A apenas seis dias do início da 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 31), que será realizada na Turquia, o governo brasileiro apresentou seu aguardado “Mapa do Caminho”, documento que estabelece diretrizes internacionais para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis e intensificar o combate ao desmatamento.
A divulgação ocorre na reta final dos preparativos para o encontro, colocando novamente o Brasil no centro das discussões sobre o futuro da política climática mundial.
A apresentação do documento tão próxima da abertura da conferência amplia a pressão sobre os países participantes para que avancem das negociações diplomáticas para a implementação de medidas concretas.
O roteiro representa uma das últimas entregas da presidência brasileira da COP, assumida durante a conferência realizada em Belém, no Pará, em 2025.
A estratégia está concentrada em dois grandes desafios: acelerar a substituição de petróleo, carvão e gás natural por fontes de energia menos poluentes e interromper a destruição das florestas tropicais até o final desta década.
Segundo os dados apresentados, o setor energético responde por aproximadamente 75% das emissões globais de gases de efeito estufa, enquanto o desmatamento e a degradação florestal representam cerca de 11%.
O governo brasileiro sustenta que não é necessário estabelecer novos compromissos internacionais, mas garantir o cumprimento daqueles já aprovados, especialmente durante o Balanço Global realizado em Dubai.
Documento chega às vésperas da conferência com desafios diplomáticos
A divulgação do Mapa do Caminho faltando menos de uma semana para a COP 31 evidencia a dificuldade de construir consensos internacionais sobre a redução do uso de combustíveis fósseis.
Apesar dos compromissos climáticos assumidos nos últimos anos, países produtores de petróleo, carvão e gás natural continuam apresentando resistência a propostas que estabeleçam prazos e mecanismos mais rígidos para diminuir a participação dessas fontes na economia mundial.
O documento brasileiro procura superar esse impasse ao propor que cada país identifique seus obstáculos econômicos, tecnológicos e estruturais e desenvolva políticas nacionais de transição energética até 2028, quando está prevista uma nova avaliação global dos compromissos climáticos.
Entre as medidas defendidas estão a redução dos subsídios destinados à exploração de combustíveis fósseis, a ampliação dos investimentos em energias renováveis e o fortalecimento de mecanismos financeiros que tornem economicamente viável a substituição das fontes tradicionais.
O Brasil também defende maior participação das economias desenvolvidas no financiamento dessas transformações, considerando sua responsabilidade histórica pelas emissões e sua maior capacidade de mobilização de recursos.
Preservação das florestas exige ações concretas
Outro eixo central do Mapa do Caminho é a interrupção e reversão do desmatamento e da degradação florestal até 2030.
A proposta brasileira considera que a proteção dos biomas depende de políticas públicas permanentes, investimentos em monitoramento ambiental, regularização fundiária, fiscalização e alternativas econômicas para as populações que vivem nas regiões florestais.
O embaixador André Corrêa do Lago destacou a complexidade do enfrentamento à devastação ambiental, ressaltando que a preservação das florestas exige ações coordenadas entre governos, setor privado e comunidades locais.
A experiência da COP 30, realizada na Amazônia, é apresentada como referência para ampliar a participação dos povos indígenas e das comunidades tradicionais nas decisões internacionais sobre conservação ambiental.
O governo brasileiro pretende consolidar essa abordagem durante a conferência na Turquia, associando preservação ambiental, desenvolvimento econômico e inclusão social.
Financiamento de US$ 1,3 trilhão é um dos principais desafios
A necessidade de mobilizar pelo menos US$ 1,3 trilhão por ano para financiar ações climáticas constitui um dos pontos mais relevantes do documento.
Os recursos seriam destinados a projetos de adaptação às mudanças climáticas, redução de emissões, preservação ambiental e desenvolvimento de tecnologias sustentáveis.
A proposta reconhece que os países em desenvolvimento enfrentam dificuldades adicionais para financiar a transição energética, principalmente em razão dos juros elevados, da escassez de crédito e dos riscos associados a investimentos de longo prazo.
Nesse cenário, a participação do setor privado é considerada fundamental. Organizações empresariais brasileiras, entre elas o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), preparam propostas para ampliar a participação das empresas na agenda internacional de descarbonização.
A criação de mecanismos capazes de reduzir riscos financeiros e estimular investimentos em tecnologias verdes está entre as prioridades defendidas pelo Brasil.
Brasil aposta na adesão de pelo menos 50 países
Com a proximidade da COP 31, a diplomacia brasileira trabalha com a possibilidade de formar coalizões internacionais para acelerar a implementação das medidas propostas.
A expectativa mencionada nas discussões preparatórias é que pelo menos 50 países apresentem voluntariamente planos nacionais de ação alinhados às diretrizes do Mapa do Caminho.
A estratégia busca contornar a dificuldade de obter consenso entre todas as nações participantes das negociações climáticas.
Para o Brasil, a prioridade deve ser o cumprimento das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), compromissos pelos quais os países estabelecem metas próprias de redução das emissões de gases de efeito estufa.
O entendimento é que os acordos internacionais existentes já oferecem instrumentos suficientes para iniciar a transição, tornando mais importante a execução das políticas do que a elaboração de novas declarações diplomáticas.
Mato Grosso do Sul pode ampliar oportunidades na economia verde
As propostas apresentadas pelo Brasil também têm reflexos sobre setores estratégicos da economia de Mato Grosso do Sul, especialmente agronegócio, bioenergia, indústria de celulose e conservação ambiental.
O Estado possui uma cadeia sucroenergética consolidada, com produção de etanol e geração de energia a partir da biomassa, atividades diretamente relacionadas à substituição de combustíveis fósseis.
A expansão das florestas plantadas e da indústria de celulose também fortalece a participação sul-mato-grossense na bioeconomia, enquanto a adoção de tecnologias de baixo carbono na agropecuária pode ampliar a competitividade dos produtos estaduais nos mercados internacionais.
A preservação do Pantanal representa outro ponto estratégico, diante da crescente importância dos mecanismos de financiamento climático e de valorização dos serviços ambientais.
Com a divulgação do Mapa do Caminho a apenas seis dias da abertura da COP 31, o governo brasileiro procura estabelecer uma agenda de implementação imediata para a comunidade internacional.
A conferência na Turquia deverá demonstrar até que ponto os países estão dispostos a assumir os custos econômicos e políticos de uma transição energética que exige mudanças profundas nos padrões mundiais de produção, consumo e utilização dos recursos naturais.


