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Etanol marítimo pode abrir mercado de 30 bilhões de litros e impulsionar bioenergia de Mato Grosso do Sul

Responsável por 13,5% da produção nacional de etanol, Mato Grosso do Sul pode ampliar sua participação no mercado internacional com a utilização do biocombustível na navegação; nova demanda mundial representa oportunidade estratégica para as 22 unidades produtoras instaladas no Estado.

A abertura do mercado mundial de combustíveis marítimos para o etanol pode representar uma nova fronteira de crescimento para a bioenergia de Mato Grosso do Sul, consolidando o Estado como um dos protagonistas brasileiros na produção de combustíveis renováveis.

Com participação de 13,5% na produção nacional de etanol e uma cadeia industrial em expansão, o Estado reúne condições para se beneficiar de uma demanda potencial estimada em aproximadamente 30 bilhões de litros por ano.

Projeção

A projeção é de Martinho Seiiti Ono, CEO da SCA Brasil, que avalia que a substituição de apenas 10% dos combustíveis utilizados mundialmente pelo transporte marítimo por etanol poderia criar um mercado de dimensões expressivas para o setor sucroenergético brasileiro.

Para Mato Grosso do Sul, essa perspectiva representa mais do que uma oportunidade de ampliar a comercialização do biocombustível.

A entrada do etanol na matriz energética da navegação internacional poderá estimular novos investimentos industriais, fortalecer a produção agrícola, gerar empregos e ampliar a participação sul-mato-grossense na cadeia global de energia de baixo carbono.

O potencial é especialmente relevante diante da crescente demanda internacional por alternativas aos combustíveis fósseis, impulsionada pelas metas de redução das emissões de gases de efeito estufa no transporte marítimo.

Mato Grosso do Sul e o protagonismo na bioenergia

Como já mostrou o ConecteMS, Mato Grosso do Sul responde por 13,5% da produção brasileira de etanol, posição que coloca o Estado entre os principais polos de bioenergia do país.

A estrutura produtiva sul-mato-grossense conta com 22 unidades industriais em operação, todas produtoras de etanol hidratado e com sistemas de cogeração de bioeletricidade. Desse total, 14 unidades comercializam o excedente de energia elétrica gerado a partir da biomassa, contribuindo também para o abastecimento do sistema elétrico nacional.

Essa capacidade instalada representa uma vantagem competitiva diante da possibilidade de expansão do consumo internacional de etanol. A abertura de um novo mercado para o combustível poderá estimular a modernização das usinas, a ampliação da capacidade produtiva e novos investimentos em tecnologias voltadas à descarbonização.

Outro fator favorável é a expansão da produção de etanol de milho, segmento que vem diversificando a matriz brasileira de biocombustíveis e criando alternativas de crescimento para regiões com forte produção de grãos, como Mato Grosso do Sul.

A combinação entre produção de cana-de-açúcar, disponibilidade de milho, capacidade industrial e experiência na geração de energia renovável coloca o Estado em posição estratégica para disputar parte desse mercado emergente.

Mercado marítimo

A dimensão da oportunidade pode ser medida pela comparação entre a produção brasileira de etanol e o consumo mundial de combustíveis utilizados na navegação.

Segundo estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mencionadas na análise, o Brasil deverá produzir 41,88 bilhões de litros de etanol na safra 2026/27.

Já o consumo mundial de combustíveis marítimos é estimado entre 250 bilhões e 298 bilhões de litros anuais. Nesse cenário, uma participação de 10% do etanol representaria um mercado potencial próximo de 30 bilhões de litros por ano.

O volume corresponde a aproximadamente 72% de toda a produção brasileira projetada para a safra 2026/27, o que evidencia a dimensão econômica dessa nova possibilidade de consumo.

Trata-se, entretanto, de uma projeção de mercado, e não de uma demanda já contratada ou garantida. A efetiva participação do etanol dependerá da evolução tecnológica, da competitividade econômica e da adoção do combustível pelas empresas de navegação.

Para Mato Grosso do Sul, mesmo uma participação proporcional à sua atual representatividade na produção nacional poderia significar uma oportunidade expressiva de expansão.

Em um exercício hipotético, a manutenção da fatia de 13,5% sobre um mercado de 30 bilhões de litros corresponderia a aproximadamente 4 bilhões de litros anuais, volume que não representa uma previsão de vendas, mas ilustra o potencial econômico da nova atividade.

Navegação pode acelerar utilização do etanol

Na avaliação de Martinho Seiiti Ono, a utilização do etanol no transporte marítimo poderá avançar mais rapidamente do que o combustível sustentável de aviação, conhecido como SAF.

O executivo destaca que experiências com diferentes misturas de combustíveis, incluindo a utilização de etanol puro, denominado E100, têm apresentado resultados positivos.

A expectativa de entrada em operação de embarcações adaptadas ao uso de combustíveis alternativos até 2030 também contribui para ampliar as perspectivas de utilização do biocombustível brasileiro.

Empresas internacionais como Vale e Maersk estão entre as companhias citadas por Ono em iniciativas de testes e adaptações tecnológicas voltadas à utilização de biocombustíveis na navegação.

O avanço dessas experiências poderá representar uma transformação importante no mercado global de energia, com a abertura de novas possibilidades comerciais para países produtores de combustíveis renováveis.

Nesse contexto, o Brasil reúne vantagens pela experiência acumulada na produção de etanol, pela escala industrial e pela disponibilidade de matérias-primas agrícolas.

Logística e infraestrutura serão decisivas para MS

Apesar das perspectivas favoráveis, a consolidação do etanol marítimo como alternativa energética dependerá de investimentos que vão além da ampliação da produção.

A necessidade de transportar grandes volumes de combustível até os terminais portuários exigirá soluções logísticas eficientes, infraestrutura de armazenagem e sistemas adequados de abastecimento das embarcações.

Para Mato Grosso do Sul, Estado sem acesso direto ao mar, a competitividade dependerá especialmente da integração entre rodovias, ferrovias, terminais logísticos e corredores de exportação.

Nesse cenário, projetos de modernização e expansão da infraestrutura de transportes, incluindo a recuperação da Malha Oeste e o fortalecimento de corredores multimodais, poderão assumir importância estratégica para reduzir custos e ampliar a capacidade de escoamento da produção.

A localização geográfica do Estado e sua integração com importantes regiões produtoras de grãos e biocombustíveis também poderão favorecer novos investimentos em armazenagem, distribuição e transporte.

Entretanto, a transformação desse potencial em negócios concretos exigirá planejamento de longo prazo, segurança regulatória e condições econômicas que permitam ao etanol competir com outras alternativas energéticas utilizadas pela navegação.

Nova oportunidade de desenvolvimento

A discussão sobre o etanol marítimo integra um movimento internacional de transformação da matriz energética do transporte, setor pressionado a reduzir sua dependência de combustíveis fósseis.

No Brasil, o tema também aparece nos debates sobre o Programa Nacional de Combustível Sustentável de Navegação, voltados à construção de alternativas para a descarbonização das atividades marítimas.

Para Martinho Seiiti Ono, a consolidação desse mercado dependerá de regras claras, metas e previsibilidade capazes de oferecer segurança aos investimentos necessários à expansão da oferta e da infraestrutura.

A possibilidade de utilização do etanol na navegação internacional surge, portanto, como uma nova oportunidade para a indústria brasileira de biocombustíveis e, particularmente, para Mato Grosso do Sul.

Com uma cadeia produtiva consolidada, participação relevante na produção nacional e potencial de expansão do etanol de milho, o Estado poderá transformar a abertura desse mercado em um novo ciclo de investimentos, industrialização e geração de renda.

O desafio será converter a vantagem produtiva já conquistada por Mato Grosso do Sul em competitividade logística e comercial, garantindo que o Estado participe de uma eventual expansão do etanol brasileiro para abastecer a frota marítima mundial.

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