Além das pressões fiscais, Lula terá pela frente um Congresso Nacional com perfil mais conservador, o que poderá dificultar a aprovação de reformas consideradas essenciais para recuperar a confiança dos investidores e garantir a sustentabilidade das finanças públicas.
A avaliação é de William Foster, vice-presidente sênior da agência internacional de classificação de risco Moody’s Ratings. Segundo ele, o principal obstáculo do governo não será apenas formular medidas econômicas capazes de conter o endividamento, mas construir uma base política suficientemente ampla para transformá-las em legislação.
“O maior desafio que vejo neste momento não é apenas elaborar boas políticas e conquistar a credibilidade do mercado, mas conseguir aprovar a legislação no Congresso para dar sustentação a essas políticas”, afirmou Foster.
O executivo destacou que a composição do Legislativo, resultante das eleições de outubro, ampliou a presença de forças políticas de direita, tornando a negociação com parlamentares ainda mais complexa. Nesse ambiente, propostas de ajuste fiscal, revisão de despesas obrigatórias e alterações constitucionais dependerão de acordos com partidos de centro e setores da oposição.
A dificuldade será particularmente significativa para propostas de emenda à Constituição (PECs), que exigem o apoio de três quintos dos integrantes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, em dois turnos de votação em cada Casa.
Dívida pública próxima de 83% do PIB amplia pressão sobre o governo
O crescimento do endividamento brasileiro representa uma das principais preocupações da Moody’s. A dívida bruta do governo alcançou 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), aproximando-se de R$ 11,1 trilhões, em uma trajetória que restringe a capacidade de investimento do setor público e aumenta a necessidade de financiamento do Tesouro Nacional.
Segundo Foster, a relação entre dívida e PIB avançou de aproximadamente 72% para 83% nos últimos anos. Sem mudanças estruturais na política fiscal, a agência projeta que o indicador poderá alcançar cerca de 87% do PIB e permanecer em trajetória de crescimento.
O cenário coloca o governo Lula diante de uma escolha politicamente delicada: conter a expansão das despesas públicas para estabilizar o endividamento, preservando, ao mesmo tempo, programas sociais e investimentos considerados prioritários pela administração federal.
Na avaliação da Moody’s, uma das medidas necessárias será revisar o crescimento das despesas obrigatórias, especialmente aquelas vinculadas a mecanismos automáticos de reajuste, como inflação e salário mínimo.
“Para que a dívida comece a cair ou se estabilize, é necessário observar mudanças na política fiscal”, ressaltou Foster.
O desafio, entretanto, vai além dos indicadores econômicos. Alterações nas regras de despesas previdenciárias, benefícios sociais e outros gastos obrigatórios costumam enfrentar resistências políticas e sociais, exigindo capacidade de negociação e disposição para construir consensos.
Juros elevados comprometem orçamento e limitam crescimento econômico
Outro fator que deverá pressionar a política econômica do novo governo é o elevado custo de financiamento da dívida pública. Segundo a Moody’s, as despesas brasileiras com juros representam aproximadamente 20% das receitas públicas e ultrapassam 8% do PIB, patamar considerado elevado na comparação internacional.
A situação é agravada pela estrutura do endividamento. Mais de 40% da dívida governamental está vinculada a taxas flutuantes relacionadas à Selic, o que torna as contas públicas especialmente sensíveis à manutenção dos juros em níveis elevados.
Na prática, quanto maior a taxa básica de juros, maior tende a ser o custo de financiamento de parte da dívida, ampliando as despesas financeiras do governo e dificultando a redução do déficit nominal.
Esse mecanismo também produz consequências sobre a economia real. Juros elevados encarecem o crédito para empresas e consumidores, reduzem a capacidade de investimento do setor produtivo e dificultam a recuperação do consumo das famílias.
Foster avalia que o equilíbrio das contas públicas poderá contribuir para a desaceleração da inflação e abrir espaço para uma redução gradual da Selic. Entretanto, advertiu que a expansão persistente dos gastos governamentais pode dificultar a atuação do Banco Central.
O executivo também mencionou o risco de dominância fiscal, situação em que o desequilíbrio das contas públicas passa a comprometer a eficácia da política monetária, tornando mais difícil controlar a inflação e reduzir os juros.
Novo Congresso será decisivo para aprovação das reformas
O resultado das eleições legislativas de 2026 acrescenta uma dimensão política ao desafio econômico do governo Lula. Com maior presença de parlamentares identificados com a direita e o conservadorismo, o Executivo precisará ampliar o diálogo com forças políticas que não integram sua base tradicional de sustentação.
A formação de maiorias para aprovar medidas fiscais poderá exigir concessões, negociações sobre prioridades orçamentárias e acordos envolvendo diferentes interesses partidários e regionais.
Nesse contexto, a capacidade de articulação do Palácio do Planalto será determinante para evitar a paralisação de propostas econômicas consideradas estratégicas.
Para a Moody’s, não basta anunciar metas de equilíbrio fiscal ou apresentar projetos de contenção de despesas. Será necessário demonstrar capacidade efetiva de implementar mudanças permanentes que reduzam os déficits e alterem a trajetória de crescimento da dívida.
Foster considera que o atual arcabouço fiscal brasileiro apresenta metas de resultado primário razoáveis, mas não enfrenta integralmente o peso dos juros sobre o endividamento público.
“Uma política fiscal crível precisa levar em conta o custo dos empréstimos”, afirmou.
A agência defende maior previsibilidade na condução da política econômica, incluindo metas de longo prazo para a relação entre dívida pública e PIB.
Credibilidade internacional dependerá de resultados concretos
A Moody’s mantém a classificação de crédito soberano do Brasil em Ba1, um nível abaixo do chamado grau de investimento, com perspectiva estável.
A avaliação indica que o país ainda precisa demonstrar maior consistência fiscal para alcançar uma classificação que represente menor percepção de risco para investidores internacionais.
Segundo Foster, uma melhora duradoura das contas públicas, acompanhada de crescimento econômico mais robusto, poderá abrir caminho para uma revisão positiva da nota brasileira.
Por outro lado, a manutenção de déficits elevados e o avanço persistente da dívida poderão comprometer a credibilidade econômica, pressionar os juros e reduzir a capacidade de crescimento do país.
O executivo reconhece que reformas envolvendo previdência, saúde e despesas sociais são politicamente sensíveis, especialmente em sociedades marcadas pela polarização.
“É necessário um reequilíbrio entre esses custos e os objetivos fiscais. Isso exige consenso político, algo que está muito difícil de alcançar no Brasil e em muitos países ao redor do mundo”, observou.
Desafio de Lula será conciliar governabilidade e responsabilidade fiscal
O cenário apresentado pela Moody’s evidencia que o novo mandato de Lula será marcado por uma combinação de obstáculos econômicos e políticos. A necessidade de controlar o endividamento, recuperar a confiança dos investidores e criar condições para a redução dos juros dependerá diretamente da capacidade do governo de negociar com um Congresso menos alinhado às suas propostas.
A ausência de uma maioria parlamentar estável poderá transformar cada votação de interesse econômico em uma disputa política, com riscos de atrasos, alterações ou rejeição de medidas consideradas necessárias ao ajuste das contas públicas.
Ao mesmo tempo, o presidente terá de administrar pressões por investimentos, manutenção de programas sociais e estímulos ao crescimento econômico, em um ambiente de restrições orçamentárias.
Mais do que apresentar uma agenda econômica para os próximos quatro anos, Lula precisará demonstrar capacidade de construir acordos políticos que garantam sua execução.
O principal teste do novo governo será transformar compromissos fiscais em resultados concretos, evitando que o crescimento da dívida pública, o custo elevado dos juros e os impasses no Congresso comprometam a estabilidade econômica do Brasil a partir de 2027.


