A nova tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, publicada na última quarta-feira, 15, deve agravar o cenário das exportações da indústria nacional, que já vinha registrando retração nas vendas ao mercado americano. A avaliação do setor é de que a medida terá impactos significativos sobre segmentos que anteriormente estavam isentos da tributação.
No setor de base florestal, a principal preocupação recai sobre a celulose solúvel, que passa a ser tributada pela nova alíquota. A Bracell, uma das maiores exportadoras desse produto, está entre as empresas diretamente afetadas pela medida.
Além da celulose solúvel, também serão impactados produtos como papéis, painéis de madeira, MDF, MDP e pisos laminados, conforme informou a Indústria Brasileira de Árvores (Ibá). Em contrapartida, as celuloses de fibra curta, fibra longa e do tipo fluff permaneceram incluídas na lista de exceções e seguem isentas da nova tarifa.
Segundo uma fonte do setor, que falou sob condição de anonimato, os produtos que já estavam fora da lista de isenções enfrentavam dificuldades para competir no mercado americano, e a nova tributação poderá inviabilizar definitivamente os embarques, especialmente de papel.
Dados da Ibá mostram que, no primeiro semestre deste ano, as exportações brasileiras para os Estados Unidos já registravam forte retração em diferentes segmentos. As vendas de papel caíram 48,5% em volume, enquanto a madeira serrada recuou 36,6% e a madeira compensada apresentou queda de 25,3%.
A Klabin também vinha sentindo os efeitos da redução da demanda. No primeiro trimestre deste ano, o segmento de sacos industriais de papel foi o mais afetado, contribuindo para uma queda de 39% nas vendas desse produto. A companhia também deverá sofrer impactos sobre o papel kraftliner produzido a partir de eucalipto.
Procuradas, as empresas não comentaram o assunto. A Ibá informou apenas que acompanha os desdobramentos da medida.
Máquinas e Equipamentos
O setor de máquinas está entre os mais preocupados com a decisão americana. Atualmente, os Estados Unidos representam mais de 20% das exportações da indústria brasileira de máquinas, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq).
Embora o governo americano tenha mantido exceções para segmentos como aeronaves civis e semicondutores, ficaram de fora das isenções máquinas agrícolas e industriais, equipamentos elétricos e diversos produtos manufaturados, aumentando as incertezas para o setor, destacou Patrícia Gomes, diretora-executiva de mercado externo da entidade.
Na indústria eletroeletrônica, transformadores, motores, geradores e componentes para equipamentos industriais estão entre os produtos mais expostos, segundo a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee).
A Hitachi Energy informou que equipamentos de alta tensão, cabos, baterias e equipamentos para geração de energia exportados aos Estados Unidos serão afetados. O presidente da companhia no Brasil, Glauco Freitas, ressaltou, porém, que os contratos já firmados contam com proteção contra novas taxações.
O executivo acrescentou que a elevada demanda americana pode reduzir os impactos sobre as vendas futuras. “Eles precisam tanto da máquina para garantir a infraestrutura que o preço não é o principal ‘driver’ [motivador] da decisão de compra”.
A Weg também deverá sentir os efeitos da medida, apesar de manter dez fábricas em território americano. A empresa não comentou o tema.
Segundo Venilton Tadini, presidente-executivo da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), o impacto final sobre as exportações de equipamentos também dependerá da evolução do câmbio.
Entre as grandes empresas industriais, a Embraer ficou fora da nova tributação. “A decisão reconhece a importância do setor para a economia americana e a contribuição da Embraer para a indústria aeronáutica do país, onde seguimos investindo”, afirmou a companhia.
Em outros segmentos, entretanto, as perspectivas foram revisadas para baixo. A Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) passou a projetar retração de 7,1% nas exportações em 2026, ante previsão anterior de queda de 3,6%.
“É um retrocesso para uma relação construída ao longo de décadas”, disse o presidente-executivo, Haroldo Ferreira.
Para a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), a medida reduz a competitividade da indústria nacional frente aos concorrentes internacionais e pode estimular investimentos em outros países do Mercosul.
“Poderá ensejar uma outra onda de investimentos para fugir do tarifaço”, afirmou o diretor-superintendente, Fernando Pimentel.
As exportações brasileiras de têxteis para os Estados Unidos acumulam queda de quase 12% em valor no primeiro semestre, embora o país continue sendo o principal destino das vendas externas do setor.
Na indústria de revestimentos cerâmicos, os impactos também se intensificaram. Após a adoção das tarifas, as exportações para os Estados Unidos registraram queda de 48% na receita e de 46% no volume no primeiro semestre, em comparação com igual período do ano anterior. Apesar disso, o setor conseguiu ampliar embarques para mercados como Paraguai, Colômbia e Equador.
Indústria Química e Ferro Gusa
A Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) estima que as novas tarifas poderão gerar um custo adicional de US$ 66 milhões até o fim deste ano, ou US$ 133 milhões em bases anualizadas. Dos 1.177 produtos químicos exportados aos Estados Unidos, 58% permanecem sujeitos à nova tarifa, enquanto 42% seguem isentos.
Entre os produtos protegidos pelas exceções estão alumina calcinada, silício, hidróxido de alumínio e óxido de nióbio. Já segmentos como tintas e vernizes, fibras têxteis, sabões, detergentes e perfumaria permanecem entre os mais expostos.
O ferro-gusa também foi incluído na lista de isenções. Para Fausto Varela, presidente do Sindicato da Indústria do Ferro no Estado de Minas Gerais (Sindifer-MG), a decisão foi baseada em critérios técnicos.
“É importante vermos que houve um argumento técnico. Eles dizem que a indústria americana poderia ser prejudicada caso houvesse nova sobretaxa”, disse. “Nós ainda aguardamos a conclusão da investigação aberta pelos Estados Unidos da seção sobre trabalho forçado, mas esperamos que o mesmo argumento também seja válido nesse outro caso.”
Com informações: Valor Econômico


