spot_img
segunda-feira, 27 abril 2026
HomeBioeconomiaCombinação entre Bioeconomia e Inteligência Artificial é uma das maiores transformações econômicas...

Combinação entre Bioeconomia e Inteligência Artificial é uma das maiores transformações econômicas da atualidade

Ao mesmo tempo, estudos indicam que a bioeconomia do conhecimento tem potencial de movimentar perto de R$ 765 bilhões por ano até 2032, colocando o país no centro de uma das maiores transformações econômicas da atualidade.

Até 2030, a combinação de bioeconomia e economia de baixo carbono pode adicionar até cerca de US$ 430 bilhões ao PIB brasileiro, segundo estimativas de pesquisas recentes. Ao mesmo tempo, estudos indicam que a bioeconomia do conhecimento tem potencial de movimentar perto de R$ 765 bilhões por ano até 2032, colocando o país no centro de uma das maiores transformações econômicas da atualidade.

Em 2026, duas corridas simultâneas acontecem no mundo. A primeira é a corrida pela inteligência artificial: países e empresas competindo por modelos, poder computacional e domínio de dados. A segunda é a corrida pela bioeconomia: a transição histórica de uma economia baseada em combustíveis fósseis para outra fundada em biomassa, biotecnologia, materiais renováveis e créditos de carbono.

O Brasil é, provavelmente, o país mais bem posicionado para competir nas duas corridas ao mesmo tempo. Tem a maior base de florestas plantadas do mundo, lidera a produção de celulose de eucalipto e vem formando, dentro de suas indústrias, uma geração de especialistas em dados e inteligência artificial. A questão que precisa ser respondida é simples e urgente: o país está percebendo, e aproveitando, essa janela de oportunidade?

Bioeconomia de Base Florestal

Quando o tema “bioeconomia” aparece em conversas no setor, é comum que o primeiro pensamento seja “mais do mesmo”: celulose, papel, embalagem. Mas a bioeconomia de base florestal, em seu estágio mais avançado, é outra coisa: uma plataforma industrial completa, que transforma biomassa em uma variedade de produtos de altíssimo valor agregado.

Uma tonelada de celulose tem um valor de mercado relevante. Porém, a mesma tonelada de biomassa florestal, reprocessada em biopolímeros de alta performance, enzimas industriais, insumos farmacêuticos ou nanomateriais de celulose, pode valer muitas vezes mais. O diferencial não está na matéria-prima, mas no que se faz com ela, na tecnologia, nas rotas bioquímicas, na capacidade de projetar novos materiais e modelos de negócio.

Como resume Francisco Razzolini, Diretor de Tecnologia, Inovação e Sustentabilidade da Klabin e presidente do Congresso ABTCP 2026, a bioeconomia de base florestal representa uma oportunidade concreta de crescimento para o Brasil, combinando inovação, escala e sustentabilidade, em uma nova fase em que biotecnologia, inteligência artificial e novos materiais passam a impulsionar a evolução do setor.

Não por coincidência, o tema central do ABTCP 2026, um dos maiores congressos de celulose e papel do mundo, é justamente “O fortalecimento da bioeconomia de base florestal”. O setor está sinalizando, de forma coletiva, que este é o próximo ciclo. O que ainda falta é velocidade de execução.

Tamanho Real da Oportunidade

Antes de entrar no papel da inteligência artificial, vale dimensionar a escala do que está em jogo. Os dados disponíveis apontam para um potencial econômico raro na história recente do país.

  • Potencial de movimentar centenas de bilhões de reais por ano em bioeconomia do conhecimento até 2032, segundo estudo da ICC Brasil;
  • Possibilidade de adicionar até cerca de US$ 430 bilhões ao PIB nacional até 2030, impulsionada por economia verde, agricultura de baixo carbono e transição energética, de acordo com análises do Instituto AYA e parceiros;
  • Aproximadamente R$ 105 bilhões em investimentos anunciados por Arauco, Suzano, CMPC, Bracell e Klabin apenas até 2028;
  • Mais de 60% do crescimento líquido global em celulose de fibra curta entre 2025 e 2030 concentrado no Brasil, segundo dados compilados por Globalwood e Portal Celulose.

O setor florestal brasileiro cresce em investimentos e em relevância estratégica ao mesmo tempo. O Projeto Sucuriú da Arauco, maior investimento da história da empresa, com US$ 4,6 bilhões e capacidade de 3,5 milhões de toneladas por ano, a megafábrica da Suzano em Ribas do Rio Pardo, com investimento de R$ 22 bilhões, e os projetos da CMPC e Bracell somados fazem do Brasil o novo epicentro mundial da expansão da celulose.

Mas expansão de capacidade, por si só, não é bioeconomia. É o primeiro degrau. O salto para o topo da cadeia de valor e para o centro do mundo em 2030 depende de outro ingrediente: a inteligência artificial aplicada de forma sistêmica, da floresta ao produto final.

Inteligência Artificial

A inteligência artificial redefine a lógica de cada elo da cadeia produtiva, desde a genética das mudas à rastreabilidade do produto até o cliente final.

– Na floresta

Modelos de IA já simulam, em computador, décadas de desenvolvimento florestal em questão de horas, testando diferentes combinações de espécie, espaçamento, adubação e timing de colheita, a partir de variáveis de solo, clima, genética das mudas e histórico de pragas. Em outras palavras, o que antes exigia ciclos completos de plantio, crescimento e colheita para ser aprendido empiricamente passa a ser modelado com base em dados massivos.

Empresas como a Suzano, a CENIBRA e a Klabin utilizam IA para detecção automática de focos de incêndio florestal, identificando sinais mínimos de fumaça por câmeras de vigilância com processamento em tempo real e reduzindo drasticamente o tempo de resposta das brigadas. Nesse tipo de aplicação, minutos economizados significam milhares de hectares preservados.

– Na fábrica

Na etapa industrial, casos como o da assistente virtual “Ana MarIA”, desenvolvida pela Suzano em parceria com a Microsoft, mostram bem o potencial da IA generativa. Integrada ao ambiente de colaboração da empresa, ela atua como copiloto do operador na linha de cozimento, oferecendo parâmetros, diagnósticos e recomendações em tempo real, reduzindo o tempo de treinamento de novos profissionais e aumentando a consistência operacional.

Outras soluções como plataformas de gestão de ativos com algoritmos de machine learning, sistemas de otimização logística de abastecimento de fábricas e modelos para alocação inteligente de vapor em turbinas ilustram que a IA já está presente no dia a dia das operações, mesmo quando o termo não aparece no nome de cada projeto.

O Projeto Sucuriú da Arauco, por exemplo, foi concebido desde a origem com a lógica da Indústria 4.0: controles de processos integrados, simuladores para treinamento operacional e soluções de conectividade ao longo de toda a cadeia, do processamento da madeira ao controle de qualidade da celulose. Não se trata de “plug-in” posterior, mas de arquitetura de base.

– Na sustentabilidade e na pegada de carbono

A rastreabilidade da fibra, da floresta ao consumidor final, deixou de ser um diferencial e passou a ser exigência. O Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR) elevou o nível de rigor a partir de 2026: fabricantes brasileiros que exportam para a Europa precisam comprovar, com documentos e sistemas, a origem de sua matéria-prima.

Plataformas que combinam sensoriamento remoto por satélites e drones com algoritmos de IA para análise geoespacial estão se tornando o padrão para garantir conformidade. O objetivo é claro: transformar cada metro quadrado de área produtiva em um registro verificável em mapas e bancos de dados, reduzindo espaço para dúvidas e contestações.

Um exemplo pioneiro vem da CENIBRA, que se tornou a primeira empresa das Américas a implementar o SAP Green Token, solução que centraliza dados de geolocalização e atributos de sustentabilidade de toda a cadeia de suprimentos para atender ao EUDR. Na prática, a plataforma coleta imagens das áreas de extração florestal, cruza com dados do processo produtivo e gera automaticamente as declarações exigidas para exportação à União Europeia, enviando-as diretamente ao sistema oficial TRACES. Em poucos meses de operação, dezenas de milhares de toneladas de celulose já passaram a ser rastreadas com esse nível de granularidade.

A CENIBRA também anunciou sua entrada no mercado de biocarbono de alta densidade. Nesse contexto, a mensuração, o reporte e a verificação de estoques de carbono florestal com apoio de IA e sensoriamento remoto são a infraestrutura que torna esse mercado confiável e escalável: sem isso, o crédito de carbono permanece vulnerável a críticas; com isso, aproxima-se de um ativo financeiro rigorosamente auditável.

Vantagem

Uma pergunta orienta muitas discussões sobre transformação digital no setor: por que a IA aplicada à bioeconomia florestal é mais poderosa no Brasil do que em outros países?

A resposta passa por três camadas principais.

  • Vantagem biológica estrutural: o eucalipto brasileiro cresce em 5 a 7 anos o que leva 25 a 30 anos em países nórdicos. Isso significa que modelos de IA de otimização florestal aqui geram ciclos de feedback4 a 5 vezes mais rápidos do que em competidores do hemisfério norte: aprendem mais depressa, corrigem mais depressa, melhoram mais depressa;
  • Volume de dados industriais: fábricas que operam 24 horas por dia, 365 dias por ano, com instrumentação densa e processos contínuos, produzem conjuntos de dados gigantescos. Cada ciclo de produção alimenta os modelos de IA e, quanto maior a escala, com plantas que se aproximam de 3,5 milhões de toneladas por ano, maior a riqueza dos dados;
  • Integração floresta–fábrica–produto: empresas brasileiras de celulose atuam, muitas vezes, como silvicultoras, industriais e exportadoras ao mesmo tempo. Essa integração vertical é rara no mundo e abre a possibilidade de treinar modelos que otimizam a cadeia inteira, em vez de apenas um elo isolado.

O reconhecimento estatal desse potencial aparece no Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio), lançado em 2026 com aporte inicial de R$ 350 milhões do Fundo Amazônia. O plano define um conjunto robusto de metas e ações estratégicas, organizado em três eixos: sociobioeconomia e ativos ambientais; bioindustrialização competitiva; e produção sustentável de biomassa, construído ao longo de dois anos com participação de diversos ministérios, instituições de pesquisa e sociedade.

Medidas

A janela de oportunidade existe, mas janelas se fecham. Há pelo menos quatro movimentos que o setor precisa acelerar.

  1. Investir em arquitetura de dados antes de falar em IA

A IA só gera valor quando opera sobre dados organizados, acessíveis, confiáveis e bem governados. Muitas plantas brasileiras possuem sensores, histórico operacional e processos ricos, mas os dados ainda permanecem em silos: sistemas de supervisão de um lado, MES de outro, ERP isolado e dados florestais frequentemente em planilhas.

A prioridade zero é integrar esses fluxos de informação com uma arquitetura robusta, que incorpore governança de dados, incluindo padronização, qualidade, catalogação e rastreabilidade, além de mecanismos sólidos de segurança, como controle de acesso, proteção contra vazamentos e conformidade com normas e políticas corporativas, incluindo a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados).

Sem essa base, nenhum modelo consegue enxergar a cadeia como um sistema único. A IA acaba restrita a “ilhas” de aplicação, com impacto limitado e riscos elevados associados ao uso inadequado, inseguro ou não conforme dos dados.

  1. Formar os novos profissionais do futuro

O perfil mais escasso hoje não é apenas o engenheiro de processos nem apenas o cientista de dados, mas o profissional que transita de forma fluente entre os dois mundos. É quem entende o que acontece no Digestor e, ao mesmo tempo, sabe treinar, avaliar e colocar em produção um modelo preditivo.

O setor já reage: expansão de cursos de Tecnologia em Celulose e Papel, iniciativas de capacitação técnica da ABTCP, crescimento de times de dados e IA dentro das empresas florestais e de celulose. Mesmo assim, a velocidade ainda está aquém da demanda que se avizinha até 2030.

Nesse contexto, o Pulp Summit Latinoamérica 2026 surge como um catalisador dessa transformação, reunindo lideranças e especialistas justamente para discutir como desenvolver o capital humano necessário à Indústria 5.0.

  1. Avançar de commodity para cadeia de valor

Exportar celulose, mesmo em volumes crescentes, não será suficiente para capturar todo o potencial da bioeconomia. O próximo degrau é exportar biopolímeros, biocombustíveis certificados, créditos de carbono com rastreabilidade verificada por IA e insumos farmacêuticos de origem florestal.

É a transição da venda de matéria-prima para a venda de propriedade intelectual embutida nos produtos, nos processos e nos modelos de dados. Em outras palavras, trata-se de transformar o “quilo de fibra” em “quilo de conhecimento”, com margem muito maior.

  1. Construir governança de dados setorial

Existe um potencial ainda pouco explorado de colaboração em dados entre empresas do setor. Modelos de IA treinados com dados anonimizados de múltiplas plantas e companhias tendem a ser significativamente mais robustos do que modelos restritos a uma única operação.

Experiências internacionais mostram que ecossistemas de inovação colaborativa, em que empresas competem no mercado, mas cooperam em pesquisa e dados, conseguem acelerar ganhos de produtividade e sustentabilidade. Iniciativas de missões técnicas e fóruns internacionais, como as comitivas organizadas pela ABTCP para eventos como o Pulp & Beyond, e o Projeto Benchmaking Setorial da ABTCP apontam nesse sentido.

2030 – Mais Perto do que Parece

Quatro anos são pouco na escala de um ciclo industrial. Fábricas planejadas hoje entrarão em operação perto de 2028 ou 2029; modelos de IA treinados com dados de 2026 estarão maduros em 2028; profissionais que estão se formando agora acumularão dois ou três anos de experiência prática em 2030.

Isso significa que as decisões tomadas nos próximos 18 a 24 meses vão determinar em grande medida onde o Brasil estará na bioeconomia florestal inteligente em 2030. Não é figura de linguagem, é a aritmética do ciclo industrial.

Em 2030, o país que liderar a bioeconomia florestal inteligente não será necessariamente o que tiver mais árvores ou as melhores máquinas. Será aquele que souber combinar, com mais competência, dados, algoritmos e conhecimento biológico para transformar biomassa em valor de alta densidade.

O Brasil já tem as árvores, as fábricas e um contingente crescente de profissionais qualificados. Está construindo suas bases de dados e formando, ainda que gradualmente, a geração que vai operar essa combinação.

A maior vantagem competitiva, porém, não está apenas nas florestas, mas nas pessoas que sabem transformar o que cresce nessas florestas em inteligência, algo que nenhum país pode simplesmente comprar pronto.

***Por Flavio Hirotaka Mine, Especialista em Dados e Inteligência Artificial na CENIBRA

NOTÍCIAS RELACIONADAS

ÚLTIMAS NOTÍCIAS