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domingo, 9 agosto 2026
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Créditos de Carbono do agro podem movimentar até R$ 3,5 bilhões no mercado internacional

Segundo o estudo, uma estratégia moderada de autorização para a venda internacional de créditos, limitada a um impacto equivalente a até 4% sobre a segunda meta climática brasileira, poderia permitir a negociação de cerca de 15,7 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente.

O agronegócio brasileiro pode gerar até 314,3 milhões de créditos de carbono entre 2025 e 2035 e abrir uma nova fonte de receita para produtores, cooperativas e empresas do setor.

A estimativa faz parte do estudo “O Agronegócio Brasileiro no Mercado de Carbono Internacional: Oportunidades Econômicas, Elegibilidade e Impactos na NDC”, elaborado pela Carbonn Nature, com apoio do Instituto Equilíbrio e do Instituto de Estudos do Agronegócio da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG).

O levantamento foi apresentado nesta quinta-feira (6), durante o Fórum de Agro & Sistemas Alimentares, realizado na São Paulo Climate Week.


Projetos de Créditos de Carbono em MS

Mato Grosso do Sul destaca-se no mercado de créditos de carbono no agronegócio por meio de iniciativas estruturadas de mitigação de gases de efeito estufa e transição agropecuária. Alinhadas à meta estadual de se tornar um território Carbono Neutro até 2030, as frentes de atuação abrangem os três pilares solicitados

– Redução de Emissões de Metano no Manejo de Dejetos Animais
 
A suinocultura em Mato Grosso do Sul lidera a geração de créditos de carbono via tratamento de efluentes com o projeto Brascarbon Methane Recovery Project (BCA-BRA-17) que captura o gás metano gerado pela decomposição de dejetos em sete grandes granjas de suínos do estado. Os resíduos são direcionados a biodigestores para a produção de biogás e energia. O potencial estimado de redução é de 55.560 toneladas de CO₂ equivalente ao ano, gerando créditos certificados ativos. 
– Recuperação de Áreas Degradadas
 
Com milhões de hectares de pastagens com algum grau de degradação, o estado foca na restauração produtiva para captar ativos ambientais, com o Programa Caminho Verde Brasil, iniciativa do Ministério da Agricultura que atua diretamente em Mato Grosso do Sul para converter pastos degradados em sistemas sustentáveis de alta produtividade. O programa viabiliza o sequestro de carbono diretamente no solo por meio da fertilidade recuperada e de técnicas como curvas de nível. 
 
Além disso, Edital internacional, lançado pela MS Ativos Ambientaisl, tem objetivo de selecionar empresas para certificar e comercializar créditos de carbono gerados especificamente em projetos de restauração florestal e ecológica no Cerrado e Pantanal. 
– Manejo Aprimorado de Terras Agrícolas
O foco reside na inserção da pequena e grande produção em sistemas regenerativos integrados com os seguintes projetos:
  • Projeto Carbono Neutro para Agricultura Familiar: Parceria entre o Governo do Estado (Semadesc/Agraer) e fundações internacionais. O projeto atende cerca de 800 famílias agrícolas na implantação de Sistemas Agroflorestais (SAFs), combinando árvores, plantas agrícolas e animais. Os pequenos produtores recebem remuneração direta em créditos de carbono pelo manejo sustentável da terra. 
  • NaturAll Carbon Program: Projeto agrupado e escalável que atua no Cerrado sul-mato-grossense, validando e emitindo créditos de carbono em propriedades privadas que adotam práticas de agricultura regenerativa e manejo aprimorado de solo.  

O Estudo

Segundo o estudo, uma estratégia moderada de autorização para a venda internacional de créditos, limitada a um impacto equivalente a até 4% sobre a segunda meta climática brasileira, poderia permitir a negociação de cerca de 15,7 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente.

Esse volume poderia movimentar até R$ 2,4 bilhões em operações bilaterais entre países por meio dos chamados ITMOs. Caso os créditos fossem elegíveis e destinados ao mercado de compensação da aviação internacional, o CORSIA, a receita potencial poderia chegar a R$ 3,5 bilhões.

Os valores, porém, não representam recursos já contratados ou garantidos. São estimativas condicionadas à regulamentação brasileira, à existência de compradores, à certificação dos projetos e aos preços praticados no mercado internacional.

Três frentes concentram o potencial

O estudo identifica três atividades do agronegócio com maior capacidade de gerar reduções ou remoções de emissões:

-manejo aprimorado de terras agrícolas;

-recuperação de áreas degradadas;

-redução das emissões de metano no manejo de dejetos animais.

Essas frentes já possuem metodologias reconhecidas internacionalmente e projetos em desenvolvimento no Brasil, o que, segundo os responsáveis pelo levantamento, confere maior consistência ao potencial apresentado.

Na prática, poderiam fazer parte desse mercado iniciativas como recuperação de pastagens degradadas, adoção de sistemas produtivos de menor emissão, melhoria do manejo do solo, tratamento de dejetos da pecuária e utilização do biogás gerado em propriedades rurais.

A adoção de uma prática sustentável, entretanto, não gera automaticamente um crédito de carbono.

Para que a redução de emissões seja comercializada, o projeto precisa seguir uma metodologia reconhecida, estabelecer uma linha de base, comprovar que o resultado não ocorreria sem a iniciativa e passar por processos de monitoramento, auditoria e verificação independente.

Receita depende de autorização do governo

Uma das principais conclusões do estudo é que o obstáculo mais imediato não está na falta de potencial do agronegócio, mas na ausência de instrumentos regulatórios plenamente operacionais.

Para que os créditos possam ser negociados como ITMOs, o governo brasileiro precisará emitir uma autorização formal e definir quanto da redução de emissões poderá ser transferida sem comprometer a própria meta climática do país.

A regulamentação também deverá determinar quais metodologias serão aceitas para a emissão dos Certificados de Redução ou Remoção Verificada de Emissões, os chamados CRVEs, ativos oficialmente reconhecidos pelo Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões.

A Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono, vinculada ao Ministério da Fazenda, é responsável por coordenar a fase inicial de implementação do sistema, incluindo regras de monitoramento, relato, verificação e credenciamento de metodologias.

Sem essa estrutura, o potencial econômico calculado pelo estudo não consegue ser convertido em transações internacionais de forma segura e reconhecida pelo governo brasileiro.

CORSIA pode ampliar procura por créditos

Outra possibilidade apontada pelo levantamento é o fornecimento de créditos para o CORSIA, mecanismo criado para compensar parte das emissões da aviação civil internacional.

A partir de 2027, o programa entra em sua segunda fase de cumprimento, prevista para seguir até 2029, com ampliação das obrigações de compensação do setor aéreo internacional.

Nem todo crédito de carbono, porém, poderá ser utilizado pelas companhias aéreas

As unidades precisam vir de programas aprovados pela Organização da Aviação Civil Internacional e cumprir critérios relacionados à integridade ambiental, rastreabilidade, permanência e ausência de dupla contagem. A organização mantém listas específicas de programas e unidades elegíveis para cada fase do CORSIA.

Por isso, a possibilidade de movimentar até R$ 3,5 bilhões dependerá não apenas da geração dos créditos, mas também de sua adequação às regras internacionais da aviação.

Recuperação de áreas degradadas pode gerar ativos

Entre as atividades apontadas pelo estudo, a recuperação de áreas degradadas pode adquirir relevância especial para o Brasil.

O país possui milhões de hectares de pastagens com diferentes níveis de degradação. A recuperação dessas áreas pode elevar a produtividade, ampliar o armazenamento de carbono no solo e reduzir a pressão pela abertura de novas áreas.

Para que o resultado seja reconhecido como crédito, será necessário comprovar quanto carbono adicional foi armazenado ou quanto de emissão foi evitado em relação ao cenário anterior.

Esse processo exige dados confiáveis, acompanhamento ao longo do tempo e mecanismos capazes de garantir que o benefício climático será mantido.

A mesma lógica vale para o manejo de terras agrícolas. Práticas como plantio direto, uso de plantas de cobertura, rotação de culturas e integração entre lavoura, pecuária e floresta podem contribuir para a redução de emissões, mas precisam ser mensuradas dentro de metodologias específicas.

Metano da pecuária também entra no cálculo

O manejo de dejetos animais é outra frente com potencial de geração de créditos.

Em propriedades com criação intensiva de suínos, bovinos ou aves, os resíduos orgânicos podem liberar metano, um gás de efeito estufa com elevado poder de aquecimento.

A instalação de biodigestores permite capturar esse gás e utilizá-lo na produção de energia, calor, biogás ou biometano.

Além de reduzir emissões, a tecnologia pode diminuir custos energéticos, melhorar o manejo dos resíduos e gerar biofertilizante.

Projetos dessa natureza já são utilizados em diferentes mercados de carbono, mas precisam comprovar o volume efetivamente capturado, evitar vazamentos e demonstrar que a redução não ocorreria sem o projeto.

Mercado exige medição e auditoria

Um dos maiores desafios para o produtor rural será transformar práticas ambientais em dados verificáveis.

O mercado de carbono trabalha com sistemas de monitoramento, relato e verificação, conhecidos pela sigla MRV.

Esses sistemas precisam demonstrar:

-quanto o projeto emitia antes;

-qual redução ou remoção foi alcançada;

-por quanto tempo o resultado será mantido;

-se não houve deslocamento das emissões para outra área;

-se o mesmo crédito não foi vendido ou contabilizado duas vezes.

Esse nível de controle pode elevar o custo de desenvolvimento dos projetos, especialmente para pequenos e médios produtores.

Por isso, cooperativas, associações, empresas especializadas e programas de agregação de projetos podem exercer papel importante ao reunir diferentes propriedades, dividir custos técnicos e ampliar a escala das operações.

Potencial não significa renda automática

Embora os valores apresentados chamem atenção, o estudo ressalta que o mercado não funcionará como um pagamento automático por boas práticas agrícolas.

A receita dependerá da qualidade do projeto, da metodologia utilizada, do volume de reduções comprovadas, do custo de certificação, da existência de compradores e do preço negociado.

Também haverá custos com elaboração, monitoramento, validação, auditoria, registro e eventual intermediação dos créditos.

O produtor precisará avaliar se a receita líquida esperada compensa as despesas e as obrigações de longo prazo assumidas no contrato.

Outro ponto de atenção está na divisão dos ganhos entre proprietários rurais, desenvolvedores dos projetos, certificadoras, intermediários e investidores.

Contratos pouco transparentes podem reduzir a parcela que efetivamente chega a quem realiza a mudança produtiva no campo.

Agro busca novo papel na agenda climática

Para Natascha Trennepohl, pesquisadora responsável pelo estudo, o agronegócio brasileiro pode deixar de ser tratado apenas como fonte de emissões e assumir maior protagonismo nas soluções climáticas.

Segundo ela, uma liberação gradual de créditos para o mercado internacional permitiria gerar receita sem comprometer a meta climática brasileira, desde que fossem adotados critérios claros e limites compatíveis com os compromissos do país.

O debate ocorre em um momento decisivo para o mercado nacional.

Além da regulamentação das transferências internacionais, o governo abriu consulta pública para definir a cobertura setorial do mercado regulado brasileiro e o cronograma de entrada das atividades econômicas no sistema.

A forma como essas regras serão construídas deverá determinar quais projetos poderão ser reconhecidos, como os créditos serão registrados e quais oportunidades estarão disponíveis para o setor agropecuário.

Oportunidade bilionária ainda precisa sair do papel

O potencial de movimentar até R$ 3,5 bilhões mostra que o carbono pode se tornar um novo ativo econômico do agronegócio brasileiro.

O país reúne área produtiva, capacidade científica, experiência em agricultura de baixo carbono e grande diversidade de projetos possíveis.

Ainda falta, porém, transformar essa vantagem em um mercado funcional, com regras claras, metodologias confiáveis, segurança jurídica e acesso para produtores de diferentes portes.

Sem regulamentação e sistemas robustos de verificação, os números continuarão no campo das estimativas.

Com uma estrutura bem organizada, os créditos poderão ajudar a financiar recuperação de terras, manejo sustentável, biogás, biometano e outras práticas capazes de combinar produtividade com redução de emissões.

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