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Lula sugere que economia do país está desarrumada e reconhece necessidade de recuperar a confiança dos investidores

Ao afirmar que ninguém investe em uma economia desordenada, presidente reforça preocupações sobre equilíbrio fiscal, crescimento da dívida pública e confiança do mercado financeiro

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reconheceu nesta quinta-feira (5) que o Brasil precisa manter a economia organizada para atrair investimentos nacionais e estrangeiros.

A declaração, feita durante um evento no Palácio do Planalto nesta quinta-feira (05), ganha significado especial diante das dificuldades fiscais enfrentadas pelo país, da manutenção dos juros elevados e da crescente desconfiança do mercado financeiro em relação aos rumos da política econômica.


Confira o que Lula disse na íntegra: 

“Se quisermos atrair capital, temos que ter seriedade. Ninguém vai colocar dinheiro aqui por causa dos belos cabelos do Lula e do Alckmin ou pelos olhos do Dario [Durigan, ministro da Fazenda]. As pessoas vão colocar dinheiro se perceberem que o investimento vai criar benefício para o objetivo deles e, ao mesmo tempo, gerar retorno financeiro. É por isso que nós temos que ter responsabilidade fiscal […] Temos que ter uma economia arrumada”, disse.


Ao defender a necessidade de uma economia arrumada, Lula apresentou justamente uma das principais condições cobradas pelos investidores: estabilidade, previsibilidade e responsabilidade na administração das contas públicas.

“Para a gente atrair tem que ter economia arrumada. Ninguém vai querer fazer investimento em economia totalmente desordenada. As pessoas querem saber se estamos falando sério”, afirmou o presidente.

Economia desarrumada

Embora não tenha declarado expressamente que a economia brasileira esteja desarrumada, a afirmação de Lula abre espaço para uma interpretação crítica sobre a situação atual do país.

Afinal, a necessidade de organização econômica surge como tema central justamente quando o governo enfrenta pressões para demonstrar capacidade de controlar despesas e assegurar a sustentabilidade das contas públicas.

A manifestação ocorre menos de duas semanas após a reeleição de Lula para um quarto mandato presidencial, em um cenário marcado pela valorização do dólar, pela deterioração das expectativas econômicas e pelas incertezas sobre a condução da política fiscal a partir de 2027.

Declaração ocorre em meio à pressão por ajuste fiscal

O reconhecimento da importância de uma economia organizada coincide com um momento de cobrança por medidas concretas de responsabilidade fiscal.

O crescimento das despesas federais, o avanço da dívida pública e as dificuldades para melhorar o resultado primário estão entre os principais fatores de preocupação dos agentes econômicos.

Na quarta-feira (4), o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu manter a taxa Selic em 13,75% ao ano, interrompendo o ciclo de cortes iniciado em março.

A decisão refletiu a cautela da autoridade monetária diante das perspectivas para a inflação e das incertezas econômicas, em um ambiente de pressão cambial após o resultado das eleições presidenciais.

Para o setor produtivo, juros elevados representam crédito mais caro, dificuldades para financiar investimentos e obstáculos à expansão das atividades econômicas.

Nesse contexto, a afirmação de Lula sobre a necessidade de organização econômica reforça a discussão sobre os efeitos da política fiscal na confiança dos investidores e nas condições de crescimento do país.

Governo discute como melhorar as contas públicas

Antes de participar da reunião sobre minerais estratégicos, Lula se reuniu com ministros e economistas para avaliar o cenário econômico e discutir propostas para o próximo mandato.

Após o encontro, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o governo pretende reforçar as regras fiscais existentes, buscando melhorar os resultados das contas públicas e garantir a continuidade das políticas sociais.

“Estamos necessariamente falando em reforçar as regras vigentes hoje, de modo que a gente garanta esse processo de inclusão social, de valorização das políticas públicas de maneira sustentável”, declarou o ministro.

Durigan, entretanto, informou que ainda não foram discutidas medidas específicas, incluindo possíveis alterações nos parâmetros do arcabouço fiscal.

Segundo ele, a reunião teve caráter de diagnóstico, com avaliação dos principais desafios e identificação de caminhos para a política econômica dos próximos anos.

O ministro assegurou que o governo pretende oferecer previsibilidade aos investidores e melhorar o resultado primário não apenas em 2026, mas também durante os quatro anos do novo mandato.

Potencial mineral depende de confiança e estabilidade

A declaração presidencial foi feita durante a primeira reunião do Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE), colegiado responsável por estabelecer diretrizes para exploração, beneficiamento e industrialização de recursos considerados essenciais ao desenvolvimento econômico e à segurança nacional.

O Brasil possui reservas minerais com potencial para ampliar sua participação nas cadeias internacionais de produção de baterias, equipamentos eletrônicos, tecnologias de energia limpa e outros segmentos industriais estratégicos.

Entretanto, transformar essas riquezas naturais em investimentos produtivos exige mais do que disponibilidade de matérias-primas.

Empresas nacionais e estrangeiras avaliam fatores como estabilidade macroeconômica, segurança jurídica, infraestrutura, custo do financiamento e previsibilidade das regras antes de comprometer recursos em projetos de longo prazo.

Foi justamente essa necessidade de confiança que Lula destacou ao afirmar que os investidores querem saber se o país está tratando seus compromissos econômicos com seriedade.

Desafio é transformar discurso em resultados

A declaração do presidente coloca em evidência uma questão que deverá acompanhar o início de seu próximo mandato: como conciliar a expansão das políticas públicas com a necessidade de controlar o endividamento e recuperar a confiança dos investidores?

A organização da economia depende de fatores que vão além das declarações presidenciais, incluindo decisões sobre gastos públicos, arrecadação, investimentos, produtividade e sustentabilidade fiscal.

O governo sustenta que é possível preservar as políticas sociais e fortalecer as regras fiscais simultaneamente. O mercado financeiro, por sua vez, aguarda medidas concretas que demonstrem como esses objetivos serão alcançados.

Ao afirmar que ninguém deseja investir em uma economia desordenada, Lula estabeleceu um parâmetro pelo qual sua própria política econômica poderá ser avaliada: a capacidade de oferecer estabilidade, responsabilidade fiscal e confiança para que o Brasil volte a atrair investimentos de forma consistente.

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