O projeto da Ponte da Bioceânica, ligação estratégica entre Brasil e Paraguai, foi submetido a uma bateria de testes especializados na Itália para avaliar como a megaestrutura deverá reagir a ventos de alta intensidade durante sua vida útil.
Os estudos, realizados antes da conclusão definitiva do projeto executivo, permitirão ajustes no desenho estrutural e reforçam os mecanismos de segurança previstos para uma das obras mais importantes da integração regional.
O Ministério de Obras Públicas e Comunicações do Paraguai (MOPC), responsável pela execução do empreendimento, incorporou análises técnicas para verificar o comportamento da ponte diante das condições ambientais às quais estará exposta ao longo das próximas décadas.
Por meio do Consórcio JYI, formado pelas empresas PROSUL, INTEC S.A. e INEXA, um modelo em escala da estrutura foi levado ao Politécnico de Milão, na Itália, onde passou por ensaios aerodinâmicos em túnel de vento, sob condições controladas e com simulações de ventos severos.

Os testes permitiram analisar a resposta da ponte diante de cenários extremos e reunir informações para verificar e calibrar os parâmetros do projeto estrutural antes do avanço da obra.
Testes em túnel de vento reforçam projeto da megaestrutura
A engenheira Juliana Duarte, diretora do Consórcio JYI, explicou que o Politécnico de Milão foi escolhido pela experiência acumulada em pesquisas e testes relacionados à aerodinâmica e ao comportamento de grandes estruturas submetidas à ação dos ventos.
Durante os experimentos, a maquete em escala foi exposta a diferentes condições que reproduziram cenários de ventos de alta intensidade. O procedimento permitiu avaliar a estabilidade da estrutura e verificar parâmetros ligados ao seu comportamento aerodinâmico.
Os testes em túnel de vento são uma ferramenta utilizada no desenvolvimento de grandes pontes, especialmente em estruturas de grande extensão e com características técnicas particulares, como é o caso da Ponte da Bioceânica.
Com os resultados obtidos, os especialistas conseguem identificar os efeitos provocados pela ação dos ventos e promover ajustes nos modelos utilizados para os cálculos estruturais.
No caso da Ponte da Bioceânica, os estudos foram realizados antes da conclusão total do projeto executivo. A antecipação dos testes permitiu incorporar os resultados diretamente ao processo de engenharia e realizar as calibrações necessárias no desenho da estrutura.
Dessa forma, o comportamento da ponte diante da força dos ventos foi analisado tanto por meio de modelos matemáticos e cálculos estruturais quanto por testes físicos realizados sobre uma maquete em escala.
Ponte terá monitoramento permanente após entrar em operação
O controle da estrutura, no entanto, não ficará restrito à fase de construção. O projeto prevê que a Ponte da Bioceânica seja equipada com um sistema de instrumentação e monitoramento estrutural, capaz de acompanhar permanentemente seu comportamento depois da entrada em operação.
A tecnologia permitirá obter dados sobre a resposta real da estrutura às condições ambientais e de utilização, complementando os estudos e verificações realizados durante a fase de projeto.
A combinação entre ensaios especializados, cálculos estruturais e sistemas de monitoramento deverá fornecer ao MOPC informações contínuas sobre o desempenho da ponte diante das condições climáticas e das exigências impostas pelo tráfego e pela operação.
Obra é estratégica para integração entre Brasil e Paraguai
A Ponte Internacional Bioceânica é considerada uma das obras de infraestrutura mais estratégicas da América do Sul. Ela integra o Corredor Bioceânico de Capricórnio, conectando Brasil, Paraguai, Argentina e Chile em uma nova rota logística rumo ao Oceano Pacífico.
Por esse corredor, será escoada a produção agrícola, pecuária, industrial e mineral dos quatro países até os portos chilenos de Mejillones, Antofagasta, Tocopilla e Iquique, reduzindo distâncias, custos de transporte e tempo de viagem, aumentando significativamente a competitividade das exportações para os mercados asiáticos.
Construída com recursos da Itaipu Binacional, que investiu cerca de US$ 100 milhões no lado paraguaio, a ponte é executada pelo Consórcio PYBRA, formado pelas empresas Tecnoedil, Paulitec Construções e Cidade Ltda.
A obra foi orçada em cerca de US$ 100 milhões (pouco mais de R$ 500 milhões), integralmente financiados pela margem paraguaia da Itaipu Binacional.
Os dois pilares principais e os cabos receberão sensores eletrônicos que monitoram cargas, enviando pulsos para computadores que acompanham os esforços da ponte em tempo real, inclusive, quando veículos passam ou ocorrem eventuais problemas estruturais.

Outros serviços previstos incluem a iluminação fluvial, que garante o tráfego seguro de embarcações no Rio Paraguai, além do acabamento do piso da ponte e instalação de grades de proteção para pedestres e ciclistas, já que a estrutura contará com uma ciclovia.
O projeto também incorporou uma solução ambiental inédita com barreiras de segurança reflexivas para evitar a colisão de aves em voo na estrutura da ponte, além de controles ambientais para evitar que resíduos cheguem ao leito do rio, incluindo estruturas para tratamento de restos de concreto e monitoramento permanente de insumos e combustíveis.
Posteriormente, serão realizados asfaltamento, pintura, colocação de placas sinalizadoras e iluminação ornamental.
Rota Bioceânica
A estrutura estaiada é considerada estratégica para consolidar a Rota Bioceânica, ligando os portos do norte do Chile, em Antofagasta e Iquique, passando pelo Paraguai e Argentina, até os portos brasileiros, como o de Porto Murtinho, e futuramente outros da costa atlântica.
O Corredor Bioceânico deverá encurtar em mais de 9,7 mil quilômetros a rota marítima das exportações brasileiras, principalmente aquelas oriundas do Sudeste e do Centro-Oeste, para a Ásia. Em uma viagem para a China, a estimativa é de redução de 23% no tempo de transporte, o equivalente a 12 a 17 dias a menos.
Além da ponte e de seus acessos, está prevista a construção de infraestruturas alfandegárias integradas em ambos os lados da fronteira. Segundo a Receita Federal, o fluxo inicial estimado é de 250 caminhões por dia, podendo aumentar à medida que a Rota se consolide como alternativa logística de exportação e importação para o Mercosul e a Ásia.


