mato Grosso do Sul ajuda a entender o tamanho do desafio.
São municípios separados por centenas de quilômetros e uma rede de atendimento de maior complexidade historicamente concentrada nos principais centros urbanos. Para quem vive no interior, uma consulta, um exame ou uma cirurgia podem significar horas de estrada e, muitas vezes, a necessidade de permanecer longe de casa.
É sobre essa realidade que Riedel pretende avançar.
O governador anunciou como uma das prioridades de um eventual segundo mandato a implantação de um novo Hospital Regional em Corumbá e a ampliação do Hospital Regional de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande.
Sobre a expansão da unidade da Capital, afirmou que a dimensão planejada equivale, na prática, à criação de “praticamente mais um novo hospital”.
Mas a estratégia apresentada não se limita às grandes unidades.
Riedel afirmou que investimentos já estão em andamento em 45 hospitais de média complexidade, dentro de uma política de regionalização que pretende aproximar o atendimento da população e reduzir a necessidade de deslocamentos.
É uma mudança que se mede menos pelo tamanho do prédio do que pela distância que o paciente deixa de percorrer.
“Levando o atendimento para perto de quem mais precisa”, sintetizou o governador.
A próxima fronteira está também dentro das cidades
Se os grandes corredores rodoviários acompanham a expansão econômica de Mato Grosso do Sul, Riedel também voltou o olhar para uma infraestrutura muito mais próxima da porta de casa.
Segundo o governador, 82% das ruas das cidades sul-mato-grossenses já estão asfaltadas. A meta apresentada para os próximos anos é avançar sobre o trecho que ainda falta.
A pavimentação integra um conjunto de investimentos que inclui mais de R$ 3 bilhões anunciados para rodovias estaduais e a continuidade da expansão do saneamento básico.
São obras distintas, mas que encontram a população no mesmo lugar: no cotidiano.
Uma rodovia melhor interfere no transporte da produção e na competitividade econômica, mas também na viagem de quem precisa chegar a outro município. O asfalto elimina lama e poeira diante de casa. A rede de esgoto desaparece sob o chão depois de pronta, mas seus efeitos aparecem na saúde, no meio ambiente e na valorização dos bairros.
Ao prometer a universalização do saneamento, Riedel coloca a infraestrutura básica entre as agendas que pretende concluir em uma próxima gestão.
Nesse ponto, a lógica do discurso muda. Se os primeiros anos foram apresentados como um período de abertura de novas frentes, a proposta agora é também completar ciclos iniciados.
“A vida não acontece só nos 30 dias de eleição”
Ao transformar os 1.364 dias de mandato em fio condutor de sua fala, Riedel também estabeleceu o contraste político que pretende levar para a reta final da campanha.
Sem citar adversários nominalmente nesse trecho, criticou candidatos que, segundo ele, aparecem no período eleitoral para questionar realizações do governo e apresentar novas promessas.
“Mas onde eles estavam nesses 1.364 dias?”, perguntou.
Em seguida, condensou o argumento numa frase: “A sua vida não acontece só nos 30 dias de eleição”.
A mensagem revela a estratégia de quem disputa a reeleição: fazer do cotidiano administrativo uma credencial política. Em vez de apresentar o próximo mandato como ruptura, Riedel o descreve como uma segunda etapa de um processo já em andamento.
É nesse contexto que aparecem os R$ 3 bilhões previstos para rodovias, o novo hospital de Corumbá, a ampliação do Regional de Campo Grande, os investimentos na rede hospitalar do interior, a expansão do ensino integral, o avanço da pavimentação e a universalização do saneamento.
São compromissos apresentados pelo candidato para um eventual novo mandato e que, por isso, ainda dependerão da execução futura.
No encerramento, Riedel voltou ao número que havia usado para abrir sua fala.
Depois de quase quatro anos de governo, os mesmos 1.364 dias que serviram para medir o caminho percorrido passaram a representar o tamanho da tarefa que ainda pretende realizar.
“Quando a gente olha para tudo que ainda vem pela frente, 1.364 dias é pouco”, afirmou.
E completou: “Ainda tem muita história para acontecer. Muita gente para crescer na vida”.
Assim, mais do que prestar contas do mandato, Riedel procurou estabelecer uma linha de continuidade entre dois tempos: o Estado que encontrou em 2023, aquele que apresenta ao eleitor em 2026 e o Mato Grosso do Sul que pretende entregar quatro anos adiante. A decisão sobre a continuidade desse caminho, como ele próprio ressaltou ao fim do programa, ficará nas mãos do eleitor.


