A Santa Casa não é apenas um CNPJ. É um patrimônio de Campo Grande e, acima de tudo, um lugar onde vidas dependem de cada recurso que deveria ser aplicado corretamente.
A corrupção não olha para quem está deitado em um leito, para a criança que espera por uma cirurgia, para a família angustiada diante de um diagnóstico ou para o profissional que trabalha sem os recursos necessários.
É esse o lado mais cruel do escândalo que agora envolve a cúpula da Santa Casa de Campo Grande.
Enquanto o hospital atravessava uma das fases mais delicadas de sua história, integrantes de sua estrutura administrativa passaram a ser alvo de uma investigação que apura justamente a utilização irregular de recursos que deveriam estar voltados para o funcionamento da instituição.
A Operação Antidotum, deflagrada pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), levou para a cadeia, de forma preventiva, integrantes da alta administração da Santa Casa e revelou suspeitas de fraudes e desvios que, segundo o MPMS, provocaram inicialmente um prejuízo de pelo menos R$ 4,9 milhões. Foram cumpridos 6 mandados de prisão preventiva e 36 mandados de busca e apreensão nos municípios de Campo Grande, Dourados e Goiânia (GO).
O valor pode aumentar na medida em que a investigação avançar para reconstruir o caminho percorrido pelos recursos, identificar eventuais beneficiários, dimensionar o prejuízo total e esclarecer a participação individual de cada investigado.
Nos últimos meses, a instituição enfrentou dificuldades relacionadas a medicamentos, materiais hospitalares, gases medicinais, exames, órteses, próteses e materiais especiais, além de problemas para manter equipes e serviços de média e alta complexidade.
Em meio à crise, um dos episódios mais dramáticos foi a suspensão temporária de cirurgias cardíacas pediátricas por falta de equipe especializada.
São situações que ajudam a dimensionar o verdadeiro significado de cada real que entra ou deixa os cofres do hospital. Para quem administra uma planilha, milhões podem parecer apenas números. Para quem está em uma fila aguardando atendimento, o mesmo dinheiro significa a possibilidade de um atendimento digno e humano.
Porque, no fim das contas, a verdadeira vítima de um eventual esquema dentro da Santa Casa não aparece em uma planilha.
Ela pode estar em um leito.
Pode estar em uma fila.
Pode ser uma criança esperando por uma cirurgia.
Pode ser uma família aguardando um diagnóstico.
Pode ser um profissional trabalhando sem as condições necessárias.
A Santa Casa faz parte da história de Campo Grande e tem papel fundamental na rede de atendimento regional de Mato Grosso do Sul.
Sua importância não pode ser medida apenas pelo patrimônio, pelo faturamento ou pelos contratos que aparecem nos balanços. Ela deve ser medida pelas vidas que passam diariamente por seus corredores.
Por isso é crucial que se investigue e apure quanto dinheiro deixou de chegar à saúde e onde esse dinheiro foi parar.
E é justamente por isso que a investigação precisa avançar até o fim, com transparência, direito de defesa e responsabilização de quem eventualmente tiver cometido irregularidades.
Por Ulysses Cosenza, jornalista/publicitário e CEO do Grupo UCRcom com sede em Brasília e que edita o website Conectems em Campo Grande/MS.
Nota: Após a deflagração da operação, os seis investigados passaram por audiência de custódia no sábado (12). A Justiça manteve as prisões preventivas, e todos permanecem detidos preventivamente, são eles: a presidente da Santa Casa, Alir Terra Lima, Rinaldo Hakme Romano, Alessandro Dias Junqueira, Paulo Guilherme Gutierres Mariosa, Monique Gregório de Oliveira e Maurício Aparecido Benites.
As defesas, por sua vez, contestam as acusações. A defesa de Alir Terra Lima informou que pretende pedir a revogação da prisão preventiva e sustenta que a presidente nega ter cometido qualquer irregularidade.
O MPMS continua analisando o material recolhido durante os 36 mandados de busca e apreensão.
A diretora do plano de saúde da Santa Casa, Beatriz Lemes da Silva, foi alvo de medidas cautelares alternativas à prisão. A juíza May Melke Penteado Siravegna, do Núcleo de Garantias, determinou o afastamento do cargo e autorizou mandados de busca e apreensão contra ela, bem como o afastamento de Paulo da Cruz Duarte que atuava como advogado da Santa Casa e da operadora Santa Casa Saúde, ambos não foram presos no âmbito da operação.
A Santa Casa já está sob comando do presidente interino Heitor Scheibeler. No lugar do diretor administrativo Alessandro Junqueira, foi nomeado de forma interina, Lucas Jeferson Santos da Silva. Para o lugar do diretor de finanças adjunto Paulo Guilherme Guttierrez Mariosa, foi indicada Terezinha Mafort de Castro Lopes.


