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China, EUA e Europa adotam políticas que podem ameaçar exportações do agronegócio de MS

Estratégias para reduzir a dependência de soja e carnes importadas colocam em alerta a economia sul-mato-grossense, que tem no agronegócio e no comércio internacional dois de seus principais motores de crescimento.

A decisão de grandes potências econômicas de reduzir a dependência de produtos agropecuários importados pode representar uma ameaça ao crescimento de Mato Grosso do Sul nos próximos anos.

China, Estados Unidos e União Europeia estão adotando políticas de fortalecimento da produção doméstica de alimentos, movimento que poderá atingir diretamente as exportações de soja, carne bovina e outros produtos responsáveis por uma parcela importante da geração de riqueza, empregos e receitas no Estado.

Relatório do Eurásia Group mostra que a China quer reduzir dependência de soja e carnes importadas, enquanto EUA, União Europeia e Índia ampliam políticas de produção doméstica. O movimento combina segurança alimentar, protecionismo e disputa tecnológica.

O alerta ganha relevância diante da forte participação do agronegócio na economia sul-mato-grossense. Em 2025, o valor da produção agrícola estadual alcançou R$ 47,8 bilhões, crescimento de 33,6% em relação ao ano anterior.

A soja, principal cultura agrícola de Mato Grosso do Sul, respondeu por aproximadamente R$ 25,1 bilhões desse montante, com uma produção de 13,1 milhões de toneladas.

O risco está associado a uma nova tendência internacional denominada “nacionalismo das proteínas”, identificada no relatório o Eurásia Group divulgado em setembro de 2026. O conceito descreve a estratégia de governos que passaram a considerar a produção de proteínas vegetais e animais uma questão de segurança nacional, estimulando investimentos para diminuir a dependência de fornecedores estrangeiros.

Mais do que a criação de tarifas ou barreiras comerciais, a mudança representa uma possível transformação estrutural do mercado global de alimentos. Países tradicionalmente compradores de produtos agrícolas estão direcionando recursos públicos, tecnologia e incentivos industriais para ampliar sua capacidade de abastecimento.

China é o maior risco para o agro sul-mato-grossense

Entre as iniciativas internacionais, a estratégia chinesa é a que merece maior atenção dos produtores e exportadores de Mato Grosso do Sul. Principal destino de importantes produtos agropecuários brasileiros, a China pretende ampliar sua autossuficiência alimentar e diminuir gradualmente a necessidade de adquirir soja, rações e proteínas animais no exterior.

O 15º Plano Quinquenal chinês, correspondente ao período de 2026 a 2030, estabelece a segurança alimentar como uma das prioridades estratégicas do país. Para alcançar esse objetivo, Pequim pretende investir em sementes geneticamente modificadas, produtividade agrícola, novas tecnologias de alimentação animal e desenvolvimento de proteínas alternativas.

Segundo o Eurasia Group, a política poderá provocar uma redução das importações chinesas de soja e ingredientes para rações a partir de 2027, embora ainda não existam estimativas consolidadas sobre o impacto efetivo nos volumes adquiridos do Brasil.

Para Mato Grosso do Sul, o cenário exige atenção especial. Municípios como Maracaju, Ponta Porã e Sidrolândia estão entre os principais polos produtores de soja do Estado, com atividades econômicas diretamente relacionadas à comercialização da safra, ao transporte de grãos e à indústria de processamento.

Uma eventual diminuição da demanda chinesa poderá pressionar as cotações internacionais da oleaginosa e comprometer a rentabilidade dos produtores, especialmente em períodos de custos elevados de produção e financiamento agrícola.

Pecuária

O problema poderá atingir também a pecuária de corte, outro segmento estratégico da economia estadual. A China busca aumentar a eficiência de sua produção animal e reduzir a vulnerabilidade às importações. Caso consiga ampliar sua oferta doméstica, poderá diminuir o ritmo de crescimento das compras de carne bovina estrangeira.

Esse movimento teria reflexos potenciais sobre frigoríficos, pecuaristas, transportadoras e fornecedores de serviços que integram a cadeia produtiva da carne em Mato Grosso do Sul.

EUA querem fortalecer produção própria de carne bovina

Outra mudança relevante ocorre nos Estados Unidos, onde o governo procura recuperar a capacidade produtiva da pecuária nacional e reduzir a dependência de fornecedores internacionais.

De acordo com informações do Eurasia Group e do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o rebanho bovino norte-americano atingiu seu menor nível em aproximadamente 75 anos, situação que levou Washington a adotar medidas de estímulo à atividade.

Entre as iniciativas estão garantias de crédito aos produtores, ampliação do acesso a pastagens e mecanismos de apoio à produção doméstica.

Paralelamente, o governo norte-americano também precisou flexibilizar importações para conter os preços da carne ao consumidor. Em setembro de 2026, segundo o relatório, foram ampliadas para 300 mil toneladas as cotas de importação com isenção tarifária destinadas a determinados fornecedores, com benefícios para o Brasil.

A combinação dessas políticas demonstra a imprevisibilidade do mercado internacional. Embora a necessidade imediata de abastecimento possa favorecer exportadores brasileiros, a recuperação da produção norte-americana poderá reduzir oportunidades comerciais no médio e longo prazo.

Para a indústria frigorífica sul-mato-grossense, o desafio será acompanhar não apenas as condições de oferta e demanda, mas também as decisões políticas e comerciais adotadas pelos Estados Unidos.

União Europeia também pretende reduzir compras de soja

A União Europeia segue uma estratégia semelhante, especialmente em relação às proteínas vegetais utilizadas na fabricação de rações para animais.

Em julho de 2026, a Comissão Europeia apresentou medidas destinadas a fortalecer a autonomia do bloco na produção de proteínas, estimulando a diversificação agrícola, a pesquisa científica e o desenvolvimento de alternativas aos insumos importados.

O objetivo é diminuir a exposição dos produtores europeus às oscilações do mercado internacional e às tensões geopolíticas que podem comprometer o abastecimento.

A iniciativa representa outro fator de preocupação para o agronegócio brasileiro. Embora as limitações de terras e custos de produção dificultem uma substituição integral da soja importada, a ampliação da oferta europeia poderá reduzir gradualmente a participação de fornecedores externos.

Em Mato Grosso do Sul, os efeitos dependerão da intensidade dessas mudanças, da capacidade de acesso a novos mercados e da competitividade dos produtos estaduais.

Risco pode atingir toda a economia de MS

Os impactos de uma eventual retração da demanda internacional não ficariam restritos aos produtores rurais.

A economia de Mato Grosso do Sul possui uma extensa rede de atividades vinculadas ao agronegócio, envolvendo indústrias frigoríficas, armazenagem, transporte rodoviário, comércio de máquinas e equipamentos, fertilizantes, serviços financeiros e processamento de matérias-primas.

Uma redução persistente das exportações ou dos preços internacionais de soja e carne bovina poderá afetar o faturamento dessas empresas, comprometer novos investimentos e reduzir a circulação de recursos nos municípios.

O efeito também poderá alcançar a arrecadação estadual e municipal, embora sua intensidade dependa das regras tributárias aplicáveis, do comportamento da atividade econômica e da capacidade de compensação por outros setores.

A preocupação é particularmente relevante em um momento de expansão da agroindústria sul-mato-grossense, com investimentos em frigoríficos, produção de alimentos, logística e infraestrutura para ampliar a competitividade internacional.

Além disso, a estratégia das grandes potências envolve investimentos em tecnologias capazes de modificar a estrutura do mercado de proteínas. China, Dinamarca, Países Baixos, Coreia do Sul e Singapura estão entre os países que procuram desenvolver alternativas de produção, incluindo fermentação de precisão e proteínas cultivadas.

Embora essas tecnologias ainda enfrentem custos elevados e dificuldades para alcançar produção em grande escala, seu desenvolvimento poderá criar novos concorrentes para as cadeias tradicionais de alimentos.

Diversificação de mercados é saída para a economia de MS

O relatório do Eurasia Group não prevê o desaparecimento do comércio internacional de proteínas. Pelo contrário, a expectativa é de continuidade do crescimento da demanda mundial, impulsionada pela expansão populacional, pelas mudanças nos hábitos alimentares e pela valorização de dietas com maior consumo de proteínas.

Entretanto, o aumento da demanda global não significa necessariamente expansão proporcional das exportações brasileiras. Parte desse consumo poderá ser atendida por produtores domésticos, beneficiados por subsídios, incentivos fiscais e investimentos tecnológicos.

Para Mato Grosso do Sul, o novo cenário reforça a importância de diversificar os destinos comerciais, ampliar a industrialização da produção agropecuária e aumentar a participação de produtos com maior valor agregado nas exportações.

Nesse contexto, projetos de infraestrutura logística, incluindo a Rota Bioceânica, poderão ganhar importância estratégica ao criar alternativas de transporte e facilitar o acesso a mercados internacionais, especialmente na região do Pacífico.

A ampliação da capacidade de processamento da soja e da carne bovina também poderá contribuir para reduzir a dependência da exportação de matérias-primas e fortalecer a geração de empregos industriais dentro do Estado.

O principal alerta é que a competitividade conquistada pelo agronegócio sul-mato-grossense não garante, por si só, a manutenção dos mercados internacionais. O avanço das políticas de autossuficiência alimentar poderá modificar gradualmente as relações comerciais construídas ao longo de décadas.

Se China, Estados Unidos e União Europeia conseguirem reduzir sua dependência de importações, Mato Grosso do Sul terá de enfrentar um ambiente internacional mais competitivo, com maior intervenção dos governos e crescente disputa por compradores.

O desafio para o Estado será transformar sua capacidade de produção agropecuária em uma estratégia de longo prazo, capaz de preservar mercados, conquistar novos destinos e proteger uma economia que depende fortemente do desempenho do agronegócio.

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