Até 2030, a combinação de bioeconomia e economia de baixo carbono pode adicionar até cerca de US$ 430 bilhões ao PIB brasileiro, segundo estimativas de pesquisas recentes. Ao mesmo tempo, estudos indicam que a bioeconomia do conhecimento tem potencial de movimentar perto de R$ 765 bilhões por ano até 2032, colocando o país no centro de uma das maiores transformações econômicas da atualidade.
Em 2026, duas corridas simultâneas acontecem no mundo. A primeira é a corrida pela inteligência artificial: países e empresas competindo por modelos, poder computacional e domínio de dados. A segunda é a corrida pela bioeconomia: a transição histórica de uma economia baseada em combustíveis fósseis para outra fundada em biomassa, biotecnologia, materiais renováveis e créditos de carbono.
O Brasil é, provavelmente, o país mais bem posicionado para competir nas duas corridas ao mesmo tempo. Tem a maior base de florestas plantadas do mundo, lidera a produção de celulose de eucalipto e vem formando, dentro de suas indústrias, uma geração de especialistas em dados e inteligência artificial. A questão que precisa ser respondida é simples e urgente: o país está percebendo, e aproveitando, essa janela de oportunidade?
Bioeconomia de Base Florestal
Quando o tema “bioeconomia” aparece em conversas no setor, é comum que o primeiro pensamento seja “mais do mesmo”: celulose, papel, embalagem. Mas a bioeconomia de base florestal, em seu estágio mais avançado, é outra coisa: uma plataforma industrial completa, que transforma biomassa em uma variedade de produtos de altíssimo valor agregado.
Uma tonelada de celulose tem um valor de mercado relevante. Porém, a mesma tonelada de biomassa florestal, reprocessada em biopolímeros de alta performance, enzimas industriais, insumos farmacêuticos ou nanomateriais de celulose, pode valer muitas vezes mais. O diferencial não está na matéria-prima, mas no que se faz com ela, na tecnologia, nas rotas bioquímicas, na capacidade de projetar novos materiais e modelos de negócio.
Como resume Francisco Razzolini, Diretor de Tecnologia, Inovação e Sustentabilidade da Klabin e presidente do Congresso ABTCP 2026, a bioeconomia de base florestal representa uma oportunidade concreta de crescimento para o Brasil, combinando inovação, escala e sustentabilidade, em uma nova fase em que biotecnologia, inteligência artificial e novos materiais passam a impulsionar a evolução do setor.
Não por coincidência, o tema central do ABTCP 2026, um dos maiores congressos de celulose e papel do mundo, é justamente “O fortalecimento da bioeconomia de base florestal”. O setor está sinalizando, de forma coletiva, que este é o próximo ciclo. O que ainda falta é velocidade de execução.
Tamanho Real da Oportunidade
Antes de entrar no papel da inteligência artificial, vale dimensionar a escala do que está em jogo. Os dados disponíveis apontam para um potencial econômico raro na história recente do país.
- Potencial de movimentar centenas de bilhões de reais por ano em bioeconomia do conhecimento até 2032, segundo estudo da ICC Brasil;
- Possibilidade de adicionar até cerca de US$ 430 bilhões ao PIB nacional até 2030, impulsionada por economia verde, agricultura de baixo carbono e transição energética, de acordo com análises do Instituto AYA e parceiros;
- Aproximadamente R$ 105 bilhões em investimentos anunciados por Arauco, Suzano, CMPC, Bracell e Klabin apenas até 2028;
- Mais de 60% do crescimento líquido global em celulose de fibra curta entre 2025 e 2030 concentrado no Brasil, segundo dados compilados por Globalwood e Portal Celulose.
O setor florestal brasileiro cresce em investimentos e em relevância estratégica ao mesmo tempo. O Projeto Sucuriú da Arauco, maior investimento da história da empresa, com US$ 4,6 bilhões e capacidade de 3,5 milhões de toneladas por ano, a megafábrica da Suzano em Ribas do Rio Pardo, com investimento de R$ 22 bilhões, e os projetos da CMPC e Bracell somados fazem do Brasil o novo epicentro mundial da expansão da celulose.
Mas expansão de capacidade, por si só, não é bioeconomia. É o primeiro degrau. O salto para o topo da cadeia de valor e para o centro do mundo em 2030 depende de outro ingrediente: a inteligência artificial aplicada de forma sistêmica, da floresta ao produto final.
Inteligência Artificial
A inteligência artificial redefine a lógica de cada elo da cadeia produtiva, desde a genética das mudas à rastreabilidade do produto até o cliente final.
– Na floresta
Modelos de IA já simulam, em computador, décadas de desenvolvimento florestal em questão de horas, testando diferentes combinações de espécie, espaçamento, adubação e timing de colheita, a partir de variáveis de solo, clima, genética das mudas e histórico de pragas. Em outras palavras, o que antes exigia ciclos completos de plantio, crescimento e colheita para ser aprendido empiricamente passa a ser modelado com base em dados massivos.
Empresas como a Suzano, a CENIBRA e a Klabin utilizam IA para detecção automática de focos de incêndio florestal, identificando sinais mínimos de fumaça por câmeras de vigilância com processamento em tempo real e reduzindo drasticamente o tempo de resposta das brigadas. Nesse tipo de aplicação, minutos economizados significam milhares de hectares preservados.
– Na fábrica
Na etapa industrial, casos como o da assistente virtual “Ana MarIA”, desenvolvida pela Suzano em parceria com a Microsoft, mostram bem o potencial da IA generativa. Integrada ao ambiente de colaboração da empresa, ela atua como copiloto do operador na linha de cozimento, oferecendo parâmetros, diagnósticos e recomendações em tempo real, reduzindo o tempo de treinamento de novos profissionais e aumentando a consistência operacional.
Outras soluções como plataformas de gestão de ativos com algoritmos de machine learning, sistemas de otimização logística de abastecimento de fábricas e modelos para alocação inteligente de vapor em turbinas ilustram que a IA já está presente no dia a dia das operações, mesmo quando o termo não aparece no nome de cada projeto.
O Projeto Sucuriú da Arauco, por exemplo, foi concebido desde a origem com a lógica da Indústria 4.0: controles de processos integrados, simuladores para treinamento operacional e soluções de conectividade ao longo de toda a cadeia, do processamento da madeira ao controle de qualidade da celulose. Não se trata de “plug-in” posterior, mas de arquitetura de base.
– Na sustentabilidade e na pegada de carbono
A rastreabilidade da fibra, da floresta ao consumidor final, deixou de ser um diferencial e passou a ser exigência. O Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR) elevou o nível de rigor a partir de 2026: fabricantes brasileiros que exportam para a Europa precisam comprovar, com documentos e sistemas, a origem de sua matéria-prima.
Plataformas que combinam sensoriamento remoto por satélites e drones com algoritmos de IA para análise geoespacial estão se tornando o padrão para garantir conformidade. O objetivo é claro: transformar cada metro quadrado de área produtiva em um registro verificável em mapas e bancos de dados, reduzindo espaço para dúvidas e contestações.
Um exemplo pioneiro vem da CENIBRA, que se tornou a primeira empresa das Américas a implementar o SAP Green Token, solução que centraliza dados de geolocalização e atributos de sustentabilidade de toda a cadeia de suprimentos para atender ao EUDR. Na prática, a plataforma coleta imagens das áreas de extração florestal, cruza com dados do processo produtivo e gera automaticamente as declarações exigidas para exportação à União Europeia, enviando-as diretamente ao sistema oficial TRACES. Em poucos meses de operação, dezenas de milhares de toneladas de celulose já passaram a ser rastreadas com esse nível de granularidade.
A CENIBRA também anunciou sua entrada no mercado de biocarbono de alta densidade. Nesse contexto, a mensuração, o reporte e a verificação de estoques de carbono florestal com apoio de IA e sensoriamento remoto são a infraestrutura que torna esse mercado confiável e escalável: sem isso, o crédito de carbono permanece vulnerável a críticas; com isso, aproxima-se de um ativo financeiro rigorosamente auditável.
Vantagem
Uma pergunta orienta muitas discussões sobre transformação digital no setor: por que a IA aplicada à bioeconomia florestal é mais poderosa no Brasil do que em outros países?
A resposta passa por três camadas principais.
- Vantagem biológica estrutural: o eucalipto brasileiro cresce em 5 a 7 anos o que leva 25 a 30 anos em países nórdicos. Isso significa que modelos de IA de otimização florestal aqui geram ciclos de feedback4 a 5 vezes mais rápidos do que em competidores do hemisfério norte: aprendem mais depressa, corrigem mais depressa, melhoram mais depressa;
- Volume de dados industriais: fábricas que operam 24 horas por dia, 365 dias por ano, com instrumentação densa e processos contínuos, produzem conjuntos de dados gigantescos. Cada ciclo de produção alimenta os modelos de IA e, quanto maior a escala, com plantas que se aproximam de 3,5 milhões de toneladas por ano, maior a riqueza dos dados;
- Integração floresta–fábrica–produto: empresas brasileiras de celulose atuam, muitas vezes, como silvicultoras, industriais e exportadoras ao mesmo tempo. Essa integração vertical é rara no mundo e abre a possibilidade de treinar modelos que otimizam a cadeia inteira, em vez de apenas um elo isolado.
O reconhecimento estatal desse potencial aparece no Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio), lançado em 2026 com aporte inicial de R$ 350 milhões do Fundo Amazônia. O plano define um conjunto robusto de metas e ações estratégicas, organizado em três eixos: sociobioeconomia e ativos ambientais; bioindustrialização competitiva; e produção sustentável de biomassa, construído ao longo de dois anos com participação de diversos ministérios, instituições de pesquisa e sociedade.
Medidas
A janela de oportunidade existe, mas janelas se fecham. Há pelo menos quatro movimentos que o setor precisa acelerar.
- Investir em arquitetura de dados antes de falar em IA
A IA só gera valor quando opera sobre dados organizados, acessíveis, confiáveis e bem governados. Muitas plantas brasileiras possuem sensores, histórico operacional e processos ricos, mas os dados ainda permanecem em silos: sistemas de supervisão de um lado, MES de outro, ERP isolado e dados florestais frequentemente em planilhas.
A prioridade zero é integrar esses fluxos de informação com uma arquitetura robusta, que incorpore governança de dados, incluindo padronização, qualidade, catalogação e rastreabilidade, além de mecanismos sólidos de segurança, como controle de acesso, proteção contra vazamentos e conformidade com normas e políticas corporativas, incluindo a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados).
Sem essa base, nenhum modelo consegue enxergar a cadeia como um sistema único. A IA acaba restrita a “ilhas” de aplicação, com impacto limitado e riscos elevados associados ao uso inadequado, inseguro ou não conforme dos dados.
- Formar os novos profissionais do futuro
O perfil mais escasso hoje não é apenas o engenheiro de processos nem apenas o cientista de dados, mas o profissional que transita de forma fluente entre os dois mundos. É quem entende o que acontece no Digestor e, ao mesmo tempo, sabe treinar, avaliar e colocar em produção um modelo preditivo.
O setor já reage: expansão de cursos de Tecnologia em Celulose e Papel, iniciativas de capacitação técnica da ABTCP, crescimento de times de dados e IA dentro das empresas florestais e de celulose. Mesmo assim, a velocidade ainda está aquém da demanda que se avizinha até 2030.
Nesse contexto, o Pulp Summit Latinoamérica 2026 surge como um catalisador dessa transformação, reunindo lideranças e especialistas justamente para discutir como desenvolver o capital humano necessário à Indústria 5.0.
- Avançar de commodity para cadeia de valor
Exportar celulose, mesmo em volumes crescentes, não será suficiente para capturar todo o potencial da bioeconomia. O próximo degrau é exportar biopolímeros, biocombustíveis certificados, créditos de carbono com rastreabilidade verificada por IA e insumos farmacêuticos de origem florestal.
É a transição da venda de matéria-prima para a venda de propriedade intelectual embutida nos produtos, nos processos e nos modelos de dados. Em outras palavras, trata-se de transformar o “quilo de fibra” em “quilo de conhecimento”, com margem muito maior.
- Construir governança de dados setorial
Existe um potencial ainda pouco explorado de colaboração em dados entre empresas do setor. Modelos de IA treinados com dados anonimizados de múltiplas plantas e companhias tendem a ser significativamente mais robustos do que modelos restritos a uma única operação.
Experiências internacionais mostram que ecossistemas de inovação colaborativa, em que empresas competem no mercado, mas cooperam em pesquisa e dados, conseguem acelerar ganhos de produtividade e sustentabilidade. Iniciativas de missões técnicas e fóruns internacionais, como as comitivas organizadas pela ABTCP para eventos como o Pulp & Beyond, e o Projeto Benchmaking Setorial da ABTCP apontam nesse sentido.
2030 – Mais Perto do que Parece
Quatro anos são pouco na escala de um ciclo industrial. Fábricas planejadas hoje entrarão em operação perto de 2028 ou 2029; modelos de IA treinados com dados de 2026 estarão maduros em 2028; profissionais que estão se formando agora acumularão dois ou três anos de experiência prática em 2030.
Isso significa que as decisões tomadas nos próximos 18 a 24 meses vão determinar em grande medida onde o Brasil estará na bioeconomia florestal inteligente em 2030. Não é figura de linguagem, é a aritmética do ciclo industrial.
Em 2030, o país que liderar a bioeconomia florestal inteligente não será necessariamente o que tiver mais árvores ou as melhores máquinas. Será aquele que souber combinar, com mais competência, dados, algoritmos e conhecimento biológico para transformar biomassa em valor de alta densidade.
O Brasil já tem as árvores, as fábricas e um contingente crescente de profissionais qualificados. Está construindo suas bases de dados e formando, ainda que gradualmente, a geração que vai operar essa combinação.
A maior vantagem competitiva, porém, não está apenas nas florestas, mas nas pessoas que sabem transformar o que cresce nessas florestas em inteligência, algo que nenhum país pode simplesmente comprar pronto.
***Por Flavio Hirotaka Mine, Especialista em Dados e Inteligência Artificial na CENIBRA


