Pedro Jordão ainda está no 3º ano do Ensino Médio, mas já acumula uma experiência que muitos jovens só começam a construir depois de deixar a escola. Estudante da Escola Estadual João Magiano Pinto, em Três Lagoas, ele divide a rotina entre os estudos e o trabalho na Adar Tecidos, onde está há um ano e sete meses.
A oportunidade surgiu dentro da própria escola, quando Pedro conheceu o Programa de Aprendizagem Profissional (PAP). O que inicialmente era uma apresentação sobre possibilidades de ingresso no mercado de trabalho acabou abrindo uma nova etapa de sua vida.
“Tudo começou na minha escola, onde o programa foi apresentado aos estudantes. Tive a oportunidade de conhecer melhor o PAP, entender como ele funciona e conhecer os benefícios que ele oferece aos jovens, principalmente a possibilidade de ingressar no mercado de trabalho enquanto continuamos estudando”, conta.
A possibilidade de conciliar emprego e formação chamou sua atenção por uma razão que faz parte da realidade de muitos estudantes: a necessidade de trabalhar pode acabar afastando jovens da sala de aula.
“Tem muitos estudantes que abandonam a escola para poder trabalhar. Já o PAP demonstra que você pode, sim, estudar e também trabalhar. Ele ajuda justamente nessa questão e oferece essa oportunidade para os estudantes.”
Hoje, além do Ensino Médio, Pedro cursa Administração na própria escola. No trabalho, diz ter aprendido a lidar com responsabilidades, pessoas e situações que antes conhecia apenas em teoria.
“Comecei uma nova fase da minha vida. No trabalho aprendi muitas coisas, adquiri responsabilidades, conheci novas pessoas e tive a oportunidade de aprender com cada uma delas. Aos poucos fui crescendo profissionalmente e também como pessoa.”
A experiência de Pedro ajuda a traduzir uma política que ganhou escala na rede pública estadual. Mato Grosso do Sul chegou a 2026 com mais de 45 mil estudantes matriculados em modalidades de educação profissional, numa estratégia que procura aproximar a formação escolar das transformações econômicas e das demandas por trabalhadores qualificados em diferentes regiões do Estado.
Na gestão do governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, a proposta é permitir que o estudante deixe o ensino médio não apenas com o diploma, mas também com competências capazes de ampliar suas possibilidades de ingresso no mercado e de continuidade dos estudos.
“O objetivo não é preparar o jovem apenas para a primeira vaga, mas aumentar suas possibilidades de escolha. Com formação adequada, ele pode disputar empregos mais qualificados, avançar nos estudos e construir uma trajetória capaz de produzir renda melhor”, afirma Riedel.
Trabalho sem abandonar a escola
Para jovens de famílias trabalhadoras, a escolha de uma profissão nem sempre depende apenas de vocação. Entram nessa equação o custo da formação, a existência de cursos no município, a distância até uma instituição de ensino e, muitas vezes, a necessidade de contribuir com a renda familiar.
Quando a educação profissional chega à escola pública, parte dessas barreiras diminui. Os estudantes podem ter contato com áreas como administração, informática, logística, agronegócio, tecnologia e atividades industriais sem a necessidade de pagar separadamente por uma formação inicial.
No caso de Pedro, o primeiro emprego não interrompeu os estudos. Ao contrário, passou a fazer parte deles.
“Essa oportunidade abriu meus olhos. Mostrou que nós podemos estudar, trabalhar, aprender e começar a conhecer o nosso futuro desde cedo”, afirma.
Embora já esteja inserido no mercado, o adolescente não pretende encerrar sua trajetória profissional na área em que começou. Seu objetivo é cursar Medicina e, posteriormente, especializar-se em Geriatria.
A experiência mostra uma das funções que a formação profissional pode desempenhar: a primeira oportunidade não precisa determinar toda a carreira. Pode servir como ponto de partida para que o estudante conheça o mundo do trabalho, adquira autonomia e passe a enxergar com maior clareza outras possibilidades.
Formação precisa acompanhar cada região
A expansão da educação profissional ocorre num Estado em que indústria, construção civil, serviços, logística e agronegócio apresentam necessidades distintas de trabalhadores.
Por isso, a oferta de cursos busca considerar também as características econômicas de cada município.
O Projeto Primeiro Passo, desenvolvido pela Secretaria de Estado de Educação, começou em 2025 a promover encontros regionais para identificar quais formações poderiam responder melhor às necessidades dos estudantes, trabalhadores e setores produtivos. Entre os municípios que receberam as agendas estão Nova Alvorada do Sul e Ribas do Rio Pardo.
A estrutura física da rede também passou por expansão. Em 2026, três novas escolas estaduais foram abertas em Campo Grande, Ribas do Rio Pardo e Ponta Porã. Nas duas últimas cidades, as unidades oferecem educação profissional, aproximando a formação escolar das transformações econômicas locais.
Segundo o economista Thiago Segóvia, identificar antecipadamente quais profissionais serão necessários ajuda a direcionar a oferta de qualificação.
“As demandas são identificadas pela análise das vagas ofertadas, dos dados de contratação, dos investimentos previstos e das consultas às empresas. Qualificar a população local amplia o acesso às oportunidades e favorece empregos mais estáveis e com melhores rendimentos.”
Essa aproximação, entretanto, não significa transformar a escola apenas em fornecedora imediata de mão de obra. Mercados mudam, novas tecnologias aparecem e algumas ocupações desaparecem ou se transformam.
Por isso, além da formação técnica, a preparação dos jovens envolve conhecimentos que permitam adaptação, domínio de tecnologia, leitura, raciocínio e autonomia.
Quase 20 mil novos empregos em um ano
A conexão entre educação e trabalho ganha importância diante da expansão do mercado formal. Mato Grosso do Sul encerrou 2025 com saldo positivo de 19.756 empregos com carteira assinada.
A construção civil respondeu pelo maior número de novas vagas, com 5.873 postos, seguida pelos serviços, com 4.835, pela indústria, com 4.536, pelo comércio, com 3.258, e pela agropecuária, com 1.256.
O crescimento abre oportunidades, mas também impõe uma disputa pela qualificação. Parte das vagas exige conhecimentos específicos, certificações, habilitações ou algum nível de experiência.
Esse é um ponto particularmente importante em municípios que recebem grandes investimentos. Quando a população local não possui a formação exigida, existe o risco de que parte das vagas mais qualificadas seja ocupada por trabalhadores vindos de outras regiões.
Para Riedel, preparar os moradores do Estado para participar desse processo é uma das condições para transformar expansão econômica em desenvolvimento social.
O desafio, porém, vai além de conseguir o primeiro emprego. Uma vaga pode atender a uma necessidade imediata sem necessariamente garantir estabilidade, renda suficiente ou perspectivas de progressão profissional.
É nesse espaço entre a existência da oportunidade e a capacidade de alcançá-la que a educação profissional procura atuar.
Curso técnico como início, não como destino
Outra frente da política estadual busca criar continuidade entre a educação profissional oferecida no ensino médio e a formação superior.
Em 2025, o Governo do Estado instituiu o Programa de Verticalização da Educação Profissional Técnica e Superior, o ProVert. A iniciativa permite que conhecimentos cursados durante a formação técnica possam ser aproveitados posteriormente em cursos superiores de tecnologia.
Em março de 2026, a Secretaria de Estado de Educação abriu o credenciamento de instituições de ensino superior interessadas em participar do programa.
A intenção é diminuir repetições de conteúdos e facilitar uma trajetória contínua entre ensino técnico, graduação tecnológica e mercado de trabalho.
“O curso técnico pode representar o primeiro degrau de um percurso com novas especializações, ingresso mais rápido no trabalho e maior possibilidade de crescimento profissional”, afirma Riedel.
A lógica também aparece na trajetória de Pedro. O curso de Administração e o trabalho abriram sua primeira porta profissional, mas seu projeto de futuro segue em outra direção: Medicina.
Expansão agora precisa ser medida pelos resultados
As mais de 45 mil matrículas mostram a dimensão alcançada pela educação profissional no Estado, mas o número reúne cursos técnicos, itinerários formativos e outras qualificações.
O avanço da política, portanto, também exige acompanhamento dos resultados depois que o estudante passa por essas formações.
Indicadores como conclusão e certificação dos cursos, acesso a estágio, ingresso no mercado formal, permanência no emprego, renda e continuidade dos estudos podem mostrar se a expansão das matrículas está efetivamente se convertendo em oportunidades.
Abrir uma turma é uma etapa. O impacto aparece quando o estudante consegue concluir a formação e usar o conhecimento adquirido para ampliar suas possibilidades de vida.
“De um lado, o Estado atrai investimentos e amplia sua estrutura produtiva. De outro, prepara seus estudantes para que as novas vagas não permaneçam distantes de quem nasceu e estudou em Mato Grosso do Sul”, pontua Riedel.
Nenhum curso garante automaticamente uma vaga, assim como o primeiro emprego não resolve sozinho as desigualdades enfrentadas pelos jovens. Mas a ausência de formação tende a tornar mais estreito o caminho de quem depende exclusivamente da escola pública para construir oportunidades.
Para Pedro, esse caminho começou justamente dentro da sala de aula. Foi ali que ele conheceu o programa que o levou ao primeiro emprego. Hoje, entre o trabalho na empresa, o curso de Administração e o último ano do ensino médio, o jovem já olha além daquela primeira oportunidade.
Quer estudar Medicina, tornar-se geriatra e continuar avançando.
O primeiro emprego não definiu seu futuro. Apenas mostrou que ele poderia começar a construí-lo.


