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Bioeconomia transforma proteção da natureza em resposta à crise climática

A Bioeconomia representa uma abordagem inovadora que visa integrar a conservação ambiental com o desenvolvimento econômico, destacando a importância das práticas sustentáveis na utilização dos recursos naturais.

O clima na Área de Proteção Ambiental (APA) Cantão, no oeste do Tocantins, já não é mais o mesmo. O regime de chuvas mudou e as temperaturas estão mais altas, impactando a principal atividade econômica da região: o agroextrativismo, que pode ser uma alternativa sustentável na Bioeconomia.

Maria Ângela Silva, moradora do assentamento 1º de Maio, na cidade de Caseara, e membro de uma associação de mulheres agroextrativistas do local, relata que os pés de cagaita e de mangaba têm frutificado antes do tempo, o que, segundo ela, afeta a qualidade das frutas.

Outras espécies reagem ainda pior ao calor, como o jatobá. “Hoje, ele [o jatobá] tá caindo já estragado. A gente não sabe se é a questão do clima ou se é o agrotóxico”, diz ela.

Bioeconomia

A Bioeconomia representa uma abordagem inovadora que visa integrar a conservação ambiental com o desenvolvimento econômico, destacando a importância das práticas sustentáveis na utilização dos recursos naturais.

A economia da sociobiodiversidade no Brasil tem enorme potencial de gerar emprego e renda de forma conciliada com a preservação da natureza e dos estoques de carbono.

Ao manter árvores nativas em pé e utilizar os recursos do território sem substituí-los por monoculturas, comunidades como a de Caseara cumprem exatamente esse papel.

“Se queremos a transição para um modelo de desenvolvimento econômico mais descarbonizado, mais ético, temos que passar pela bioeconomia”, diz Patrícia Cota, vice-diretora do Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola) e diretora da área de bioeconomia do Instituto.

Em Caseara, o desmatamento provocado pela expansão das lavouras de soja e milho também tem eliminado árvores frutíferas. O agrotóxico citado por Maria Ângela Silva é usado principalmente nas monoculturas de soja, que avançam no estado. “Estamos tendo muito desmatamento na nossa região. Então, tivemos muito prejuízo com isso, perdemos muitas áreas de coleta. É o caso do pequi”, diz.

Dados do INPE mostram que o Tocantins é o estado que mais destruiu o Cerrado, com um desmatamento acumulado desde 2001 de 54 mil km² — área próxima ao tamanho de toda a Paraíba. Considerando o desmatamento de todos os biomas em 2025, Tocantins aparece entre os cinco estados que mais perderam vegetação, segundo o MapBiomas.

Silvana Bastos, coordenadora do programa de sociobiodiversidade do ISPN, explica que existe um potencial estratégico ainda pouco explorado para os produtos da sociobiodiversidade, como na alimentação escolar da rede pública, por exemplo, um mercado com demanda constante e capilaridade em todo o território brasileiro.

Em Caseara, as integrantes da Associação de Mulheres Agroextrativistas da APA vendem frutas para as escolas. Na região do Jalapão, outros produtores fornecem farinha de jatobá para a merenda escolar de escolas públicas de Palmas e de outros 60 municípios. A oferta em nível nacional, no entanto, ainda é pequena.

Produtos feitos pela Associação de Mulheres da APA Cantão – Foto: Divulgação (AMA Cantão)

“Os alimentos da sociobiodiversidade poderiam estar chegando para todo esse mercado consumidor [das escolas] com uma pegada de carbono muito menor, preço mais interessante para o Estado e segurança para chegar nos territórios mais longínquos”, comenta.

Biomas

E não é só no Cerrado que a sociobiodiversidade é essencial para a alimentação. Mesmo com toda a devastação, a Mata Atlântica pode oferecer alimentos como pinhão e juçara. A Caatinga reúne uma riqueza de conhecimentos tradicionais e frutos como umbu e licuri. A Amazônia também é rica em alimentos nativos.

“Pensamos os produtos da sociobiodiversidade como aqueles gourmetizados em prateleira, em pequena escala. Esquecemos desse mercado que é a alimentação escolar desse Brasilzão todo”, diz Silvana Bastos.

A entrada no mercado é apenas um dos desafios enfrentados por quem vive da economia da sociobiodiversidade. Problemas como a falta de destinação de terras públicas para populações tradicionais que já preservam e fazem uso tradicional do território e a dificuldade de acesso a financiamento também entram na lista.

A Associação de Mulheres Agroextrativistas da APA Cantão vivencia o problema da falta de recursos: atualmente, a entidade depende de editais e do apoio de organizações não governamentais para conseguir dinheiro, situação que também impacta suas associadas.

Maria Ângela Silva, por exemplo, ainda não consegue sobreviver apenas da venda dos frutos que coleta. Ela trabalha como agente de saúde há 20 anos.

“Não dá para pensar que vai impulsionar a bioeconomia se a gente não pensar em instrumentos financeiros”, comenta Patrícia Cota, do Imaflora.

Outro desafio é despertar o interesse dos mais jovens por esse tipo de trabalho e pela preservação dos saberes tradicionais.

“Acho que precisa de política pública voltada para o jovem. Hoje, a criança, o jovem, diz: ‘Ah, mãe, a senhora fica catando jatobá, eu não quero catar jatobá, não quero passar pelo que a senhora está passando’”, compartilha a agroextrativista tocantinense.

Para a pesquisadora do Imaflora, o Brasil enfrenta uma crise de sucessão no campo. “Aqueles que aprenderam com os avós, bisavós, estão envelhecendo. Se não tornarmos essa atividade valorizada, vamos ter uma perda imensurável”, diz.

Propostas

Diante dos problemas que a economia da sociobiodiversidade ainda enfrenta no Brasil, a rede do Observatório do Clima compilou propostas para fortalecer o setor. Confira o resumo abaixo:

  • desenvolver políticas em conjunto com povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais, respeitando seus modos de vida;
  • apoiar a produção e a comercialização, evitando modelos baseados em monoculturas;
  • ampliar os instrumentos de financiamento e o acesso ao crédito;
  • ampliar as redes de cooperativas e negócios comunitários, oferecer capacitação técnica e assegurar condições adequadas de trabalho, renda digna e proteção social;
  • embasar as políticas em uma ecologia de saberes que reúna conhecimentos acadêmicos e tradicionais, de modo a ampliar as soluções para o enfrentamento da crise climática e a produção de alimentos saudáveis, sustentáveis e acessíveis;
  • criar condições para fomentar iniciativas lideradas por mulheres;
  • apoiar, especialmente por meio de compras públicas, iniciativas de sociobiodiversidade em áreas urbanas e periféricas, como hortas comunitárias;
  • considerar as comunidades de áreas costeiras e marinhas nas iniciativas;
  • realizar o mapeamento de setores da sociobiodiversidade, com dados e informações desagregados, públicos e de fácil acesso, capazes de gerar diagnósticos para orientar políticas públicas setoriais.

Acesse o documento completo do “OC nas eleições” aqui.

O caderno sobre Economia da Sociobiodiversidade pode ser conferido aqui.

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