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Copom mantém Selic em 13,75% e gastos elevados do Governo ampliam preocupação com a economia do país

Interrupção do ciclo de queda dos juros expõe desconfiança do mercado em relação à política fiscal, ao crescimento da dívida pública e à capacidade do governo de controlar as despesas em 2027.

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu, por unanimidade, manter a taxa básica de juros, a Selic, em 13,75% ao ano, nesta quarta-feira (4).

A decisão interrompe uma sequência de cinco reduções consecutivas iniciada em março e evidencia o cenário de incertezas que passou a dominar as expectativas econômicas após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Mais do que uma pausa no processo de flexibilização monetária, a decisão representa um sinal de alerta sobre os riscos associados à continuidade de uma política fiscal expansionista, marcada pelo elevado volume de despesas públicas, pela dificuldade de contenção dos gastos obrigatórios e pelo crescimento do endividamento federal.

A manutenção dos juros já era amplamente esperada pelos agentes financeiros, especialmente diante da deterioração das expectativas para a inflação, o câmbio e as contas públicas.

O principal questionamento está relacionado à capacidade do governo de equilibrar suas despesas sem recorrer a novos aumentos de impostos ou ampliar ainda mais a dívida pública.

Desde o resultado do segundo turno das eleições presidenciais, realizado em 25 de outubro, o dólar acumulou valorização de 9,46%, passando de R$ 4,98, na véspera da votação, para R$ 5,45 no fechamento desta quarta-feira.

O movimento reflete uma combinação de fatores, entre eles a maior percepção de risco fiscal e as incertezas sobre os rumos da política econômica.

Gastos públicos dificultam redução dos juros

Um dos principais obstáculos para a retomada da queda da Selic está na trajetória das despesas do Governo Federal.

A expansão dos compromissos orçamentários, sem uma contrapartida suficientemente consistente de redução de gastos ou crescimento sustentável das receitas, compromete a previsibilidade fiscal e aumenta a necessidade de financiamento do setor público.

O problema ganha dimensão ainda maior diante do avanço da dívida pública brasileira, que já ultrapassa R$ 11 trilhões, aproximando-se de 83% do Produto Interno Bruto (PIB), conforme indicadores fiscais divulgados em outubro.

Com uma dívida dessa magnitude, a manutenção de juros elevados representa um custo expressivo para o país. As despesas com juros nominais acumuladas em 12 meses já superaram R$ 1 trilhão, evidenciando o peso do endividamento sobre a economia brasileira.

Embora parte desse custo esteja relacionada a fatores monetários e financeiros que não dependem exclusivamente das decisões do Executivo, a ausência de uma trajetória fiscal considerada sustentável contribui para elevar os prêmios de risco exigidos pelos investidores.

Forma-se, assim, um círculo de dificuldades: a expansão fiscal pode aumentar as expectativas de inflação, o Banco Central encontra menos espaço para reduzir os juros e o custo de financiamento da dívida permanece elevado.

Política de expansão de despesas cobra seu preço

A estratégia econômica do Governo Lula tem privilegiado a ampliação de programas sociais, investimentos públicos e outras despesas consideradas prioritárias pela administração federal.

Embora essas iniciativas possam produzir efeitos positivos sobre a atividade econômica e a renda da população, sua sustentabilidade depende da existência de fontes permanentes de financiamento.

A crítica central à condução fiscal do governo está justamente na dificuldade de compatibilizar essas prioridades com a necessidade de estabilizar a dívida pública.

A insistência em ampliar despesas sem promover uma revisão estrutural do orçamento pode comprometer a confiança dos investidores, pressionar o câmbio e dificultar o controle da inflação.

Outro ponto de preocupação é a estratégia de buscar o equilíbrio das contas predominantemente pelo aumento da arrecadação. Para setores do mercado, a elevação da carga tributária, desacompanhada de medidas efetivas de racionalização das despesas, pode reduzir a competitividade das empresas e limitar o crescimento econômico.

Segundo analistas do mercado, o desafio não está apenas em arrecadar mais, mas em estabelecer prioridades, melhorar a eficiência do gasto público e impedir que o crescimento das obrigações federais supere continuamente a capacidade de financiamento do Estado.

Dólar mais caro e juros elevados atingem empresas e famílias

Os efeitos da deterioração das expectativas econômicas não ficam restritos ao mercado financeiro. A valorização do dólar tende a encarecer produtos importados, matérias-primas, equipamentos industriais e componentes utilizados em diferentes cadeias produtivas.

No agronegócio, por exemplo, o câmbio mais elevado pode favorecer receitas de exportadores, mas também aumenta o custo de fertilizantes, defensivos, máquinas e outros insumos adquiridos no mercado internacional.

Para as famílias, a permanência da Selic em 13,75% dificulta o barateamento do crédito, mantendo elevados os custos de financiamentos, empréstimos pessoais e capital de giro.

O cenário se torna especialmente preocupante diante do elevado endividamento dos brasileiros. Levantamentos recentes apontam que mais de 80% das famílias possuem algum tipo de dívida, enquanto uma parcela expressiva enfrenta dificuldades para manter os pagamentos em dia.

Com juros altos, o consumo perde força, empresas adiam investimentos e a geração de empregos pode ser prejudicada.

Perspectivas para 2027 aumentam pressão sobre o governo

A decisão do Copom ocorre em um momento particularmente delicado para a equipe econômica, que terá de apresentar sinais concretos sobre a condução das contas públicas no próximo mandato presidencial.

As primeiras revisões de expectativas para 2027 apontam riscos de crescimento econômico mais fraco e inflação mais elevada, combinação que pode limitar ainda mais a capacidade de recuperação da atividade produtiva.

O governo também enfrentará dificuldades políticas para aprovar medidas fiscais em um Congresso Nacional com maior presença de parlamentares de centro e direita, muitos deles críticos à expansão dos gastos públicos e à criação de novos tributos.

Nesse ambiente, a construção de uma agenda econômica capaz de recuperar a credibilidade fiscal dependerá de negociações políticas e de decisões que ultrapassem o discurso de ampliação da arrecadação.

A definição de metas realistas, o controle das despesas obrigatórias e a apresentação de medidas consistentes para estabilizar o endividamento serão fundamentais para reduzir as incertezas.

Conta da expansão fiscal pode comprometer crescimento

A interrupção do ciclo de cortes da Selic revela uma contradição importante da política econômica brasileira: enquanto o governo busca estimular o crescimento por meio da expansão dos gastos, a persistência dos riscos fiscais pode exigir a manutenção de uma política monetária restritiva.

Na prática, parte dos estímulos promovidos pelo setor público pode ser neutralizada pelo encarecimento do crédito e pela redução dos investimentos privados.

O Banco Central, cuja principal responsabilidade é assegurar a estabilidade dos preços, precisa considerar não apenas a inflação corrente, mas também as expectativas futuras e os riscos associados ao comportamento das contas públicas.

A decisão desta quarta-feira, portanto, reforça a percepção de que a retomada consistente da queda dos juros dependerá não apenas dos indicadores de inflação, mas também da capacidade do Governo Lula de demonstrar compromisso com o equilíbrio fiscal.

Sem uma mudança convincente na trajetória das despesas e da dívida pública, o país corre o risco de ingressar em 2027 com crescimento mais baixo, inflação pressionada, crédito caro e espaço cada vez menor para investimentos.

A manutenção da Selic em 13,75% indica que a política de expansão dos gastos públicos tem limites, e a ausência de disciplina fiscal pode impor custos elevados não apenas ao governo, mas principalmente às empresas, aos trabalhadores e às famílias brasileiras.

Veja a íntegra do comunicado do Copom:

​O ambiente externo tornou-se mais adverso em função do prolongamento dos conflitos armados no Oriente Médio, com impactos altistas sobre o preço do petróleo e derivados, e da política monetária mais restritiva nas economias avançadas. Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities.

Em relação ao cenário doméstico, o conjunto dos indicadores divulgados desde a última reunião aponta para uma moderação mais acentuada da atividade econômica, principalmente em setores mais cíclicos. O mercado de trabalho permanece resiliente, porém apresentando sinais de desaquecimento na margem. Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e a média das medidas subjacentes aceleraram, situando-se acima do limite superior do intervalo de tolerância da meta.

As expectativas de inflação para 2026 e 2027 apuradas pela pesquisa Focus distanciaram-se adicionalmente em relação à meta desde a última reunião, situando-se em 5,2% e 4,8%, respectivamente. A projeção de inflação do Copom para o segundo trimestre de 2028, atual horizonte relevante de política monetária, elevou-se para 3,5% no cenário de referência (Tabela 1), com a incorporação dos choques de oferta materializados desde a última reunião. O Copom relembra que essa projeção utiliza a trajetória da Selic extraída da Focus.

Os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, permanecem mais elevados que o usual, com assimetria altista. Entre os riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação, destacam-se (i) uma desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado, com horizontes mais longos incorporando impactos potenciais de segunda ordem de choques de oferta, relacionados ao petróleo e seus derivados, e a efeitos climáticos sobre a produtividade agrícola e custos de energia; (ii) uma maior resiliência na inflação de serviços do que a projetada em função de um hiato do produto positivo; (iii) uma conjunção de políticas econômicas externa e interna que tenham impacto inflacionário maior que o esperado, por exemplo, por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada; e (iv) estímulos à demanda agregada, em particular ao componente de consumo, que tenham como resultado o crescimento da atividade econômica acima do produto potencial, enfraquecendo parte dos canais usuais de transmissão da política monetária.

Entre os riscos de baixa, ressaltam-se

(i) uma eventual desaceleração da atividade econômica doméstica mais acentuada do que a projetada, tendo impactos sobre o cenário de inflação;

(ii) uma desaceleração global mais pronunciada decorrente dos choques de comércio e do petróleo, e de condições financeiras mais restritivas, em um cenário de maior incerteza;

e (iii) uma redução nos preços das commodities com efeitos desinflacionários.

O Comitê segue acompanhando como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros, reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza.

Os indicadores correntes de atividade mantêm-se consistentes com uma trajetória de desaceleração no acumulado de 2026. O Comitê monitora com atenção a desancoragem das expectativas de inflação para prazos mais longos na medida em que esta contribui para a determinação dos preços e aumenta o custo de desinflação.

O Copom decidiu manter a taxa Selic em 13,75% a.a., e entende que essa decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante. Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego.

O contexto atual, caracterizado por taxa Selic substancialmente contracionista, aumento significativo das incertezas em torno do cenário base, expectativas de inflação mais elevadas, e desaceleração da atividade econômica doméstica mais acentuada, apresenta um cenário desafiador para a política monetária, demandando serenidade e cautela na sua condução.

O Comitê seguirá acompanhando a evolução do cenário, para manter a restrição adequada de forma a assegurar a convergência da inflação à meta.

Votaram por essa decisão os seguintes membros do Comitê: Gabriel Muricca Galípolo (presidente), Ailton de Aquino Santos, Gilneu Francisco Astolfi Vivan, Izabela Moreira Correa, Nilton José Schneider David, Paulo Picchetti, e Rodrigo Alves Teixeira.

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