A evolução da silvicultura brasileira sempre esteve ligada à capacidade de selecionar árvores com características superiores e reproduzi-las em escala.
Agora, uma nova geração de ferramentas biotecnológicas começa a ampliar esse processo, combinando melhoramento genético tradicional, clonagem, seleção genômica e edição genética.
Para a indústria de celulose, o movimento pode ter impacto direto sobre um dos principais ativos da cadeia: a floresta.
No Brasil, o melhoramento genético do eucalipto acumula décadas de desenvolvimento e foi fundamental para elevar a produtividade dos plantios comerciais.
Em publicação de 2026, a Embrapa destaca que o melhoramento genético clássico continua sendo fundamental para a produtividade do eucalipto e que as novas ferramentas biotecnológicas dependem da variabilidade genética gerada pelos métodos tradicionais.
Isso significa que o futuro das florestas destinadas à produção de celulose provavelmente não será definido por uma única tecnologia, mas pela combinação de diferentes métodos.
Do melhoramento tradicional à seleção genômica
O melhoramento genético busca identificar e multiplicar indivíduos que apresentam características desejáveis. No eucalipto, esse processo envolve cruzamentos, avaliação de famílias e indivíduos, testes em diferentes ambientes e seleção dos materiais mais promissores.
A seleção genômica acrescenta uma nova camada ao processo ao utilizar informações distribuídas pelo genoma para estimar o potencial de uma árvore antes que todas as características de interesse possam ser observadas no campo.
Essa possibilidade é particularmente importante para espécies florestais, cujo ciclo de melhoramento é mais longo que o de culturas agrícolas. Quanto mais cedo for possível identificar materiais promissores, maior pode ser a velocidade dos programas de melhoramento.
Um estudo publicado em abril de 2026 na revista Scientific Reports avaliou o uso de dados de diferentes anos e ambientes para selecionar germoplasma de eucalipto mais tolerante à seca. A pesquisa analisou 232 famílias de Eucalyptus e seis clones comerciais em três locais do Brasil, com avaliações realizadas aos 18, 30 e 42 meses após o plantio.
Os pesquisadores identificaram famílias promissoras para cultivo sob condições de déficit hídrico e concluíram que a integração de dados de múltiplos anos e ambientes pode aumentar a precisão das estimativas genéticas e contribuir para programas de melhoramento voltados à tolerância à seca.
O resultado reforça uma tendência: quanto mais informações os programas de melhoramento conseguem reunir sobre genética, ambiente e desempenho das árvores, maior pode ser a precisão na escolha dos materiais.
Clonagem: a biotecnologia que já faz parte da floresta
Embora a edição genética seja uma das fronteiras mais recentes, a clonagem está longe de ser uma promessa futura.
O plantio de clones selecionados tornou-se uma das bases da eucaliptocultura brasileira. A estratégia permite reproduzir árvores com características conhecidas e utilizar materiais genéticos selecionados em escala comercial.
Segundo o IPEF, por meio do programa TECHS, os plantios clonais são hoje uma prática consolidada na eucaliptocultura, tanto em áreas tradicionais de produção quanto em novas fronteiras florestais.
O instituto também estudou, por meio do programa, a interação entre genótipo, ambiente e manejo e a resposta de diferentes clones aos estresses hídrico, térmico e biótico.
A relevância desse tipo de pesquisa aumenta à medida que diferentes regiões de cultivo apresentam condições ambientais distintas. Um clone selecionado em determinada área pode não apresentar o mesmo desempenho quando submetido a outro regime de temperatura, disponibilidade hídrica ou características de solo.
Por isso, a escolha do material genético passa a ser cada vez mais associada às características do ambiente em que a floresta será cultivada.
Resistência à seca, calor e às pragas
É justamente nesse ponto que a biotecnologia pode ganhar importância estratégica para a indústria de celulose.
O programa TECHS, do IPEF, avaliou como diferentes materiais genéticos de Eucalyptus respondem aos estresses hídrico e térmico em uma ampla variação de condições ambientais no Brasil e no Uruguai. A iniciativa também analisou a suscetibilidade dos clones a estresses bióticos, como pragas e doenças.
O desenvolvimento de materiais mais adaptados a diferentes condições pode reduzir os riscos associados à implantação de florestas em regiões sujeitas a condições climáticas adversas.
O cenário também é influenciado pelas mudanças climáticas. Segundo a FAO, alterações de temperatura e precipitação podem provocar estresse, perda de umidade e mudanças na dinâmica das pragas florestais, aumentando os riscos para a saúde das florestas.
O melhoramento genético também pode atuar sobre resistência a pragas e doenças. No Brasil, a engenharia genética já chegou a esse estágio.
Em 2023, a CTNBio aprovou a liberação comercial do eucalipto geneticamente modificado 1521K059, desenvolvido pela Suzano. Segundo o parecer técnico, o material possui os genes cry2Aa, cry1Ab e cry1Bb, que codificam proteínas derivadas da bactéria Bacillus thuringiensis e conferem resistência a insetos-praga da ordem Lepidoptera, incluindo a Thyrinteina arnobia, considerada uma das principais pragas do eucalipto no Brasil.
O caso mostra que a biotecnologia florestal já ultrapassou a fase exclusivamente experimental em determinadas aplicações.
Em fevereiro de 2026, a FuturaGene, divisão de biotecnologia da Suzano, anunciou uma aprovação regulatória para uma variedade de eucalipto geneticamente editado.
A tecnologia utilizada foi a CRISPR-Cas9, uma ferramenta que permite alterações precisas e direcionadas no genoma. Segundo a FuturaGene, a CTNBio confirmou que a variedade atende aos critérios de isenção previstos na Resolução Normativa nº 16 e, portanto, foi classificada como convencional no âmbito regulatório brasileiro.
A edição foi direcionada à composição da lignina da madeira. De acordo com a empresa, a alteração pode melhorar a qualidade da matéria-prima e contribuir para a redução do uso de insumos químicos e do consumo de energia durante o processamento da celulose.
O avanço é relevante porque desloca parte da discussão da produtividade da floresta para a integração entre floresta e fábrica.
Uma árvore geneticamente melhorada não precisa necessariamente apenas crescer mais rápido. Ela pode ser desenvolvida para entregar uma matéria-prima com características mais adequadas ao processo industrial, criando potenciais ganhos ao longo da cadeia.
Ainda assim, é importante separar aprovação regulatória de disseminação comercial. Após a aprovação, a FuturaGene informou que daria continuidade a testes de campo controlados em diferentes condições de cultivo no Brasil. A empresa informou que os testes seguirão os requisitos regulatórios de biossegurança.
O desafio climático
A adaptação às mudanças climáticas talvez seja uma das principais frentes para o desenvolvimento de novas ferramentas genéticas.
Temperaturas mais elevadas, alterações no regime de chuvas, períodos prolongados de seca e maior ocorrência de eventos extremos podem modificar as condições nas quais determinados materiais florestais apresentam seu melhor desempenho.
Segundo a FAO, as mudanças climáticas afetam as florestas por meio de alterações de temperatura, concentração de CO₂ e precipitação, além de influenciarem a disponibilidade de umidade e a dinâmica de pragas.
Nesse cenário, não basta buscar a árvore de maior produtividade média. A tendência é que os programas de melhoramento também procurem materiais capazes de manter desempenho em diferentes ambientes.
A pesquisa publicada em 2026 na Scientific Reports reforça essa direção ao mostrar que a integração de dados de múltiplos anos e ambientes pode melhorar a avaliação de valores genéticos e a seleção de famílias de eucalipto tolerantes à seca.
Regulação
O avanço das ferramentas genéticas aumenta a importância do ambiente regulatório. No Brasil, a CTNBio possui regras específicas para organismos geneticamente modificados e para determinadas técnicas inovadoras de melhoramento.
Um exemplo é a Resolução Normativa nº 16, que estabelece critérios para avaliação de produtos obtidos por técnicas inovadoras de melhoramento de precisão. No caso do eucalipto geneticamente editado da FuturaGene, a empresa informou que a CTNBio considerou que a variedade atendia aos critérios de isenção previstos na norma.
A regulamentação também contempla condições específicas para a realização de experimentos com eucaliptos geneticamente modificados. A Resolução Normativa nº 22/2019 da CTNBio estabelece requisitos para a liberação planejada desses materiais no meio ambiente.
A diferença entre organismos geneticamente modificados e materiais obtidos por determinadas técnicas de edição genética será cada vez mais relevante para o setor à medida que novas variedades avancem da pesquisa para os testes de campo e, eventualmente, para aplicações comerciais.
Biotecnologia e diversidade
Existe ainda um desafio ambiental que ultrapassa a discussão sobre organismos geneticamente modificados: a conservação da diversidade genética.
Uma floresta plantada é um sistema produtivo, mas também está inserida em uma paisagem que envolve solo, água, biodiversidade e diferentes ecossistemas.
A FAO destaca a importância dos recursos genéticos florestais para a adaptação e os processos evolutivos das árvores, além de seu potencial para aumentar a produtividade de florestas naturais e plantadas.
Isso significa que ganhos de produtividade precisam ser avaliados junto à capacidade de preservar recursos genéticos capazes de responder a desafios futuros.
No caso do eucalipto, a Embrapa ressalta a necessidade de preservar a variabilidade genética e, ao mesmo tempo, combinar métodos tradicionais de melhoramento com ferramentas biotecnológicas modernas para enfrentar desafios como mudanças climáticas, pragas e doenças.
Na prática, o desenvolvimento de novas variedades precisa caminhar paralelamente à conservação de materiais genéticos, à avaliação ambiental e à escolha adequada de clones para cada condição de cultivo.
Próxima etapa
A próxima etapa da biotecnologia florestal tende a ser menos marcada por uma única inovação e mais pela integração de tecnologias.
O melhoramento convencional pode gerar a variabilidade necessária; a seleção genômica pode acelerar a identificação dos melhores indivíduos; a clonagem pode multiplicar esses materiais; a edição genética pode permitir alterações mais precisas; e ferramentas de análise de dados podem ajudar a avaliar o desempenho das árvores em diferentes ambientes.
A própria indústria já trabalha nessa direção. A FuturaGene afirma que seu portfólio reúne modificação genética e edição gênica, com aplicações voltadas a produtividade, resiliência climática, resistência a pragas e doenças e qualidade da madeira.
O resultado esperado é uma floresta cada vez mais orientada por dados e por características específicas.
Para a indústria de celulose, isso abre uma possibilidade importante: desenvolver árvores não apenas para produzir mais madeira, mas para entregar uma matéria-prima mais adequada ao processo industrial, utilizar recursos de forma mais eficiente e apresentar maior capacidade de adaptação.
A pergunta, portanto, talvez não seja se a biotecnologia vai mudar o futuro das florestas de celulose. Ela já começou a mudar.


