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Bioeconomia avança com ciência tropical e pode abrir mercados para o agro no comércio internacional

Diplomacia científica surge como ferramenta estratégica para superar barreiras comerciais, ampliar o reconhecimento da produção sustentável e consolidar o Brasil como referência mundial em pesquisa agropecuária.

Antes mesmo das tarifas e das restrições comerciais, o agronegócio brasileiro enfrenta um desafio estratégico para ampliar sua presença no mercado internacional: conquistar o reconhecimento da ciência tropical desenvolvida no país e demonstrar ao mundo a eficiência, a sustentabilidade e as particularidades dos seus sistemas de produção. A bioeconomia aparece como uma alternativa promissora nesse contexto.

Apesar de ocupar posição de destaque na produção mundial de alimentos e no desenvolvimento de tecnologias adaptadas ao clima tropical, o Brasil ainda encontra dificuldades para fazer com que suas pesquisas e práticas agropecuárias, incluindo as inovações em bioeconomia, sejam consideradas na definição de parâmetros científicos, ambientais e produtivos internacionais.

A avaliação é da chefe da Embrapa Gado de Corte, em Campo Grande, e conselheira da Organização Mundial dos Agricultores (WFO), Mariana Pereira. Segundo ela, a predominância de uma visão europeia e norte-americana sobre os modelos de produção agrícola contribui para interpretações equivocadas sobre a realidade brasileira, enquanto a Bioeconomia pode ser um diferencial competitivo.

“A Europa tem ainda uma visão muito errada sobre esses temas e sobre a produção no Brasil, que, ao mesmo tempo, é a maior referência em ciência tropical do mundo”, afirma a pesquisadora.

Na avaliação de Mariana, o desconhecimento internacional sobre as tecnologias, pesquisas e práticas adotadas nas propriedades rurais brasileiras acaba criando obstáculos que vão além das questões tarifárias. São barreiras de percepção e reconhecimento científico que podem influenciar decisões comerciais, exigências ambientais e políticas de acesso a mercados.

Diplomacia científica ganha força no agronegócio

Uma das alternativas para enfrentar esse cenário é ampliar a chamada diplomacia científica, estratégia que utiliza a pesquisa, a inovação tecnológica e a cooperação internacional como instrumentos de aproximação entre países e fortalecimento das relações comerciais.

Na prática, significa levar o conhecimento produzido pelas instituições brasileiras aos principais fóruns internacionais, apresentar evidências sobre os sistemas produtivos tropicais e participar ativamente da construção de critérios globais relacionados à sustentabilidade, produtividade e uso dos recursos naturais.

O movimento ganha importância diante das diferenças entre a agricultura praticada em regiões tropicais e os modelos predominantes em países de clima temperado.

Tecnologias de manejo do solo, integração entre lavoura, pecuária e floresta, recuperação de pastagens, melhoramento genético e sistemas produtivos adaptados às condições climáticas brasileiras são exemplos de áreas em que a pesquisa nacional pode contribuir para o debate internacional.

Sob a perspectiva da bioeconomia, esse conhecimento representa um ativo estratégico. A combinação entre inovação, uso eficiente dos recursos naturais e produção agropecuária pode fortalecer a competitividade brasileira e ampliar oportunidades em mercados que exigem comprovação de sustentabilidade.

Mais do que divulgar resultados, o desafio é garantir que as evidências científicas brasileiras sejam consideradas nas negociações internacionais e na formulação de regras que impactam diretamente o setor produtivo.

Pesquisa brasileira sustenta inovação no campo

Parte importante dessa estrutura científica está concentrada no Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária (SNPA), instituído em 1992 para integrar instituições responsáveis pela geração e difusão de conhecimento voltado ao desenvolvimento do campo.

A rede reúne a Embrapa, organizações estaduais de pesquisa, universidades, institutos federais e estaduais, além de entidades públicas e privadas ligadas à inovação agropecuária.

Entre suas atribuições estão o desenvolvimento de projetos conjuntos, o compartilhamento de informações científicas e a articulação de pesquisas direcionadas às necessidades das diferentes regiões brasileiras.

Essa integração permite desenvolver soluções tecnológicas adaptadas às características de cada território, considerando fatores como clima, solo, disponibilidade hídrica, biodiversidade e sistemas de produção.

Ao aproximar pesquisadores e produtores rurais, o sistema também contribui para transformar conhecimento científico em resultados concretos, com ganhos de produtividade, eficiência e sustentabilidade.

Bioeconomia amplia oportunidades para o Brasil

A valorização da ciência tropical também está diretamente relacionada ao avanço da bioeconomia, que busca conciliar desenvolvimento econômico, inovação e utilização sustentável dos recursos biológicos.

Nesse cenário, o Brasil reúne condições para ampliar sua participação nas discussões internacionais sobre produção de alimentos, mudanças climáticas, conservação ambiental e tecnologias de baixo carbono.

Entretanto, transformar esse potencial em vantagem competitiva depende não apenas da capacidade de produzir conhecimento, mas também de demonstrar seus resultados de maneira transparente, consistente e reconhecida internacionalmente.

A produtora rural Carminha Missio destaca que a integração entre a pesquisa científica e a realidade das propriedades é fundamental para apresentar ao mercado externo a diversidade e a eficiência dos sistemas produtivos brasileiros.

Segundo ela, é necessário assegurar a representação dos manejos utilizados nas diferentes bases produtivas do país, permitindo que o conhecimento desenvolvido no campo seja incorporado à construção da imagem internacional do agronegócio.

Esse processo, na avaliação da produtora, também faz parte do desafio de “vender bem” a referência brasileira em ciência agropecuária.

O principal desafio, portanto, é transformar a liderança brasileira em pesquisa tropical em reconhecimento internacional, influência científica e novas oportunidades comerciais. Em um mercado cada vez mais orientado por critérios ambientais e exigências de sustentabilidade, a capacidade de comprovar resultados e participar da definição das regras globais pode ser tão importante quanto a competitividade da produção.

Para o agronegócio brasileiro, a ciência deixa de ser apenas uma ferramenta de inovação dentro das propriedades e passa a ocupar posição estratégica na defesa dos interesses do país, na valorização da bioeconomia e na abertura de novos mercados.

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