Há mais de cinco séculos, o cultivo de cana-de-açucar segue praticamente a mesma lógica e é feito a partir de mudas — pedaços da própria cana.
Esse modelo, que atravessou gerações, pode estar prestes a mudar. Depois de 12 anos e R$ 1 bilhão investidos, uma tecnologia desenvolvida pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) aposta na produção de cana por sementes — uma inovação que promete transformar custos, produtividade e a velocidade de expansão dos canaviais.
Nesta quinta-feira (15), a empresa inaugurou a primeira unidade de produção de sementes de cana, em Piracicaba (SP).
Hoje, o plantio da cana exige grandes volumes de material e uma operação complexa. Para cultivar um hectare, são necessárias cerca de 16 toneladas de cana. Além do volume, há também o tempo. O sistema tradicional depende da multiplicação das mudas em viveiros, o que pode levar anos até que uma nova variedade chegue em larga escala ao campo.
“É um processo bastante complexo, pesado em maquinário, em pessoas e em planejamento”, afirma César Barros, CEO do CTC. “A gente vem há anos tentando simplificar esse modelo e aproximar a cana de culturas como os cereais.” Com a nova tecnologia, esse cenário muda de forma significativa. Em vez de toneladas de cana, seriam necessários apenas cerca de 400 quilos de sementes por hectare.
Como nasce a semente de cana
Apesar do nome, a chamada “semente de cana” não é uma semente convencional. Trata-se de uma solução biotecnológica desenvolvida a partir da própria planta.
O processo começa no laboratório, em um ambiente altamente controlado, na etapa conhecida como “in vitro”. Ali, pequenas partes da planta são cultivadas em meio nutritivo e multiplicadas em larga escala.
“Uma única planta pode gerar até mil novas plantas”, explica Barros. “Essa taxa de multiplicação é um dos grandes avanços do projeto.”
Depois dessa fase inicial, as mudas passam por uma etapa de adaptação fora do laboratório — o processo “ex vitro”. É nesse momento que elas ganham resistência para chegar ao campo.
A operação envolve não só biologia avançada, mas também engenharia, automação e uso de inteligência artificial para selecionar as plantas mais viáveis.
Acelerar a inovação no campo
Segundo Barros, um dos principais gargalos da produção atual é o tempo necessário para difundir novas variedades mais produtivas.
“Hoje, quando uma variedade é lançada, ela precisa passar por um longo processo de multiplicação até atingir escala comercial.” Com o sistema de sementes, essa lógica muda completamente.
“Se o produtor quiser plantar mil hectares de uma nova variedade, ele não precisa mais esperar a formação de viveiros”, diz o executivo. “Ele pode ir direto para o plantio. Isso acelera muito a adoção de inovação no campo.” Segundo o executivo, essa aceleração é fundamental para aumentar a competitividade do setor.
Produtividade pode dobrar
A tecnologia está inserida em um objetivo mais amplo do CTC e do setor sucroenergético: elevar significativamente a produtividade dos canaviais brasileiros. Atualmente, a média nacional gira em torno de 75 toneladas por hectare. A meta é chegar a aproximadamente 150 toneladas por hectare até o fim da próxima década.
– “A gente entende que acelerar a chegada de novas tecnologias ao campo é essencial para dobrar a produtividade”, afirma Barros.
Investimento bilionário
O projeto começou a ser desenvolvido em 2013 e já acumulou cerca de R$ 1 bilhão em investimentos em pesquisa. A construção da estrutura industrial também exigiu aportes relevantes. Uma das unidades dedicadas ao projeto recebeu aproximadamente R$ 100 milhões, com participação da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos).
Hoje, cerca de 80 profissionais trabalham diretamente na iniciativa, incluindo cientistas, engenheiros e especialistas em agronomia. “É um projeto que envolve biologia profunda, engenharia, automação e conhecimento agronômico. São várias áreas trabalhando juntas”, diz o CEO.
O desafio da escala
Apesar do avanço tecnológico, o principal desafio agora é transformar a inovação em escala industrial. A produção das sementes exige uma estrutura robusta, com fábricas, processos automatizados e uma cadeia logística adaptada.
“O nosso desafio agora é escalar. Garantir custo competitivo e performance no campo em diferentes condições”, afirma César Barros.
Segundo ele, a capacidade de produção será um dos fatores determinantes para a velocidade de adoção da tecnologia.
Parcerias com fabricantes de máquinas
A mudança no modelo de plantio também exige uma transformação na mecanização agrícola. Como o sistema deixa de usar mudas e passa a trabalhar com sementes, novas máquinas precisam ser desenvolvidas para viabilizar o plantio em larga escala.
Por isso, o CTC já trabalha em parceria com empresas do setor de máquinas agrícolas para criar equipamentos específicos para essa nova realidade. “É uma tecnologia que pode, no futuro, ser levada para outros países tropicais”, afirma César Barros.
Segundo ele, não há hoje no mundo uma solução equivalente desenvolvida de forma integrada, o que coloca o projeto brasileiro em posição de destaque global.


